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Campo Grande, Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

08/08/2015 10:36

UPA é esperança de donos para socorrer e gastar menos com animais

Flávia Lima
A protetora Andreia Ost diz que UPA VET audaria entidade a economizarem em tratamentos. (Foto:Marcos Ermínio) A protetora Andreia Ost diz que UPA VET audaria entidade a economizarem em tratamentos. (Foto:Marcos Ermínio)
O vereador Chiquinho Telles (PSD), autor do projeto, diz que cuidar da saúde dos animais é questão humanitária. (Foto:Divulgação)O vereador Chiquinho Telles (PSD), autor do projeto, diz que cuidar da saúde dos animais é questão humanitária. (Foto:Divulgação)

A possibilidade da criação de uma UPA VET (Unidade de Pronto Atendimento Veterinário) na Capital vem sendo comemorada entre os protetores de cães e famílias que nem sempre tem condição de arcar com despesas de clínicas particulares.

O projeto que autoriza a prefeitura a implantar a unidade, que atenderia cães, gatos, cavalos, asnos e burros foi aprovado no início do mês passado e é de autoria do vereador Chiquinho Teles (PSD), que desde 2013 defende a necessidade de um local com essa finalidade.

Segundo argumentou na época da aprovação do projeto, o vereador entende que a assistência à saúde animal é uma questão humanitária e de saúde pública. Ele explicou que o projeto foi pensado e escrito a partir de sugestões de protetores e organizações que resgatam e cuidam de cães e gatos abandonados.

Pela lei, sancionada pelo prefeito Gilmar Olarte (PP) esta semana, a prefeitura fica autorizada, mas não obrigada, a criar a UPA VET. Caso seja construída, a unidade terá o objetivo de prestar os primeiros socorros, além de atendimento de urgência e emergência. Também consta no projeto de lei aprovado, serviços como consultas, medicações e cirurgias.

Segundo a assessoria da prefeitura, como a lei é apenas autorizativa, a administração irá comentar o assunto apenas após o prazo de regulamentação previsto na legislação, que é de 90 dias.

No entanto, para as entidades que se dedicam à causa animal e também enxergam o abandono como uma ameaça à saúde pública, a aprovação da lei significa um grande passo para auxiliar os animais resgatados e que só conseguem tratamento a partir de ações de veterinários voluntários. 

Essa dificuldade para conseguir tratamento para seu animal de estimação vem sendo sentida pela artesã Rosane Nogueira, que há seis meses adotou um vira-latas, batizado de Bernardo, mas devido a questões financeiras de emergência, não pode pagar uma consulta particular no veterinário.

Ela conta que o cãozinho está com um sério problema no intestino e precisaria fazer um ultrassom. Sem recursos, ela aguarda oferta de algum veterinário para iniciar o tratamento do animal. Rosane conseguiu uma consulta na clínica veterinária da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) apenas na segunda-feira, porém ela teme pela saúde do cãozinho.

“A consulta não é tanto o problema, já que a média de preço é de R$ 60,00. O difícil é arcar com medicamentos e exames”, ressalta. Rosane afirma que já é dona de um labrador e que sempre teve condições de manter o cão e que no momento passa por contratempos. “Quando a gente tiura um cãozinho da rua é para garantir a ele um lar e assistência, mas nesse momento não tenho como pagar o tratamento do Bernardo”, explica.

Para a artesã, que desconhecia a aprovação da lei, a criação da UPA, caso realmente saia do papel, será de extrema importância para os protetores e famílias carentes. “A construção teria que ser urgente, porque há muitos bichos pelas ruas, mas também pessoas com boa intenção, O problema é dinheiro. Se está difícil para nós humanos termos uma saúde de qualidade, imagina para os bichos”, lamenta.

A protetora e integrante da Ong Abrigo dos Bichos, Andreia Costa da Silva Ost, também comemorou a aprovação da lei e torce pela sua regulamentação. Ela resalta que a Ong sempre batalhou pela unidade e considera uma conquista dos protetores. Nossa presidente já foi até para São Paulo conhecer o trabalho dessas UPAs. Para a população carente será muito importante porque nem sempre conseguimos ajudar essas pessoas", destaca.

No entanto, Andreia considera importante que seja feita uma triagem para que a UPA-VET atenda realmente apenas as pessoas sem recursos. "Poderiam se basear em comprovantes de renda para que as pessoas carentes tenham prioridade", sugere. 

