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Quase um mês após morte, mãe ainda tenta entender "crime" que levou José

O rapaz de 19 anos foi baleado no dia 9 de dezembro. Para a polícia, ele era do PCC e planejava um atentado

Por Geisy Garnes | 05/01/2022 16:45
José e a mãe Nilva. Até a morte do rapaz, os dois moravam juntos em Hortolândia, município de São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)
José e a mãe Nilva. Até a morte do rapaz, os dois moravam juntos em Hortolândia, município de São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)

Por uma notícia compartilhada no Facebook, depois do aviso de uma amiga. Foi assim que Nilva Maria Macedo, de 43 anos, descobriu sobre a morte do filho. Aos 19 anos, José Martins Macedo, foi baleado em um suposto confronto com policiais do Batalhão de Choque no dia 9 de dezembro, no Bairro Santa Emília.

Quase um mês depois, ela ainda tenta entender o que realmente aconteceu com o filho. Para a polícia, José era integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital) e organizava um atentado contra policiais de Mato Grosso do Sul. Para mãe, o rapaz saiu de Hortolândia, município de São Paulo, para procurar emprego em Campo Grande.

José foi ferido em uma suposta troca de tiros, depois que um motorista de aplicativo abordado pelo Batalhão de Choque revelou um “ataque contra os policiais”. Ele chegou a ser levado para o hospital, mas não resistiu. Na casa em que ele estava, os militares encontraram uma submetralhadora modelo ZK 383, calibre 9mm com um carregador, uma escopeta calibre 12 e duas pistolas 9mm, uma delas com carregador.

Hoje, Nilva questiona cada ponto divulgado pela polícia. José, conta a mãe, era um filho amoroso e responsável, vivia com ela em Hortolândia e sempre foi criado com conforto. Recentemente, falou para a mãe que dois amigos moravam na Capital sul-mato-grossense e aqui vendiam produtos na rua.

Empolgado, pediu para passar alguns dias na cidade para ver se ela era "boa de emprego”. Nilva permitiu a viagem, entregou um cartão de débito ao filho e avisou que ia transferir o dinheiro para a passagem de volta. Nos primeiros dias, tudo ocorreu bem. José mandou vídeos do hotel em que estava e até fotos em uma piscina.

José Martins morava com a família no interior de São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)
José Martins morava com a família no interior de São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)

O tempo passou e a viagem de volta se aproximava. Estava marcada para o dia 10 de dezembro, conta Nilva. Um dia antes, no entanto, o jovem de 19 anos foi morto.

Desolada, a mãe veio a Campo Grande e começou a enxergar detalhes da história que “não batiam”. José morreu com um único tiro, afirma. Bem no peito, na altura do coração. Ela não conseguiu ver o corpo, reconheceu o menino por foto, mesmo assim, notou “queimaduras” no ferimento do filho. “Foi a queima-roupa. Uma troca de tiro e meu filho leva um tiro certeiro no coração?”.

Em busca da verdade, Nilva também foi na casa em que José foi morto. Todo o cenário que encontrou deixou a certeza de que o filho não morava naquele lugar. “Não faz sentido, falaram que ele alugou a casa há um mês, como se ele não estava esse tempo todo na cidade. Tinha comida podre nas panelas. Eu estive lá, não tem pertences do meu filho lá. Onde está a escova de dente, a pasta de dente, perfume, antitranspirante, meia, sapato, chinelo, a roupa do meu filho, onde está?”.

Nos vídeos que o rapaz mandava do hotel para ela, por outro lado, apareciam as roupas e até lanches que ele comia de noite, indícios da vida que José estava acostumado a levar ao lado da família. Infelizmente, conta Nilva, ela não conseguiu encontrar o local em que o filho estava hospedado ou mesmo contato com os amigos que ele veio encontrar.

“É tudo muito estranho, ele falou comigo de noite, eu falei que ia mandar o dinheiro para ele voltar, estava tudo certo. Aí meu filho é pego em um lugar que ninguém fala, não consigo contato nem com os amigos. Só tenho certeza que meu filho não estava nessa casa. Ele tinha uma família que o amava, ele tem uma mãe que o protegia, eu não sou rica, mas dava conforto pro meu filho. Eu conheço meu filho, ele jamais estaria em uma casa sem água e sem luz”.

Na casa, ela também encontrou as marcas dos tiros que supostamente foram dados pelo filho, de dentro para fora da casa. “Se você olhar bem aqueles tiros, do jeito que tá, é de baixo para cima. Se ele tá em pé ele ia atirar na reta da polícia, já não bate, vai atirar na perna de polícia? E outro, se ele estava deitado, vivo ou morto, eu estou falando, é fácil usar a mão dele para dar dois disparos de baixo para cima”.

Além das provas concretas, Nilva confia na criação do filho. “Nunca. Eu conheço e nunca ele apontaria a arma para a polícia”. Os mistérios sobre o que realmente aconteceu com José, conta, vão até depois de sua morte, quando uma suposta namorada procurou a funerária para reconhecer o corpo. A mãe, no entanto, sequer conseguiu descobrir quem é a mulher.

Ao contrário do que dito pela polícia, Nilva nunca soube de qualquer envolvimento do filho com o crime. Pelo contrário, reforça que ele não possui nenhuma passagem pela polícia ao longo dos 19 anos. “Se ele fazia parte de facção, de PCC, de qualquer outra coisa, eu também quero saber. Mas independente disso, por que mataram ele? Por que não elevaram para a delegacia? Pelo menos eu ia conseguir visitar meu filho preso, batalhar para transferir ele para perto de mim. Agora eu não posso”.

Em lágrima, Nilva implora pela verdade, que segundo ela, será a única maneira de fazer o coração aceitar a partida precoce de José. “Eu não consigo descansar o coração de mãe porque tem muito mistério na morte do meu filho, quando eu conseguir desvendar tudo o mistério que aconteceu, se meu filho tem culpa, se meu filho era errado, eu não vou poder descansar, enquanto isso não acontecer eu não vou descansar”.

A morte de José, como ocorreu em razão de ação policial, é investigada pela DEH (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídio).

Casa em que José Martins foi morto no dia 9 de dezembro (Foto: Henrique Kawaminami)
Casa em que José Martins foi morto no dia 9 de dezembro (Foto: Henrique Kawaminami)

Repercussão – Após a morte de José Martins uma convocação do PCC (Primeiro Comando da Capital) para manifestação em frente do Fórum de Campo Grande contra o que chamam de "opressão da polícia e do Governo do Estado" foi divulgada nas redes sociais.

Conforme apurado pela reportagem, foi a morte do rapaz que causou a revolta entre os integrantes da facção paulista. Para combater o que chamaram de "injustiça", as lideranças organizaram uma manifestação contra a polícia. Para isso um grupo de WhatsApp foi criado para “disseminar” a convocação.

Em nota enviada na época, a Polícia Militar negou que a mensagem foi resposta a morte de José Martins e alegou que a convocação aconteceu dois dias antes da troca de tiros no Santa Emília.

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