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Interior

Conselho encontra pacientes “misturados” e falta de materiais em hospital

Após vistoria, Conselho de Enfermagem cobra conclusão da reforma em ala do Hospital da Vida para atender pacientes da covid-19

Por Helio de Freitas, de Dourados | 03/06/2020 15:09
Hospital da Vida, em Dourados; vistoria do Coren comprovou denúncias de falta de materiais e de estrutura (Foto: João Pires/Estado Notícias)
Hospital da Vida, em Dourados; vistoria do Coren comprovou denúncias de falta de materiais e de estrutura (Foto: João Pires/Estado Notícias)

Vistoria feita ontem (2) pelo Coren-MS (Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso do Sul) no Hospital da Vida, em Dourados, encontrou falta de profissionais, pacientes “misturados”, deficiência na estrutura e até falta de materiais essenciais em plena pandemia do novo coronavírus. Além de atender pelo SUS toda a macrorregião formada por 34 municípios onde moram pelo menos 800 mil pessoas, o hospital é referência para internação de infectados pela covid-19.

O relatório assinado pelo presidente do conselho, Sebastião Junior Henrique Duarte, aponta que a maioria das denúncias que motivaram a vistoria foi confirmada. No documento ao qual o Campo Grande News teve acesso, o Coren faz recomendações à saúde pública, entre as quais a conclusão da reforma da ala projetada para atendimento específico de pacientes com coronavírus. Apesar de a pandemia ter sido declarada no início de março, a obra só deve ficar pronta “dentro de dez dias”.

A vistoria – Conforme o relatório, o trabalho do conselho incluiu simulação da entrada de paciente suspeito de infecção pelo coronavírus, para analisar o fluxo de atendimento e o trajeto dentro do hospital, desde o primeiro atendimento até a acomodação em leito de UTI.

“Não há separação no fluxo de pacientes com queixas respiratórias dos que apresentam outros problemas de saúde. São os mesmos profissionais que atendem a todos, independente da patologia. Os recursos são limitados, haja vista ter somente um termômetro digital infravermelho. Esse modelo de classificação de risco, em que todos os pacientes ocupam o mesmo espaço físico e são atendidos por um único profissional, de fato pode expor a infecção de todos os indivíduos (profissionais e pacientes) que não estejam protegidos por equipamentos de proteção individual. O recomendado é separar a classificação de risco de pessoas com sintomas respiratórios dos demais problemas de saúde”, afirma o documento.

Sobre a entrada pela Rua Ciro Melo, ainda não ativada por causa da reforma não concluída, o Coren afirma ter observado que as obras estão em fase avançada, com previsão de terminar em dez dias, mas cita falta de profissionais.

Faltam profissionais - “O local tem estrutura física adequada para atender as pessoas infectadas pelo coronavírus, a única preocupação é com os recursos humanos específicos para essa nova ala hospitalar. A instituição enfrenta déficit de profissionais de enfermagem e, no momento da fiscalização, havia somente dois médicos para atendimento dos pacientes nas áreas de classificação de risco, com isso, há necessidade de aumentar os recursos humanos, quando do funcionamento desse novo setor”, afirma o conselho.

A denúncia ao Coren revelou que devido à falta de conclusão da obra, a sala de triagem respiratória e classificação de risco foi realocada na frente do hospital, na Rua Toshinobu Katayama, ficando ligada ao setor de pacientes de urgência e com acesso ao corredor onde são mantidos pacientes internados devido ao déficit de leitos.

“De fato, a atual estrutura física não favorece o atendimento adequado para todos os pacientes, haja vista não ter as devidas limitações de espaço físico e das equipes de saúde. Situação que melhorará com a utilização da nova ala do hospital”, afirma o relatório.

Faltam materiais – Em relação à falta de materiais essenciais, o relatório do Coren afirma essa parte da denúncia merece especial atenção, pois compromete a assistência, devido à indisponibilidade de equipamentos essenciais para o manejo de pessoas em respiração artificial.

“Além de recursos humanos e equipamentos de proteção individual, é preciso recursos materiais para a manutenção da vida. Constatou-se a improvisação de oxigênio por meio da oferta por torpedos portáteis e a inexistência do sistema de aspiração fechado (trach care)”, afirma o documento.

Sobre os riscos de contaminação em grande escala de profissionais e pacientes por causa da circulação dentro do hospital de pessoas com problemas respiratórios, o conselho afirma que a situação será corrigida com o acesso pela Ciro Melo. “Reitera-se a necessidade da conclusão das obras para separar os pacientes e equipes de trabalho”.

Conclusão – O conselho conclui o relatório afirmando que o plano de contingência, que estabelece os fluxos para o manejo de pacientes com suspeita e os infectados pelo coronavírus, não é conhecido por todos os profissionais que deveriam executá-lo e não tem sido seguido para garantir a execução.

“A organização da estrutura física não está adequada a evitar a infecção por coronavírus, no entanto, poderá ser corrigida com a separação de espaços físicos e equipes específicas para o atendimento de pacientes com suspeita e/ou infectados e solucionada a partir da utilização da nova estrutura física”, diz o documento.

O conselho continua: “há falta de materiais essenciais como sistema de aspiração de fechado (trackcare), filtro HMEF para ventilação mecânica, luva de procedimento tamanho M e P, manômetro de válvula reguladora para torpedo móvel, termômetro infravermelho. Sendo esses insumos para o manejo de pessoas em ventilação mecânica, devem ser providenciados em regime de urgência, nem que seja por meio de empréstimo de outra instituição hospitalar”.

O Coren-MS recomenda à Secretaria Municipal de Saúde que reúna todos os representantes das redes de assistência à saúde e rediscuta o plano de contingência, assegurando minimamente a participação de representantes das equipes multiprofissionais, minimamente: bioquímicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas e médicos.

Também pede para a Saúde acompanhar a conclusão das obras no Hospital da Vida e forneça todos os recursos necessários para a assistência das pessoas atendidas no Hospital da Vida.

À Fundação de Serviços de Saúde, que administra o hospital, o conselho recomenda gestão com responsáveis pelas obras para conclusão o mais rápido possível, fornecimento de materiais essenciais para manejo de pessoas em ventilação mecânica, roupas para todos os profissionais do hospital e comprovação do estoque de materiais de equipamento de proteção individual.

O relatório termina com recomendação ao CRM (Conselho Regional de Medicina), para se manifestar se o dimensionamento de médicos garante a assistência de todos os pacientes atendidos no Hospital da Vida, inclusive com a criação de nova ala, e opinar se os materiais, equipamentos e medicamentos atendem as necessidades de saúde dos pacientes.

A secretaria de Saúde de Dourados ainda não se manifestou sobre a vistoria do Coren-MS. Números divulgados nesta quarta-feira mostram que o município tem 378 casos confirmados de coronavírus, líder estadual no ranking da covid-19.