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Capital

"Se fosse atitude pensada eu jamais faria isso", diz assassina de idosa

"Parece táxi da vovó": Pâmela explicou que apelido surgiu de brincadeira ao dar carona para Dirce, outra idosa e a própria avó

Por Paula Maciulevicius Brasil e Bruna Marques | 11/02/2021 12:26
Acusada diz que matou por impulso e não lembra quantas vezes bateu a cabeça da idosa contra o meio-fio. (Foto: Marcos Maluf)
Acusada diz que matou por impulso e não lembra quantas vezes bateu a cabeça da idosa contra o meio-fio. (Foto: Marcos Maluf)

Entre falas e contradições, Pâmela Ortiz, deu sua versão no tribunal do júri sobre o assassinato da idosa Dirce Santoro Guimarães, morta pela ré depois de ter a cabeça batida várias vezes contra o meio-fio, no Bairro Indubrasil, em Campo Grande, dois anos atrás.

"Foi num impulso, momento de raiva, se fosse atitude pensada jamais faria isso", assumiu. Pâmela conta que conheceu a idosa em 2018, no posto de saúde Lar do Trabalhador, quando levava um dos quatro filhos que tem e que é "especial", como se refere a mãe. Na hora de ir embora, perguntou onde Dirce morava e ofereceu carona. "A casa dela era caminho para ir para minha mãe e avó, e um dia por coincidência passei na dona Idalina [outra idosa com quem Pâmela e os familiares dela conviviam], vi a dona Dirce lá e ela pediu meu telefone", completa.

A relação entre as duas começou com caronas que dona Dirce pedia quando Pâmela fosse passar pela região ou ir para o Centro e que a história do cartão de crédito, que terminou na morte, teve início por causa da compra de um fogão.

"Quem escolheu o fogão foi a Dirce, ela que pagou, depois voltamos lá para comprar um ventilador novo e na loja ela descobriu que não tinha mais limite por causa do fogão", diz Pâmela.

As duas teriam ido então até outra loja para Dirce comprar o ventilador, mas a idosa também estava sem limite porque tinha comprado uma cama para a vizinha e tirado um celular para o agente de saúde do bairro. "Ela era acostumada a tirar coisas no nome dela para as pessoas", comenta Pâmela.

A ré conta que nunca participou de aplicativos ou plataformas de corrida e que não cobrava nada de Dirce. Sobre o apelido "táxi da vovó", a mulher explica que ela mesma comentou um dia que "parece um táxi da vovó" de brincadeira ao dar carona para a avó dela, dona Dirce e outra idosa até um dos centros de convivência do idoso da Capital.

Pâmela diz que nunca usou cartão de idosa em benefício próprio sem a presença da idosa. (Foto: Marcos Maluf)
Pâmela diz que nunca usou cartão de idosa em benefício próprio sem a presença da idosa. (Foto: Marcos Maluf)

"Ela tirava as coisas no cartão para mim, mas eu pagava. Ficam falando que ela tinha dinheiro, mas ela não tinha. Era aposentada, levei ela até um Cras uma vez para cadastrar tarifa mínima de energia", relata a ré.

Pâmela também diz que discutiu com a vizinha quando ela insinuou que as caronas eram pretexto para a motorista roubar Dirce. "Eu falei que eu dava a atenção que ela não dá e que nem a cama ela tinha pago", completa.

Sobre ficar com os cartões da idosa, a acusada confirma que isso aconteceu apenas uma única vez, quando Dirce pediu para ela comprar remédios que a idosa estava com diarreia.

"Nunca usei o cartão dela sem avisar, ela estava sempre presente nas compras. A tinta que apareceu lá foi para pintar o meu salão e o quarto dela, porque ela reclamava que o dono da casa não dava atenção à residência e que o quarto estava mofando. Mas ela tinha conhecimento, nada do que eu comprei no cartão dela foi sem ela estar presente", alega.

Pâmela diz que nunca fez empréstimos no nome de Dirce e que no dia do crime, a pegou em casa às 9h da manhã para elas voltarem a alguns locais onde o cartão de crédito havia sido usado para contestar valores, que segundo Pâmela, Dirce dizia que apareceram maiores na fatura do que ela realmente pagou no dia.

"Eu estava com a minha avó e meu filho, peguei a Dirce, deixei meu filho com a minha mãe e levei minha avó para a casa dela. Nós percorremos os trajetos para confirmar o cartão, andamos tudo aquele dia", relata.

Na versão de Pâmela, a volta foi ouvindo reclamações da idosa que se mostrava irritada com o valor das coisas, como aluguel e mercado. Antes de deixar Dirce em casa, as duas passaram pelo mercado para comprar leite, a pedido da mãe de Pâmela. A compra foi deixada na casa da mãe dela e as duas seguiram.

"Aí ela veio falando que fulano não pagava o celular, isso e aquilo, reclamando que o povo não pagava e me perguntou quando eu ia pagar as coisas para ela. Eu disse que o que devia não dava nem R$ 400,00, mas poderia pagar amanhã. Ela me deu um bofetão na cara e disse que ia na polícia", descreve.

Condenação de Pâmela deve sair nesta terça-feira. (Foto: Marcos Maluf)
Condenação de Pâmela deve sair nesta terça-feira. (Foto: Marcos Maluf)

Em seguida, a acusada conta que levou mais um bofetão e em determinado ponto do trajeto, Dirce saiu o carro andando a pé. "Fui atrás dela para entrar, que eu ia deixá-la em casa, nisso ela grudou no meu cabelo, sem pensar eu peguei a mão dela e com a outra mão, virei e bati a cabeça da Dirce no meio-fio".

"Quando bati e virei, estava saindo muito sangue do nariz e da boca. Foi quando me desesperei, vi que ela não estava mais respirando e arrastei para deixá-la debaixo do pé de goiaba, porque tinha muito sol", completa.

Pâmela alega que não sabe quantas vezes bateu a cabeça da idosa contra o meio-fio e nega que tenha ocultado o corpo. "Eu deixei praticamente à mostra".

Na hora do"pânico" como define a acusada, ela não pensou em ligar para a polícia por medo de acontecer algo e no desespero ligou para um policial da Derf que ela chama de ex-marido pedindo ajuda.

Pertences como dinheiro e a bolsa da idosa foram jogados no local do crime, no Indubrasil. Pâmela dá outros detalhes sobre a conversa que teria tido com o policial, com quem teve relacionamento, e que supostamente teria a aconselhado e fugir para um hotel.

Ela também conta que teve a casa invadida e que levaram todo o material de Direito que ela chegou a cursar no Estado de São Paulo.

"Desde que fui presa, só Deus sabe o que estou passando: oito tipos de medicamento por dia. Não sou psicopata, só estou passando por momentos difíceis".

Ela também fala que o interrogatório na polícia deveria ter sido desconsiderado como ela pediu. "Ele não condiz com a realidade, ali você é torturado".

De pais diferentes, os filhos de Pâmela estão, a caçula com o pai de Pâmela, avô da criança, a mais velha com o próprio pai e os outros dois com a mãe dela.

O resultado do júri deve sair em breve.

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