A protetora acredita que atualmente existam pelo menos 10 mil animais abandonados na Capital e o que dificulta o trabalho das entidades de proteção é a falta de recursos para arcar com o tratamento dos bichos. "No momento nos concentramos em resgatar apenas os casos urgentes, como vítimas de atropelamentos. Quase 100% do que arrecadamos vai para o pagamento de exames e tratamentos, não temos como abrigar os cães por falta de espaço, já que trabalhamos apenas com lares temporários", ressalta.

Segundo ela, com a criação de UPAs-VET, seria possível economizar e aplicar o dinheiro arrecadado nas ações em outras demandas, como a compra de rações para os lares temporários.

Dona de três cães, um vira-latas, um dachshund, o popular salsicha, e um pastor alemão, ela sabe como é difícil ter que abrir mão de animal por falta de recursos. "Não dá para ajudar todos os bichos que vemos abandonados. Se o poder público realmente puder oferecer um local para o tratamento deles, vai ajudar muito, inclusive na prevenção de doenças", afirma.   

Ja á voluntária da Ong Vira Latas MS, Valéria Marques Ferreira, também vê como uma vitória a aprovação da lei, porém, lembra que ano passado o mesmo proceso ocorreu com uma lei do vereador Edson Shimabukuro (PTB), que autorizava a criação de um "castramóvel, veículo que percorreria os bairros, realizando castrações para evitar a superpopulação canina.

Valéria lembra que até uma audiência com o deputado Marcio Fernandes (PT do B) foi realizada. Na ocasião, ele convidou uma representante da prefeitura de São Paulo para explicar como funcionavam as UPAs VET da capital paulista. "Infelizmente o projeto não saiu do papel, mesmo depois do prefeito ter dito aos protetores que dependia de verbas, mas mesmo assim assumiria o compromisso", recorda.

Ela destaca, porém, que, caso a UPA VET da Capital saia do papel, deveria oferecer o serviço de castração e chipagem dos animais, o que, segundo ela, é fundamental para evitar a expansão da população canina. "Não adianta apenas oferecer consultas, vacinas e tratamentos. Vamos continuar enxugando gelo", alerta.

A protetora afirma que para funcionar em sua plenitude, a Ong precisaria ter uma renda de pelo menos R$ 12 mil por mês. No entanto, recebe um valor fixo de apenas R$ 800,00, que mal cobre as despesas médicas. "Se conseguíssemos economizar com os tratamentos, reverteríamos o dinheiro para as castrações, que são o nosso foco", detalha.

Mesmo com dificuldades, a entidade conta com um espaço para abrigar até 60 cães, cuidados por oito voluntários fixos. Recentemente foram recolhidos seis filhotes do CCZ que precisaram de tratamento veterinário. "Se tivesse a UPA, não precisaríamos ter desembolsado os R$ 900,00 que gastamos", ressalta.

Luta antiga - A criação de uma UPA Veterinária é um projeto antigo, que vem desde a gestão do ex-prefeito Nelson Trad Filho (PMDB) e foi, inclusive, tema de audiência pública que reuniu profissionais e gestores da saúde pública, além de entidades e protetores de animais. Em 2012, o então prefeito chegou a lançar o projeto arquitetônico daquela que seria a primeira do país e tinha planos de ser concluída até o final daquele ano. 

O pronto-socorro para os animais, por exemplo, teria 70 metros quadrados e seria construído próximo ao estacionamento do CCZ (Centro de Controle de Zoonoses), localizado na avenida Senador Filinto Müller, na Vila Ipiranga.

Na ocasião, o anúncio da construção da UPA foi feito dias depois dos maus-tratos ao cachorro Scooby, que comoveu a população ao ser amarrado a uma motocicleta e arrastado do bairro Aero Rancho até o CCZ. Com diagnóstico de leishmaniose, ele escapou da eutanásia, destino dos demais cachorros na mesma situação, graças a uma campanha na internet, que sensibilizou o prefeito.

Na época, o então prefeito afirmou que ter anunciado o projeto na mesma semana dos maus-tratos sofridos pelo Scooby, era uma coincidência. No entanto, o projeto não saiu do papel e em 2013 o vereador Chiquinho Telles apresentou um requerimento ao ex-prefeito Alcides Bernal (PP), que argumentou não ter recursos para levar adiante a construção da UPA. Segundo a assessoria do vereador, posteriormente foi levantado junto às entidades protetoras que é possível obter recursos do Ministério da Saúde para essa finalidade.

Foi então que Chiquinho Telles elaborou o atual projeto, que chegou a ser apresentado ano passado, mas  acabou sendo aprovado apenas este ano.   

 

 

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