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Interior

Após funeral, indígenas mantêm ocupação em palco de confronto com policiais

Moradores da Aldeia Amambai confirmaram na manhã de hoje que área foi retomada durante a noite

Por Helio de Freitas, de Dourados | 28/06/2022 08:51
Índios comemoram retorno à fazenda onde guarani-kaiowá foi morto por policiais. (Foto: Helio de Freitas)
Índios comemoram retorno à fazenda onde guarani-kaiowá foi morto por policiais. (Foto: Helio de Freitas)

Índios da Aldeia Amambai reocuparam a Fazenda Bordas da Mata, onde o guarani-kaiowá Vito Fernandes, 42, foi morto por policiais militares do Batalhão de Choque, na sexta-feira (24). Moradores da área indígena confirmaram na manhã de hoje que grupo de pelo menos cem pessoas permaneceu na propriedade após o funeral.

No início da noite de ontem, logo após o corpo ser enterrado dentro da fazenda, líderes indígenas afirmaram ao Campo Grande News que a decisão de permanecer na área seria tomada após a cerimônia fúnebre.

Segundo os moradores, o grupo decidiu por manter a ocupação, mas a informação ainda não foi confirmada por outras lideranças e nem por representantes do Cimi (Conselho Indigenista Missionário).

A sede da fazenda foi abandonada pelos seguranças que estavam no local quando os índios chegaram ontem com o corpo de Vito Fernandes.

Pelo menos quatro homens uniformizados – funcionários de empresa privada de segurança – estavam no armazém de grãos. Quando o cortejo chegou ao local houve correria. Índios a pé e de moto se aproximaram do silo gritando, mas não houve reação dos seguranças. Dois deles gravavam as cenas com celulares.

Logo em seguida chegou ao local uma viatura da Polícia Militar. Minutos depois, a viatura e o carro usado pelos seguranças deixaram a sede. Aos gritos, os índios chegaram a perseguir o veículo. Logo em seguida, ocuparam o armazém, quebraram as câmeras de vigilância e hastearam duas bandeiras do Brasil na torre.

“Genocidas”, “assassinos” e “demarcação já” foram as palavras mais pronunciadas pelos cerca de 300 indígenas que acompanharam o enterro de Vito Fernandes – ocorrido no local do confronto após acordo firmado na Justiça.

Moradores indígenas ouvidos pela reportagem afirmam que a área onde existe atualmente a fazenda Bordas da Mata fazia parte da Aldeia Amambai (Guapoy), mas ao longo do tempo foi ocupada pelos fazendeiros. Pelo menos dez mil índios moram na aldeia, de dois mil hectares.

“Quando eu era criança, ali existia uma mata, ao lado do corguinho. Eu caçava ali. Na década de 70 a Funai vendeu a madeira e a mata foi derrubada. Os índios se afastaram dali e alguns capitães [líderes políticos da aldeia] permitiram que os fazendeiros ocupassem para plantar lavoura. Depois perdemos de vez”, afirmou o morador ancião, que serviu de guia da reportagem do Campo Grande News para deixar a área à noite.

A Fazenda Bordas da Mata é uma das 10 propriedades do Grupo Torlim e sede da empresa VT Brasil Administração e Participação Ltda., que pertence a Waldir Cândido Torelli. Atualmente a empresa está no nome dos filhos de Waldir – Waldir Candido Torelli Junior, Rodrigo Adolfi Torelli, e um adolescente menor de 18 anos.

Em 2011, Waldir Torelli foi investigado na esfera estadual por lavagem de dinheiro e ocultação de bens. Na época, o Ministério Público o denunciou junto com sócios, por sonegação fiscal que chegaria a R$ 66,5 milhões. Atualmente, segundo fontes da Justiça Federal, Waldir é dono de frigorífico no território paraguaio.

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