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“Vi meus filhos em chamas”, diz mãe após explosão que matou criança de 3 anos

Menina de 6 anos permanece internada em estado grave e, segundo a mulher, está irreconhecível

Por Bruna Marques e Geniffer Valeriano | 31/07/2026 12:07
“Vi meus filhos em chamas”, diz mãe após explosão que matou criança de 3 anos
Bolsa carregada pela mãe durante a visita à filha reúne Bíblia, óleo ungido e sal (Foto: Victória Costacurta)

"Quando olhei para o lado, vi meus filhos com o corpo em chamas".Três dias depois da explosão que matou o menino de 3 anos e deixou a irmã dele, de 6, gravemente ferida, a mãe das crianças apresentou sua versão sobre o acidente e afirmou que a filha sobrevivente está irreconhecível por causa das queimaduras.

RESUMO

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A mãe de duas crianças atingidas por uma explosão em Dourados relatou sua versão do acidente que matou o filho de 3 anos e deixou a filha de 6 com queimaduras em 90% do corpo. Segundo ela, o fogo ocorreu ao tentar reacender uma chapa com álcool, e não uma churrasqueira. A menina segue internada em estado grave na Santa Casa de Campo Grande. O caso é investigado pela Polícia Civil como homicídio culposo.

A mulher, de 21 anos, conversou com o Campo Grande News na manhã desta sexta-feira (31), em frente à Santa Casa de Campo Grande, onde a menina permanece internada em estado grave. Religiosa, ela carregava uma bolsa com óleo ungido, sal e uma Bíblia.

Segundo a mãe, esta seria a primeira vez que conseguiria visitar a filha desde o acidente. O pai da menina permanece como acompanhante no hospital e repassa as informações sobre o tratamento.

A criança teve queimaduras de terceiro grau em cerca de 90% do corpo. O irmão, atingido pela mesma explosão, teve 100% do corpo queimado e morreu na terça-feira.

“Eu me culpo porque o meu filho ficou irreconhecível. A minha filha também está irreconhecível”, afirmou a mãe.

A menina permanece sedada, condição que a mulher descreve como “dormindo”. A família acredita que se trata de coma induzido, mas essa informação ainda precisa ser confirmada pela equipe médica.

Segundo a mãe, a criança deverá passar por uma traqueostomia por causa das queimaduras no sistema respiratório. O procedimento deve permitir que os médicos avaliem a resposta da paciente durante o processo de redução da dependência dos aparelhos.

“Como houve muita queimadura no sistema respiratório, ela vai precisar, porque os aparelhos sozinhos não estão dando conta. Acho que vão tentar retirar um aparelho e colocar a traqueostomia para ver como ela reage”, disse.

“Vi meus filhos em chamas”, diz mãe após explosão que matou criança de 3 anos
Queimaduras no braço da companheira da mãe, que também ficou ferida ao tentar conter as chamas durante a explosão (Foto: Victória Costacurta)

A menina também utilizava um equipamento para auxiliar os batimentos cardíacos. De acordo com o relato da mãe, esse suporte já foi retirado.

“Agora o coração está batendo por conta própria. Ela está melhorando, mas vai precisar ficar dormindo por um tempo, até a pele se regenerar, porque queimou muito”.

Os banhos são realizados com panos e podem durar duas horas ou mais. “É muito delicado. A pele dela está muito exposta”, afirmou.

Mãe contesta versão de churrasqueira - Informações divulgadas inicialmente apontavam que a explosão teria ocorrido durante a tentativa de reacender uma churrasqueira. A mãe, porém, afirmou que a família utilizava uma chapa para preparar carne.

Segundo ela, a companheira havia acendido o equipamento anteriormente e preparado a primeira parte da refeição. Na segunda vez, a mãe tentou reacender o fogo usando álcool.

