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Interior

MPF denuncia irmãos traficantes e mais 7 alvos da Operação Sanctus

Hermógenes Aparecido e Ronaldo Mendes Nunes (foragido) são acusados de ligação com facções criminosas

Por Helio de Freitas, de Dourados | 26/03/2024 16:49
Hermógenes Aparecido (à esquerda), que está preso, e Ronaldo Nunes, foragido (Foto: Reprodução)
Hermógenes Aparecido (à esquerda), que está preso, e Ronaldo Nunes, foragido (Foto: Reprodução)

O MPF (Ministério Público Federal) denunciou os irmãos Hermógenes Aparecido Mendes Filho, 49, e Ronaldo Mendes Nunes, 40, apontados como chefes de quadrilha internacional de tráfico de drogas. Os dois são donos de empresas em Dourados, a 251 km de Campo Grande.

Outras sete pessoas, acusadas de integrar o esquema, também foram denunciadas. Todos foram alvos da Operação Sanctus, deflagrada no dia 8 de dezembro do ano passado pela Polícia Federal.

As acusações são de organização criminosa internacional, tráfico internacional de drogas e associação para o tráfico, uso de documentos falsos e lavagem de dinheiro através da dissimulação de propriedade de caminhões, carros de luxo, fazendas, lote em condomínio fechado e por meio da movimentação financeira das empresas RM Transportes, Audaz Restaurante e Audaz Eventos.

Além dos irmãos, foram denunciados Wuillhan Rojas, 38, o “Zóio”, capataz de uma das fazendas em MT; a advogada Cristiane Maran Milgarefe da Costa, 28, amante de Aparecido; Markus Verissimo de Souza, 25; Luan Yamashita Gonçalves, 33, Jair Marques Neto, 48; o contador Eduardo Faustino Dos Santos, 51; e Heitor de Oliveira Buss, 49, o “Techa”, 49.

Assim como o patrão Hermógenes Aparecido, Jair, Wuillhan e Heitor estão presos preventivamente. Ronaldo Mendes Nunes está foragido, supostamente escondido no Paraguai. Cristiane Milgarefe cumpre prisão domiciliar. Os demais aguardam em liberdade.

Samura – Na denúncia baseada no inquérito da Polícia Federal, o MPF afirma que desde 2014, Hermógenes Aparecido Mendes Filho, Ronaldo Mendes Nunes e outros denunciados se associaram para integrar organização criminosa para lavagem de dinheiro proveniente de tráfico de drogas.

“Tal organização mantinha ligação com organizações criminosas independentes, dentre elas a liderada por Jorge Teófilo Gonçalves Samudio, vulgo ‘Samura’, apontado como um dos líderes da facção criminosa Comando Vermelho. A organização também tinha caráter transnacional decorrente do transporte de entorpecentes a partir da cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero para o Brasil. Além disso, parte dos recursos ilícitos obtidos se destinava ao Paraguai, remessa esta que era feita inclusive por meio do uso de doleiros”, afirma trecho da denúncia à qual o Campo Grande News teve acesso com exclusividade.

Oriundo de Capitán Bado, cidade paraguaia vizinha de Coronel Sapucaia e também de onde vieram os irmãos Mendes, Samura foi resgatado pela facção durante atentado a tiros que deixou um policial paraguaio morto, em setembro de 2019.

Em abril de 2021, ele foi recapturado em Sinop (MT), onde estava escondido com apoio dos irmãos Mendes. No período em que estava foragido, Samura passou um tempo na fazenda de Hermógenes Aparecido em Feliz Natal (MT). A Fazenda Beira Rio foi um dos locais onde foram cumpridos mandados de busca e apreensão, no dia 8 de dezembro.

Usando identidade em nome de Fernando Delosanto Ortelhado, emitido pelo cartório de Sanga Puitã (distrito de Ponta Porã), Samura circulava pela cidade mato-grossense na companhia de Wuilhan Rojas, capataz da fazenda de Aparecido e também preso no âmbito da Operação Sanctus. O bandido do CV foi capturado no dia 29 de março de 2021, em Sinop (MT).

