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Empregos

Falta de postura e desatenção fazem Geração Z patinar nas entrevistas de emprego

Especialistas falam sobre questões geracionais, erros dos candidatos e dão dicas

Por Cassia Modena | 07/01/2026 12:09
Falta de postura e desatenção fazem Geração Z patinar nas entrevistas de emprego
Mulheres jovens aguardam para se cadastrar em agência de emprego da Capital (Foto: Henrique Kawaminami/Arquivo)

Mesmo com o desemprego baixo no Brasil e a renda média do trabalhador atingindo o maior valor já calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os jovens são um grupo que ainda enfrenta dificuldades para entrar e ficar no mercado de trabalho. Especialistas na área ouvidos pela reportagem acreditam que o comportamento é um dos fatores que anda atrapalhando.

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O mercado de trabalho brasileiro enfrenta um paradoxo: mesmo com baixo desemprego e renda média em alta, jovens encontram dificuldades para conquistar e manter empregos. Especialistas apontam que questões comportamentais, como atrasos em entrevistas e resistência a normas, são fatores determinantes para essa situação. A geração Z, nascida entre 1997 e 2010, apresenta características que preocupam recrutadores, como falta de atenção, dependência excessiva e uso inadequado de celular durante o expediente. Empresas buscam atrair esses profissionais com benefícios voltados à qualidade de vida, enquanto especialistas recomendam investimento em qualificação e postura profissional.

Atrasar já na entrevista, por exemplo, é visto como um sinal de que o candidato não está preparado e pode eliminá-lo. Segundo o gestor de Recursos Humanos, Alexandre Ricardo Geweh, isso acontece com mais frequência do que se imagina. Ele atua com seleções desde 1999 e coordena uma empresa que recruta estagiários em Campo Grande. Também é proprietário de uma pizzaria no Centro, onde parte da equipe é formada por jovens.

“Vivemos um dilema. Quem emprega coloca suas regras básicas, diz o que pode e o que não pode. Mesmo orientando na contratação e trazendo a pessoa para o dia a dia da empresa, é difícil a adesão”, afirma.

Alexandre diz que a resistência a normas aparece mais entre os mais novos, mas não é exclusiva deles. “Em qualquer faixa etária você tem isso hoje”, completa.

Geracional - Sandra Quadros, analista de Recursos Humanos há 19 anos que hoje trabalha numa empresa da Capital com seleções para vagas em Mato Grosso do Sul e outros estados, é enfática ao criticar a falta de postura, de perseverança e até de atenção que a geração mais jovem de trabalhadores apresenta.

Falta de postura e desatenção fazem Geração Z patinar nas entrevistas de emprego
Na tela, anúncio de vaga de estágio em um colégio de educação infantil (Foto: Osmar Veiga)

A geração Z, nascida entre 1997 e 2010, reúne boa parte dos trabalhadores que buscam o primeiro emprego ou que ainda estão há pouco tempo no mercado. É ela que, com frequência, aparece nas seleções de vagas iniciais.

A analista resume as características negativas que tem notado mais nos últimos anos junto às mudanças geracionais. “Tem pessoas que não têm nem paciência e atenção para ler o anúncio da vaga. Chegam bastante perdidas. Não passam seriedade e não pensam em permanecer na empresa sequer um ano”, fala.

Sandra cita ainda a dependência de ajuda até para se candidatarem, o que ela vê como desnecessário. “Querem tudo mastigadinho e falado. Demonstram preguiça quando reclamam até de ter que escrever. Acham que ficarão só falando e a gente vai fazer tudo por eles”, acrescenta.

A falta de foco nas atividades do trabalho é uma questão comportamental que incomoda em alguns jovens contratados, inclui Alexandre.

“Usam redes sociais no celular, respondem mensagens ou ficam conversando muito durante o expediente. A gente sabe que nenhuma pessoa vai estar focada 100% no trabalho, o excesso é que é prejudicial. Esses comportamentos tiram a atenção e podem gerar um retrabalho: outra pessoa da equipe terá que refazer aquela tarefa, isso gera um descontentamento entre os colegas também, não só na chefia”, afirma o gestor.

Como atrair - Flexibilizar modelos de trabalho e oferecer benefícios que contemplem a busca por mais qualidade de vida que marca a geração Z, são formas de atrair profissionais mais jovens para as vagas e retê-los nas empresas.

Falta de postura e desatenção fazem Geração Z patinar nas entrevistas de emprego
Recrutadora faz anotações em currículo impresso (Foto: Osmar Veiga)

Alexandre pondera que nem sempre o expediente remoto é uma das medidas nesse sentido que vão funcionar. "Depois da pandemia, grandes corporações adotaram o home office, mas depois voltaram atrás porque não estava sendo produtivo e não gerava os resultados que elas queriam. É algo que precisa ser avaliado por cada empresa", lembra.

Além de salário compatível com a função, ele cita benefícios como desconto em academias e acesso a plataformas de atendimento on-line com psicólogos como benefícios interessantes para os trabalhadores jovens. Também menciona premiações e sistemas de recompensa, como bônus para “funcionário do mês”, como forma de engajar.

Qualificação - Diretor da agência pública de empregos de Campo Grande, a Funsat (Fundação Social do Trabalho), João Henrique Bezerra da Silva defende que qualificação e postura caminham juntas. Ele trabalhou por 10 anos em uma rede de supermercados da Capital, onde começou como empacotador e chegou à gerência.

Falta de postura e desatenção fazem Geração Z patinar nas entrevistas de emprego
Escola da Funsat foi inaugurada no ano passado e oferece cursos gratuitos (Foto: Divulgação/Prefeitura)

Com base na própria trajetória e no que vê entre candidatos que procuram a Funsat, João afirma que cursos podem ampliar conhecimento, aumentar as chances de melhores salários e melhorar a postura nas entrevistas. “Hoje temos tudo disponível gratuitamente aqui na Fundação, desde aulas de como se comportar em uma entrevista de emprego até curso introdutório de inteligência artificial. Temos uma grade de opções nos polos e vamos oferecer mais no espaço na antiga rodoviária que vamos inaugurar em maio deste ano”, diz.

Para ele, quando o candidato soma currículo com qualificação e noções de profissionalismo já na entrevista, cresce a chance de contratação. “É o caminho que vai abrir a mente da juventude”, afirma.

No ano passado, 24% dos trabalhadores encaminhados pela agência e contratados pelos empregadores eram jovens. João considera o índice baixo e avalia que há espaço para melhorar.

Falta de postura e desatenção fazem Geração Z patinar nas entrevistas de emprego
Diretor da Funsat, João Henrique Bezerra da Silva (Foto: Marcos Maluf/Arquivo)

Dicas - Sandra aconselha jovens que estão com dificuldade em conseguir passar em entrevistas ou que vão buscar o primeiro emprego em 2026.

"Primeiro, demonstre atenção aos detalhes na hora de fazer uma entrevista. Essa característica você precisará colocar em prática até num simples atendimento ao cliente. É preciso escutar e entender o que aquela pessoa está pedindo," começa.

O segundo conselho é perseverança. "Todas as empresas têm imperfeições. É preciso ser resiliente e não desistir diante do primeiro problema. Não ficar saindo e entrando em empresas será importante para sua carreira," continua.

A última dica é ter paciência. "Faça uma primeira entrevista com calma, demonstre seriedade e vontade de se desenvolver com paciência. A gente orienta bastante os candidatos sobre isso e as ferramentas costumam dar ferramentas para isso", finaliza.