“A gente foi fazer uma janta em casa e estava usando uma chapa. Na primeira vez, a minha esposa acendeu, fritou a carne e deu tudo certo. Na segunda vez, fui eu quem tentou acender”.

“Vi meus filhos em chamas”, diz mãe após explosão que matou criança de 3 anos
Mãe das crianças, de blusa marrom, segue para a Santa Casa ao lado da companheira antes de visitar a filha, internada em estado grave (Foto: Victória Costacurta)

A mulher afirmou que a companheira segurava a chapa, enquanto ela despejava álcool na parte inferior do equipamento.

“Havia um pouco de fogo, mas quase não dava para ver. Quando virei o álcool, caiu uma quantidade além da conta. Não foi tanto, mas também não foi pouco. Então o fogo explodiu”.

Para a mãe, a explosão pareceu pequena. Um vizinho, no entanto, contou que o barulho foi ouvido por pessoas que estavam na esquina.

“Quando olhei, estava tudo pegando fogo. Formou-se um caminho de álcool em chamas. A calçada e a varanda da casa ficaram queimadas. Como o local é aberto, o vento ajudou a espalhar o fogo”.

Recipiente com óleo que estava sendo segurado pela companheira também foi atingido. Segundo a mãe, o objeto caiu e o líquido alcançou o pé da mulher, contribuindo para a propagação das chamas.

A companheira sofreu queimaduras no pé e continua em tratamento. A mãe teve ferimentos nas mãos e nos dedos.

“Vi meus filhos em chamas”, diz mãe após explosão que matou criança de 3 anos
Pé da companheira da mãe enfaixado após queimaduras sofridas no acidente (Foto: Victória Costacurta)

A mãe afirmou que os filhos não estavam perto da chapa. Segundo ela, as crianças permaneciam sentadas em uma área mais afastada, próxima a bancos e cadeiras.

“As crianças nunca ficavam perto. Naquele dia, também não estavam perto. Eu e a minha esposa estávamos na beira da chapa”.

A mulher disse que não compreende como os filhos foram atingidos com tanta intensidade, enquanto os adultos que estavam mais próximos sofreram queimaduras menores.

“É isso que eu acho impressionante. Nós estávamos perto e o fogo quase não nos atingiu. A minha esposa se queimou mais porque o óleo caiu nela, mas o fogo atingiu principalmente as crianças”.

Após a explosão, a mãe correu para abrir o portão da casa, uma quitinete pequena. Ela afirmou que temeu que todos corressem para dentro do imóvel e ficassem presos.

“A minha reação foi abrir para que todos corressem para a rua. Se a gente corresse para dentro, poderia morrer todo mundo”.

Quando olhou para o lado, viu o menino com o corpo tomado pelas chamas.

“Ele estava ao meu lado, com o corpo tomado pelo fogo. Ele pulava e tentava chorar”.

A criança caiu em uma área onde havia óleo, o que teria aumentado as chamas. Familiares e vizinhos tentaram apagar o fogo.

Uma mulher que participou do socorro também ficou gravemente ferida e passou por cirurgia. Segundo a mãe, ela sofreu queimaduras ao tentar segurar o menino.

“Ela se queimou porque tentou ajudar o meu filho. Quando o segurou, o fogo também a atingiu”.

“Vi meus filhos em chamas”, diz mãe após explosão que matou criança de 3 anos
Queimadura em um dos dedos da mãe, que sofreu ferimentos nas mãos ao tentar socorrer os filhos (Foto: Victória Costacurta)

A mãe disse que molhou um pano e começou a usá-lo para apagar as chamas. Vizinhos levaram o menino para um banheiro e ligaram o chuveiro.

A menina também correu para a rua com o corpo em chamas e foi socorrida por moradores. “Foram os vizinhos que viram e ajudaram. Eu não vi. Só a vi quando o fogo já estava apagado”.

A mulher afirmou que entrou em choque, passou mal e desmaiou.

