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Interior

Hepta: em 30 meses, gestão Délia Razuk foi alvo de sete operações policiais

Operação Contágio deflagrada ontem mantém média de uma investigação a cada quatro meses na Prefeitura de Dourados

Por Helio de Freitas, de Dourados | 16/07/2020 06:25
Policiais deixam prefeitura após seis horas de buscas, ontem (Foto: Adilson Domingos)
Policiais deixam prefeitura após seis horas de buscas, ontem (Foto: Adilson Domingos)

A expressão "o galo cantou" nunca foi tão usada como nos três anos e meio da administração de Délia Razuk (PTB) em Dourados, a 233 km de Campo Grande. Criada nos bastidores da crônica policial para ironizar as madrugadas de operações contra políticos corruptos, a gíria já foi pronunciada sete vezes nos últimos dois anos e meio na atual gestão, iniciada em janeiro de 2017.

Com a Operação Contágio, deflagrada ontem pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul para investigar negócios fraudulentos com dinheiro destinado a combater o coronavírus, a gestão Délia foi hepta – sete operações em 30 meses.

Após dois mandatos como vereadora, Délia Razuk foi eleita prefeita em 2016, derrotando o então deputado federal e atual secretário estadual de Saúde Geraldo Resende.

Já no começo da gestão, estava claro que Délia Godoy Razuk não teria vida fácil no cargo que havia ocupado interinamente por quatro meses – entre outubro 2010 e fevereiro de 2011 – após a prisão e renúncia do então prefeito Ari Artuzi (morto de câncer, em 2013).

Depois de passar o primeiro ano conturbado tendo de demitir o secretário de Governo Raufi Marques por ser "ficha suja", em fevereiro de 2018 a administração foi alvo da Operação Volta às Aulas, desencadeada pelo Ministério Público para apurar irregularidade na contratação de professores temporários. Mas o pior daquele ano ainda estava por vir.

Viatura do Bope em frente a empresa que prestava serviço para a prefeitura, no dia 31 de outubro de 2018 (Foto: Arquivo)
Viatura do Bope em frente a empresa que prestava serviço para a prefeitura, no dia 31 de outubro de 2018 (Foto: Arquivo)

No dia 31 de outubro, a Operação Pregão, deflagrada pelo MP contra fraudes em licitações, levou para a cadeia a ex-secretária de Educação e atual vereadora Denize Portolann, o então diretor de licitações Anilton Garcia de Souza, o empresário Messias José da Silva que prestava serviço para o município e o então secretário de Fazenda João Fava Neto, homem da mais alta confiança e do convívio familiar de Délia Razuk. Ele é sogro do filho do meio da prefeita, o deputado estadual Neno Razuk (PTB).

A operação escancarou o esquema de combinação de preços para ganhar licitações e assumir contratos milionários com a prefeitura em troca de "mesadas" que pagaram até cirurgia plástica da mulher de um dos implicados na segunda fase da operação, o então contador da prefeitura Rosenildo França, preso em dezembro de 2018.

A terceira fase ocorreu no dia 13 de março de 2019 e entre os presos estavam o diretor financeiro da prefeitura Jorge Rodrigues de Castro e o policial civil da Capital Ademir Almada de Goes Junior, dono de empresa de refrigeração contratada pela Prefeitura de Dourados. A ação penal no âmbito da Operação Pregão tramita em segredo de justiça.

Marmita – Em fevereiro de 2019 foi a vez da Polícia Federal fazer o "galo cantar" mais cedo pelas bandas da Rua Coronel Ponciano com mandados da Operação Purificação, outra investigação deflagrada para desvendar esquema de licitação fraudulenta, dessa vez com dinheiro da saúde.

Naquela etapa, mandados de busca foram cumpridos na sede da Secretaria de Saúde, mas só uma pessoa foi presa, o suposto dono da empresa Marmiquente, Ronaldo Gonzales Menezes.

Entretanto, a prisão foi suficiente para derrubar outro homem forte da gestão Godoy Razuk. A prefeita tirou o médico Renato Vidigal da pasta e o colocou na coordenação do Samu (Serviço Móvel de Urgência). Para comandar a secretaria, Délia nomeou Berenice Machado Souza, servidora de carreira da prefeitura e então presidente do Conselho Municipal de Saúde.

Segundo a PF e o Ministério Público, Ronaldo – o suposto empresário preso na primeira fase da Operação Purificação – era na verdade "testa de ferro" de Renato Vidigal e de outro ex-assessor da prefeitura, Raphael Henrique Torraca Augusto, 36, o “Pardal”, que foi diretor financeiro da Secretaria de Saúde enquanto o titular era Renato Vidigal.

Preso, Ronaldo Menezes fez acordo de delação premiada e entregou todo o esquema de compra de marmita superfaturada envolvendo Renato Vidigal, Pardal e duas servidoras municipais, uma delas a mulher de Rafhael Torraca. Após a prisão de Ronaldo, a empresa foi colocada em nome de um homem com deficiência mental, segundo a investigação.

No dia 6 de novembro de 2019, Renato Vidigal foi preso pela PF na segunda fase da Operação Purificação. Pardal se apresentou dois dias depois e também foi para a cadeia. Médico concursado do município, Renato Vidigal só saiu em prisão domiciliar no final de março deste ano por causa da pandemia da covid-19.

No tempo em que ficou na penitenciária estadual de Dourados acumulou problemas. Foi flagrado com dois celulares introduzidos na cadeia de forma desconhecida até hoje e acusado de ameaçar testemunhas. O processo segue em andamento na Justiça Federal.

“Coronagate” – A pandemia do novo coronavírus que ainda ameaça o mundo não foi suficiente para impedir as falcatruas na Prefeitura de Dourados. Segundo o MP, o grupo alvo da Operação Contágio é acusado de fraude na dispensa de licitação para compra de materiais e equipamentos destinados ao combate à doença que até ontem tinha matado 46 pessoas na cidade e infectado 3.2529 pessoas.

Entre os implicados estão três servidoras de terceiro e quarto escalões nomeadas em cargos de confiança, o secretário de Fazenda Carlos Dobes, Berenice Machado, que havia substituído Renato Vidigal e foi exonerada da Secretaria de Saúde na semana passada após boato de que seria presa em ação policial, e o braço direito de Délia Razuk na prefeitura, o procurador geral do município Sérgio Henrique Pereira Martins de Araújo. Na prefeitura é chamado de "primeiro ministro".

Os seis foram alvos de mandados de busca nesta quarta-feira (15). Por ordem da Justiça, Délia Razuk determinou o afastamento de todos eles por 90 dias. Com a pandemia, a Justiça trocou a prisão por medidas cautelares.

Sérgio Henrique ainda foi autuado por crime contra o sistema nacional de armas por estar de posse de munições estrangeiras calibre 38. Ele pagou R$ 5 mil de fiança e colocado em liberdade. Até agora a prefeitura não se manifestou sobre a sétima operação policial contra a gestão em dois anos e meio.

Agentes da PF deixam a Secretaria de Saúde, em novembro do ano passado; ao fundo, a então secretária Berenice Machado, um dos alvos da operação de ontem (Foto: Adilson Domingos)
Agentes da PF deixam a Secretaria de Saúde, em novembro do ano passado; ao fundo, a então secretária Berenice Machado, um dos alvos da operação de ontem (Foto: Adilson Domingos)