ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
OUTUBRO, QUINTA  29    CAMPO GRANDE 20º

Interior

Advogada e marido policial são alvos de operação por vazamento de dados ao PCC

3ª fase da Courrier investiga uso de sistemas da segurança pública para favorecer facção

Por Helio de Freitas, de Dourados | 29/10/2026 11:58
Advogada e marido policial são alvos de operação por vazamento de dados ao PCC
Viaturas durante buscas da 1ª fase da operação, em março de 2025 (Foto: Arquivo/ Henrique Kawaminami)

Uma advogada e o marido dela, policial militar, foram alvos da Operação Consorte, que o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) deflagrou nesta quinta-feira (29), em Campo Grande e Dourados. O casal é investigado por integrar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e atuar em esquema de vazamento de informações sigilosas da segurança pública para integrantes da facção criminosa. Os nomes não foram divulgados.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O Gaeco deflagrou nesta quinta-feira (29), em Campo Grande e Dourados, a Operação Consorte, terceira fase da Courrier, contra uma advogada e o marido, policial militar, suspeitos de integrar o PCC. Ele usava credenciais funcionais para consultar sistemas restritos e repassava os dados à esposa, que os entregava à facção. Foram cumpridos dois mandados de prisão e três de busca. Apuram-se organização criminosa, corrupção e violação de sigilo funcional.

A operação corresponde à terceira fase da Operação Courrier, que revelou a atuação da chamada “Sintonia dos Gravatas”, grupo de advogados suspeitos de usar o acesso a presos para transmitir mensagens e ordens de lideranças criminosas.

Nesta etapa, o Gaeco saiu às ruas para cumprir os dois mandados de prisão e três de busca e apreensão. Segundo a investigação, o policial militar utilizava suas credenciais funcionais para consultar sistemas restritos da segurança pública. Ele fornecia as informações à esposa, que, por sua vez, as repassava a integrantes do PCC.

O Ministério Público investiga os crimes de organização criminosa, corrupção e violação de sigilo funcional. A operação contou com a participação da Corregedoria da Polícia Militar e da OAB-MS (Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul).

O nome Consorte faz referência ao vínculo matrimonial entre os investigados e à suspeita de que ambos atuavam em parceria para beneficiar a organização criminosa.

Investigação começou em 2022

A Operação Courrier começou em 25 de março de 2022, quando o Gaeco identificou uma rede de advogados e servidores públicos suspeitos de prestar serviços ao PCC. Na ocasião, as equipes cumpriram 38 mandados judiciais em Campo Grande, Dourados, Jardim e Jaraguari.

As investigações apontaram a participação de 15 advogados na chamada Sintonia dos Gravatas. Quatro deles acabaram presos na primeira fase da operação. O grupo, conforme o Ministério Público, tinha integrantes que atuavam como mensageiros da facção e intermediavam a comunicação entre presos e criminosos em liberdade.

Os investigadores identificaram duas modalidades de atuação. Enquanto alguns profissionais cuidavam dos processos judiciais, outros transmitiam recados e ordens das lideranças criminosas. A apuração apontou ainda suspeitas de pagamento de propinas e movimentações financeiras para beneficiar integrantes da organização.

A investigação ganhou maior gravidade quando interceptações telefônicas e mensagens revelaram planos de atentados contra magistrados e integrantes do Ministério Público. Entre os possíveis alvos estavam um juiz e um promotor de Campo Grande.

O Gaeco também identificou suspeitas de vazamento de informações sobre transferências de presos e consultas indevidas a bancos de dados oficiais. Esse tipo de acesso permitia que a organização criminosa obtivesse informações que deveriam permanecer restritas aos órgãos de segurança pública.

Defensor público também foi preso

A segunda fase da Operação Courrier recebeu o nome de Maître e ocorreu em março de 2023. O principal alvo foi o defensor público Helkis Clark Ghizzi, pai do advogado Bruno Ghizzi, investigado desde a primeira etapa.

O Gaeco cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em 1º de março daquele ano. No dia 14, os investigadores prenderam Helkis, suspeito de manter ligação com a organização criminosa. Segundo as apurações, integrantes do PCC o chamavam de “Mestre”.

A Justiça autorizou a soltura do defensor público em julho de 2023, mediante pagamento de fiança de R$ 39,6 mil. Na época, o magistrado também determinou o uso de tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares, incluindo restrições ao exercício da função.

A defesa de Helkis contestou as acusações e afirmou que demonstraria a inocência do defensor durante o processo.

Condenações e absolvições

Em março de 2026, a Justiça condenou três investigados da Operação Courrier por envolvimento com o PCC. Entre eles estavam o advogado Bruno Ghizzi, o ex-chefe de cartório Rodrigo Pereira da Silva Corrêa e o detento Edimar da Silva Santana, conhecido como “Arqueiro do PCC”.

Bruno recebeu pena de quatro anos, dez meses e dez dias de prisão. A investigação apontou que ele utilizava a condição de advogado para acessar presos e transmitir informações entre integrantes da facção.

Rodrigo, que trabalhava na 1ª Vara de Execuções Penais de Campo Grande, recebeu a mesma pena. Conforme a sentença, ele aproveitava a função de confiança para repassar informações sigilosas ao grupo criminoso. O TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) já havia determinado sua demissão em 2022.

A Justiça condenou Edimar a cinco anos, oito meses e um dia de prisão. O magistrado considerou como agravante o fato de ele participar das atividades criminosas enquanto já cumpria pena.

Na mesma decisão, a Justiça absolveu Douglas Silva Fonseca, Inaiza Herradon Ferreira, a advogada Paula Tatiane Monezzi e Ed Carlos Rodrigues Dias por falta de provas suficientes ou ausência de comprovação de participação nos crimes.

Bruno e Rodrigo receberam autorização para recorrer em liberdade. Já Edimar teve a prisão mantida.

Uma semana antes da publicação da sentença, em 20 de março, o Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-MS havia determinado a suspensão de Bruno Ghizzi do exercício da advocacia por 12 meses.

Esquema de tráfico

A Operação Courrier ainda deu origem a outras investigações sobre a participação de profissionais do Direito e servidores públicos em atividades criminosas.

Uma delas foi a Operação Last Chat, deflagrada em abril de 2024. Na ocasião, o Gaeco investigou uma organização suspeita de tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e lavagem de dinheiro.

Segundo o Ministério Público, o grupo tinha aproximadamente 40 integrantes e seguia ordens de Rafael da Silva Lemos, conhecido como “Gazela” ou “Patrão”. Ele utilizava contatos com advogados para transmitir comandos criminosos de dentro do sistema prisional.

A investigação identificou mais de quatro toneladas de maconha, mais de 3 mil comprimidos de ecstasy, munições e equipamentos destinados a armas de grosso calibre. O prejuízo estimado à organização criminosa ultrapassou R$ 9 milhões.

A Last Chat cumpriu 55 mandados judiciais em Campo Grande, Ponta Porã, São Paulo (SP) e Fortaleza (CE).

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.