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Campo Grande, Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019

13/09/2019 10:59

Setenta e sete dias após a morte, Maria é sepultada em funeral com 4 pessoas

A ausência de documentos, que fez falta nos 50 anos de existência, também foi problema quando morreu

Aline dos Santos
Maria foi sepultada na manhã de hoje no cemitério de Silviolândia, distrito de Coxim. Maria foi sepultada na manhã de hoje no cemitério de Silviolândia, distrito de Coxim.

Sem filhos e sem bens, Maria Borges da Silva foi sepultada na manhã desta sexta-feira (dia 13) sob os olhares do companheiro, do agente funerário e dois coveiros.

Para trás, deixa a vida “invisível” dos sem documentos. A ausência do registro de nascimento que fez falta nos 50 anos de existência também foi problema na morte: o corpo ficou 77 dias na câmara fria do necrotério da Santa Casa de Campo Grande à espera de um registro tardio de óbito.

Moradora de Coxim, Maria era analfabeta e, sem documentos, não conseguia participar de programas de transferência de renda, apesar da pobreza. No curso das tentativas do serviço de assistência social do município em obter um registro tardio de nascimento, Maria sofreu AVC (Acidente Vascular Cerebral), foi transferida para Campo Grande e morreu em 28 de junho na Santa Casa.

A partir daí, para vencer a burocracia, foi preciso recorrer à Justiça para a liberação do corpo e sepultamento. A assessoria jurídica da Santa Casa entrou com pedido de providências de registro tardio de óbito. No último 2 de agosto, o juiz da 2ª Vara de Fazenda Pública e Registros Públicos de Campo Grande, Ricardo Galbiati, determinou que fosse expedido alvará para sepultamento, medida para preservar o “princípio da dignidade da família do falecido”.

Contudo, o documento não trazia o local. Para tanto, foi preciso um novo pedido do setor jurídico do hospital. No último dia 3, o juiz expediu autorização para traslado e sepultamento.

Depois de 76 dias, o corpo de Maria deixou a Santa Casa às 18h de ontem. Nesta sexta-feira, às 8h, ela foi sepultada no Cemitério de Silviolândia, distrito a 5 km da área urbana de Coxim. A despedida foi rápida, sendo o funeral acompanhado pelo viúvo, seu único laço familiar conhecido.

“A localidade onde morava era de baixa renda, na linha da pobreza mesmo”, diz o agente funerário Leomar Rodrigues, que acompanhou a cerimônia fúnebre, sobre o adeus com apenas um parente. A prefeitura de Coxim custeou o funeral e sepultamento.

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