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Capital

“Sobrinho” alega que agiota matou tia, mas para polícia, versão tem “furos”

Carlos Fernandes, suspeito de envolvimento no assassinato Márcia Lugo Ortiz, sustenta versão digna de filme

Por Anahi Zurutuza, Mirian Machado e Ana Beatriz Rodrigues | 19/10/2021 19:28
Câmera de segurança na rua onde Márcia Lugo morava gravou ela caminhando pouco antes de desaparecer. (Foto: Reprodução)
Câmera de segurança na rua onde Márcia Lugo morava gravou ela caminhando pouco antes de desaparecer. (Foto: Reprodução)

Carlos Fernandes Soares, 33, preso na sexta-feira, dia 15, por suspeita de envolvimento no assassinato de Márcia Catarina Lugo Ortiz, 57 anos, sustenta versão digna de filme sobre o ocorrido. Ele alega que a “tia” foi morta ao defendê-lo de homem que trabalha como cobrador de agiota e que depois de testemunhar a execução, foi raptado por dupla, assistiu à desova do corpo e só não revelou nada sobre o crime a ninguém, porque estava sob constante ameaça.

Consta em registro policial que cinco dias depois de Márcia ter sido encontrada morta, em 13 de outubro, Carlos “revelou” a história para uma familiar da vítima. Essa pessoa foi à polícia no mesmo dia e o “sobrinho” se comprometeu a comparecer na delegacia, mas não cumpriu a promessa.

Toyota SW4, também na rua da casa da vítima, minutos antes do sumiço dela. (Foto: Reprodução)
Toyota SW4, também na rua da casa da vítima, minutos antes do sumiço dela. (Foto: Reprodução)

O suspeito de envolvimento no assassinato conta que havia alugado uma Toyota SW4 para, junto com a “tia”, seguir Guilherme Yarzon Ortiz, de 66 anos, atrás de “provas” de que o marido da vítima “colecionava amantes”. Ainda de acordo com a narrativa, na noite do desaparecimento, Márcia estava com ele quando os dois foram abordados por Carlos Henrique Machuca Santareno, o “China”, que trabalharia como cobrador para um agiota com quem Carlos Fernandes tinha dívida exorbitante.

Carlos Henrique Machuca Santareno, o “China”, que também está preso. (Foto: Reprodução)
Carlos Henrique Machuca Santareno, o “China”, que também está preso. (Foto: Reprodução)

O “sobrinho” relata ainda que não tinha dinheiro para pagar o agiota naquela noite e que Márcia passou a defendê-lo. A situação fugiu do controle e ele “arrancou” com a SW4, momento em que “China” disparou tiro, que atingiu a vítima na cabeça.

Carlos Fernandes contou que o cobrador tinha um comparsa. Naquele momento, “China” o raptou e o obrigou a entrar em carro que era conduzido pelo outro homem. O cúmplice do suposto assassino teria assumido o volante da SW4 e os dois veículos começaram a dar voltas na cidade, até que pararam em ponte sobre o Córrego Imbirussu, na BR-262, onde o corpo de Márcia foi desovado.

Depois de tudo isso, Carlos afirma que passou a ser ameaçado e monitorado para não denunciar “China” e o comparsa.

Versão suspeita – Para a investigação, a versão apresentada por Carlos tem “furos”. “Por que locou carro de luxo para monitorarem o esposo da vítima ao invés de um veículo mais módico, uma vez que ele é declaradamente motorista de aplicativo e até tinha dívidas com agiota? Como cobradores do agiota sabiam de seu paradeiro e, especialmente, por que eles foram abordados se, inclusive, estavam num veículo locado?”, questiona o delegado João Reis Belo, titular da 6ª DP (Delegacia de Polícia) e responsável pelo inquérito, no pedido judicial para prender o “sobrinho” e “China”, ao qual o Campo Grande News teve acesso.

Carlos Fernandes teve outras atitudes suspeitas, conforme investigadores. A polícia levantou que, depois do ocorrido, ele levou o carro locado, que estava sujo com o sangue de Márcia, a um lava-jato e também para consertos na lataria (funileiro) e no estofado (tapeceiro), onde havia um furo que pode ter sido provocado por tiro.

No pátio da 6ª DP, SUV alugado por "sobrinho" de Márcia foi periciado, um dia antes dele ser preso. (Foto: Paulo Francis)
No pátio da 6ª DP, SUV alugado por "sobrinho" de Márcia foi periciado, um dia antes dele ser preso. (Foto: Paulo Francis)

Além disso, até ser preso na tarde da sexta-feira, dia 15, Carlos não havia procurado a polícia e, de acordo com o registrado em relatório do GOI (Grupo de Operações e Investigações), “fugiu” de todas as tentativas de contato que policiais fizeram. Ele também esteve em Bela Vista do Norte, cidade no Paraguai, e em Ponta Porã, na fronteira, o que deixou a força-tarefa policial empenhada na investigação com os “radares ligados” na possibilidade real de fuga.

