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Capital

Viúva acredita que marido vítima da covid pegou doença do pai, que também morreu

Diferente de informação apurada junto a familiar, ela nega que contágio tenha ocorrido em festa A

Por Aletheya Alves | 16/03/2021 17:45
Edmundo e Marcos morreram com poucas horas de diferença nesta segunda-feira (15). (Foto: Arquivo pessoal)
Edmundo e Marcos morreram com poucas horas de diferença nesta segunda-feira (15). (Foto: Arquivo pessoal)

Ainda com fala tomada por choro, Marluce Aparecida da Silva, de 54 anos, tenta se recuperar após perder o marido, Marcos Antônio Rosa de Araújo, aos 48 anos, e o sogro, Edmundo Moraes de Araújo, com 76 anos, nesta segunda-feira (15). Diferente do apurado junto a outro familiar pelo Campo Grande News - que os dois haviam se infectado após comemoração em família - a técnica em segurança do trabalho diz acreditar que o marido pegou covid-19 ao socorrer o pai.

“Não estamos nem saindo de casa, seria um crime se a gente fizesse isso”, Marluce diz. Conforme narrado pela técnica, o cotidiano vinha se tornando pesado desde fevereiro, quando Edmundo passou a apresentar febre. Por ter leucemia há 17 anos e ter testado negativo para coronavírus anteriormente, a família seguiu ao hospital no dia 23 de fevereiro por respostas.

De acordo com Marluce, foi Marcos quem buscou Edmundo e o encaminhou até o hospital, mesmo não morando juntos. “Meu marido levou na clínica, fizeram exames e viram que as plaquetas estavam baixas. Suspeitaram que poderia ser dengue”.

No dia seguinte, os dois foram mais uma vez em busca de ajuda médica para Edmundo e, após fazer uma tomografia em outro hospital, receberam o diagnóstico de covid-19 para o pai. Conforme explicado por Marluce, Marcos também apresentou sintomas, fez o teste para coronavírus e no mesmo dia foi informado que o resultado deu positivo.

Devido ao quadro, Edmundo permaneceu internado desde o dia 24 de fevereiro. “Na casa do meu sogro moravam ele, a esposa e dois irmãos de criação do Marcos. Todos testaram positivo”, Marluce disse. Ainda de acordo com a esposa de Marcos, ao todo foram seis pessoas infectadas: os quatro que moravam na casa de Edmundo, Marcos e uma sobrinha, que havia o ajudado durante uma audiência online, enquanto ninguém sabia sobre os diagnósticos.

“Desde o momento que meu marido levou o pai ao médico, a gente ficou com medo porque temos uma idosa aqui em casa, minha mãe. Foi nesse intervalo que ele ficou contaminado. Meu marido não é frequentador de baile há 14 anos, há seis anos ele está de licença. Não é caminhoneiro, é motorista”, Marluce explica.

Conforme explicado pela técnica em segurança do trabalho, toda a família estava cumprindo o isolamento social da melhor forma possível, sem festas ou qualquer tipo de reunião. “A única coisa que ele [Marcos] fazia para sair de casa era para me buscar no meu emprego”, diz. Sobre Edmundo, ela conta que o sogro só permanecia com os filhos dentro de casa e mesmo tendo leucemia, sua saúde era muito forte.

Dor intensa - “É um sofrimento muito grande, o que a gente quer é que as pessoas acreditem”. De acordo com Marluce, Marcos faleceu às 4h30min desta segunda-feira (15), enquanto Edmundo se foi às 10h30min. “Parece que um estava esperando o outro”, completa.

Sem acreditar na perda, Marluce diz que a alegria carregada pelo marido é o que segue intenso na mente. “Ele era um ser humano lindo, daqueles que você tem orgulho de conhecer. Sorriso largo no rosto, gargalhada maravilhosa. Alegre, sempre gostou de alegria, de conviver com os amigos, mas estava impossibilitado”.

Sobre os efeitos do isolamento, Marluce conta que se manter longe das reuniões durante 2020 foi difícil para o marido. “Nesse um ano ele estava ficando depressivo de tanto que não podia sair. A gente cuidava até por ele mesmo. A gente fazia todos os protocolos, eu nunca chegava em casa pela porta da frente”, diz.

Com o ritual de higienização em mente, ela relata que quando Marcos a buscava no serviço, ambos tomavam banho antes de entrar em casa. “A gente tinha o maior cuidado possível, não andava sem máscara, a gente morre de medo”.

Agora, processando tudo o que aconteceu, ela diz esperar que as pessoas entendam o sofrimento de lidar com as perdas causadas pela pandemia. “É a coisa mais difícil você ver seu ente a cinco metros de distância sendo sepultado. É um sofrimento muito grande”.

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