Viatura da PF no Audaz Restaurante, no dia 8 de dezembro do ano passado (Foto: Arquivo)
Viatura da PF no Audaz Restaurante, no dia 8 de dezembro do ano passado (Foto: Arquivo)

Cocaína em pneus – Conforme o MPF, a Operação Sanctus permitiu destrinchar o funcionamento da estrutura criminosa liderada pelos irmãos Mendes. “O modus operandi da OrCrim consistia no transporte de entorpecente oculto no interior de pneus de carretas, a partir da cidade de Pedro Juan Caballero/PY, com destino à região Sudeste. No retorno, volumes de dinheiro eram transportados da mesma forma, possivelmente como pagamento pela carga de droga”, afirma a denúncia.

“Hermógenes Mendes exercia suas atividades de comando com o apoio, dentre outros, de sua amante Cristiane Maran, de seu funcionário e ‘braço direito’ Wuilhan Rojas, de seu sobrinho Raimundo Fagner Nunes Sanches e de seu genro Markus Veríssimo”, diz o MPF.

Segundo a denúncia, as investigações apontaram que Hermógenes Aparecido coordenava a logística do tráfico de drogas, bem como promovia a lavagem de capitais. Para o branqueamento dos recursos, utilizava de diversos subterfúgios, entre os quais a circulação de elevados valores por meio das contas bancárias de Cristiane Maran, sendo frequentes na conta dela transações financeiras em espécie, o que dificulta o rastreamento da origem e destino do dinheiro.

Barracão do CV - Com base nas investigações da PF, o MPF cita as diversas viagens feitas por Aparecido na companhia de Cristiane Maran, sobretudo para Pedro Juan Caballero, a fim de se reunir pessoalmente com o motorista de caminhão Jair Marques, responsável pelo transporte de drogas para o Rio de Janeiro, bem como pelo transporte de dinheiro em espécie no retorno a MS.

Jair foi preso em flagrante no dia da operação com 160 quilos de cocaína dentro de pneus de caminhão em um Galpão em Maricá (RJ). Segundo a PF, com apoio do Comando Vermelho, a droga seria enviada para a Europa de navio, dentro de colchões. Morador em Amambai, Heitor Buss, outro incluído na denúncia, também foi preso no mesmo local, em 8 de dezembro.

Wuillhan Rojas (de máscara), flagrado durante buscas a “Samura” em MT, em 2021 (Foto: Reprodução)
Wuillhan Rojas (de máscara), flagrado durante buscas a “Samura” em MT, em 2021 (Foto: Reprodução)

Braço-direito – Dono de vasto histórico criminal, Wuilhan Rojas era o responsável pela administração das fazendas Beira Rio localizada em Feliz Natal (MT) e São Pedro, localizada em Paranatinga (MT). Segundo a denúncia, as propriedades eram usadas como “laranjas” de Hermógenes Aparecido Mendes Filho, inclusive por intermédio de empresa constituída em nome “Zóio”, a Wuilhan Rojas Eireli.

Já Markus Veríssimo, genro de Aparecido, atuava, segundo o MPF, como um “office-boy” e administrador de pagamento de contas do dia a dia, entre aluguéis e compras, utilizando sua própria conta bancária para receber os valores do sogro e em seguida efetuar os pagamentos.

Ronaldo Mendes Nunes – Já o irmão de Aparecido Mendes, segundo o MPF, utilizava suas empresas para a inserção de recursos ilícitos em atividades lícitas, permitindo, o branqueamento de capitais, tanto no Brasil quanto no exterior.

Conforme a denúncia, Ronaldo Mendes possuía empresa de pneus no Paraguai, a Guapo Import Export. Ele também adquiriu uma cobertura no Edifício Tetryz, em Pedro Juan Caballero. O imóvel de luxo estava sendo reformado.

“Ronaldo Mendes contava com o apoio rotineiro de Luan Yamashita, seu concunhado, e de Fernando Ribeiro Araújo, respectivamente funcionário e ex-funcionário do Audaz Restaurante”, afirma o MPF.

Luan Yamashita exercia para Ronaldo Mendes o papel de auxiliar de escritório, sendo responsável por pagamentos fracionados, contabilidade da empresa, controle de contas e documentos, e outras atividades diárias, inclusive cuidando da reforma e mobília de imóveis adquiridos pelo patrão.