Por qual razão Carlos não apresentou o veículo à polícia? Por qual razão, mesmo após insistentemente procurado pelos investigadores, inclusive, com o oferecimento de escolta e proteção, Carlos se esquivou de prestar formal esclarecimento?”, continua João Reis Belo, na petição que resultou na ordem para prender os suspeitos.

O delegado argumentou que as investigações estavam no início e que eram necessárias inúmeras respostas “para fechar esse quebra-cabeça”, por isso, era preciso prender os dois Carlos temporariamente. “Qual seria o agiota mandante da cobrança extorsiva? Quem seria o comparsa de ‘China’? Haveria algum outro motivo a justificar a morte de Márcia sob o domínio de Carlos? Por que Carlos lavou o SUV, consertou o estofado e a funilaria antes de restituí-lo ao locador?”, completa a lista de perguntas.

Por fim, o responsável pelo inquérito também explanou à Justiça que só a prisão de Carlos Fernandes e “China” ajudaria a solucionar o caso, uma vez que os dois, “além do comparsa não identificado, são três personagens que em tese se encontravam diretamente ligados à cena do homicídio, não havendo ainda nenhuma clareza sobre a dinâmica, conduta comissiva ou omissiva de qualquer um deles”.

Defesa – A defesa de Carlos Fernandes Soares entrou com pedido de revogação da prisão temporária nesta segunda-feira (18), argumentando que o cliente “é vítima e não um suspeito de ter cometido o crime de homicídio de Márcia Lugo”.

O advogado Matheus Machado Lacerda alega ainda que Carlos está colaborando com as investigações, uma vez que além de prestar depoimento, entregou o celular à polícia para comprovar sua versão e participou de reprodução simulada dos fatos que narrou.

Lembrou que o cliente, a quem trata como “testemunha-chave”, só não havia procurado a polícia antes, porque estava sendo ameaçado. “Tais ameaças foram feitas através de ligações e conversas via aplicativo WhatsApp, do aparelho celular do requerente, o qual consta apreendido e à disposição do delegado”, anotou na petição.

Márcia Catarina Lugo Ortiz posando para foto. (Foto: Arquivo pessoal/Direto das Ruas)
Márcia Catarina Lugo Ortiz posando para foto. (Foto: Arquivo pessoal/Direto das Ruas)

Reviravolta – Carlos, que por consideração, chamava Márcia de tia, antes de contar a versão sustentada para a polícia, tentou direcionar o foco das investigações para o marido da vítima, Guilherme, que é policial civil aposentado.

Conforme relatado pelo “sobrinho” ao Campo Grande News, na semana em que foi encontrada morta, a dona de casa estava seguindo o marido atrás de “provas” de que ele colecionava amantes. A intenção de Márcia seria expor a infidelidade do marido e anunciar a separação à família depois do aniversário dela, no dia 11 de outubro, o que poderia ser um motivo para matá-la.

A descoberta do paradeiro da Toyota SW4 e dos consertos feitos no veículo mudaram os rumos do inquérito.

Desaparecimento e morte - Segundo o boletim de ocorrência, registrado pelo marido de Márcia às 12h do dia 8 de outubro, a esposa desapareceu por volta das 19h do dia anterior. Guilherme disse que ela saiu a pé da casa da mãe em direção a sua residência, que fica a menos de uma quadra de distância, na Rua Bernardo Franco Baís, Vila Carvalho – região central da Capital.

Uma vizinha contou que a vítima chegou a ser seguida por um SUV preto e ao virar a esquina, por volta das 19h, subiu no veículo. À reportagem, a testemunha, que pediu para ter o nome preservado, disse que Márcia parecia conhecer a pessoa que estava no veículo. “Ela já estava para entrar na casa dela, mas o SUV parou bem na hora e ela começou a conversar com o motorista”, narrou, lembrando que Márcia trancou novamente o portão de casa e entrou no carro.

A mulher foi encontrada morta por volta das 14h40 do mesmo dia do registro oficial do desaparecimento, com um tiro na cabeça. O corpo estava sob ponte no Córrego Imbirussu, em Campo Grande. Havia marcas de sangue no guard-rail da pista.

Durante os trabalhos da polícia e perícia no local onde o corpo foi achado, Carlos chegou a consolar Guilherme com um abraço, cena registrada em foto pela equipe do Campo Grande News, que acompanhava o caso.

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