Segundo a mãe, os dois filhos permaneceram conscientes durante o transporte até o hospital. “Minha filha estava consciente e eu conversava com ela. Quando chegamos, colocaram ela em uma maca e fizeram a limpeza do corpo”.

O menino também estava consciente. Antes de ser sedado, conseguiu conversar com a mãe. “Eu disse: ‘Filhinho, eu te amo. Fala para a mamãe que você me ama’. A única coisa que ele respondeu foi: ‘Eu te amo, mamãe’. Depois, ele dormiu”.

A criança deu entrada no HU (Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados) sob ventilação mecânica e com sinais de lesão inalatória.

Na manhã de terça-feira, sofreu uma parada cardiorrespiratória. A equipe médica realizou manobras de reanimação durante aproximadamente 25 minutos, mas não conseguiu reverter o quadro.

A mãe contou que percebeu que os batimentos cardíacos do menino estavam muito acelerados. “A todo momento vinha um médico, fazia anotações e cálculos e corria para dentro. Eu não sabia o que estava acontecendo”.

A morte foi comunicada em uma sala reservada, na presença de profissionais do hospital. “Quando vi todos entrando, já entendi. Eles disseram: ‘Infelizmente, não conseguimos salvar o seu filho’”.

O menino foi sepultado na quarta-feira. “Ver o meu filho morto doeu. Mas, quando vi o caixão chegando e depois o enterro, foi ainda pior”.

A mãe afirmou que decidiu falar publicamente após ser acusada de provocar a explosão e de colocar os filhos em risco. “Eu não fiz isso porque quis. Eu não sabia que isso aconteceria. Estou traumatizada até agora. Qualquer coisa me assusta”.

Ela reconheceu que se sente culpada, mas afirmou que jamais desejaria que algo assim acontecesse. “Eu sou mãe. Os meus vizinhos me conhecem. Eu nunca faria isso. Nunca”.

A mulher disse que não consegue voltar à casa onde ocorreu o acidente porque revive a cena. “Quando chego lá, vejo tudo novamente. Não consigo ficar”.

Ela também contestou a informação de que teria deixado o galão de álcool ao lado de uma churrasqueira. “No boletim, eu falei certo. Foi o disco da chapa. A gente tem uma churrasqueira em casa e faz churrasco, mas não coloca álcool nela”.

Segundo a mãe, após o acidente, um bombeiro encontrou o galão de álcool ainda pela metade. “Quando o galão explodiu, tive a impressão de que o álcool tinha voado todo. O galão caiu no chão e, para mim, estava vazio. Depois, o bombeiro encontrou ainda pela metade. Eu também não entendo”.

Família arrecada dinheiro para tratamento - A família iniciou uma vaquinha para arrecadar recursos destinados às necessidades futuras da menina, caso ela sobreviva e precise de tratamentos que não sejam oferecidos pelo hospital.

“É para o tratamento dela, caso precise. Eu não sei se pode surgir alguma necessidade que não seja atendida aqui, então já estou me preparando. A arrecadação é para ela”.

A mãe negou que a campanha seja fraudulenta ou que esteja usando a filha para conseguir dinheiro. “Tem gente dizendo que a vaquinha é golpe. Não é golpe. Estão dizendo que estou usando a minha filha para conseguir dinheiro. Eu não sou assim”.

A família está hospedada em uma casa de apoio e recebe auxílio com alimentação e transporte entre o local e o hospital. Apesar da gravidade das queimaduras, a mãe afirmou que acredita na recuperação da menina.

“Tenho certeza de que a minha filha vai sair daqui bem e viva”.

Entenda - O acidente ocorreu por volta das 19h de segunda-feira (27), na região da Chácara Califórnia, em Dourados. Seis pessoas sofreram queimaduras.

O caso foi registrado na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) de Dourados como homicídio culposo e lesão corporal culposa. A PC (Polícia Civil) investiga as circunstâncias da explosão.