“Ele não somente ajudava no Audaz Restaurante como ainda na empresa Guapo Import Export, fazendo atividades clandestinas de câmbio entre os valores recebidos no Paraguai e no Brasil”, diz o MPF.

Ronaldo Mendes Nunes, que está foragido ha quase quatro meses (Foto: Arquivo)
Ronaldo Mendes Nunes, que está foragido ha quase quatro meses (Foto: Arquivo)

Segundo a denúncia, entre as empresas usadas para lavagem de dinheiro do tráfico se destacam a transportadora Mendes e Piris, de Aparecido e da mulher dele, o Audaz Eventos e Restaurante situado em Ponta Porã, e o Audaz Restaurante de Dourados, ambos em nome de Ronaldo Mendes Nunes.

O endereço do Audaz de Dourados também estava cadastrado como sede da empresa ADZ Eventos e Serviços (nome fantasia Audaz Eventos), pertencente a Luan Yamashita. “Para se ter uma ideia dos valores movimentados pela OrCrim, a empresa Mendes & Piris movimentou cerca de R$ 31,5 milhões (créditos + débitos) nos anos de 2020 e 2021”, afirma a denúncia.

Contador – Um dos denunciados, Eduardo Faustino dos Santos, é contador em Dourados. Segundo o MPF, com o intuito de ocultar a origem ilícita dos recursos, ele fraudava os dados contábeis/fiscais dos líderes da organização criminosa. O nome de Faustino junto com valores aparece em planilhas extraoficiais de controle de gastos de Aparecido Mendes.

“Ressalte-se que Eduardo Faustino também auxiliou Jorge Teófilo Gonçalves Samudio (Samura) e a sua esposa Natalia Carolina Ramires Franco na abertura de empresas que nunca funcionaram de fato, simulando, inclusive, a locação de imóveis de sua propriedade para servirem de sede às empresas”, afirma o MPF.

Avião de Aparecido Mendes, apreendido em aeroporto privado em Dourados (Foto: Arquivo)
Avião de Aparecido Mendes, apreendido em aeroporto privado em Dourados (Foto: Arquivo)

Empresários de sucesso – Considerados empresários de sucesso e “acima de qualquer suspeita” em Dourados, os irmãos Mendes prosperaram vertiginosamente nos últimos dez anos. Segundo a polícia, a riqueza veio do tráfico internacional de cocaína.

Até a operação de dezembro passado, os dois ostentavam vida de luxo com direito a festas familiares animadas por duplas sertanejas nacionais. Aos olhos da sociedade, o dinheiro vinha de negócios lícitos.

Em 2007, Ronaldo Mendes Nunes chegou a cumprir pena por tráfico, mas Aparecido Mendes Filho, até início das investigações no âmbito da Operação Sanctus, não possuía nenhuma denúncia formal de vínculo com o crime organizado.

Ex-dono de açougue de bairro em Dourados, ele tinha apenas como antecedentes uma prisão por porte ilegal de arma em Mato Grosso. Também teve o nome envolvido na apreensão de dinheiro não declarado, feita pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) na BR-163, em 20 de setembro de 2016.

Um caminhão dele transportava R$ 1,2 milhão em espécie dentro dos pneus do semirreboque. O dinheiro estava sendo trazido de São Paulo. A apreensão serviu como a ponta da linha que, ao ser puxada, revelou todo o novelo. A partir daí, os irmãos entraram na mira dos investigadores.

Ao longo dos anos seguintes, dezenas de cargas de cocaína ligadas à organização foram apreendidas. No mesmo ritmo em que as investigações se aprofundavam, o patrimônio milionário dos irmãos Mendes se avolumava e deu salto após a associação de Aparecido Mendes com a facção carioca Comando Vermelho.

Aparecido Mendes está recolhido no sistema penitenciário estadual em Campo Grande. Ronaldo Mendes segue foragido. Segundo a polícia, ele está escondido no Paraguai, sob proteção de traficantes da fronteira. A denúncia do MPF está sendo analisada pela 3ª Vara da Justiça Federal em Campo Grande.

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