Delcídio defende projeto de longo prazo para MS com foco em gás e logística
Candidato do PRD ao Governo de MS aposta na experiência no setor de energia e planejamento para governar
Quase uma década depois de ser cassado e de romper com o PT, o ex-senador Delcídio Amaral, 71 anos, volta à cena política de Mato Grosso do Sul. Candidato ao Governo do Estado pelo PRD, partido que integra federação com o Solidariedade, ele tenta retornar ao cargo que já disputou em outras duas ocasiões apresentando como principal diferencial a experiência acumulada no setor de energia, na iniciativa privada e na política nacional.
RESUMO
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O ex-senador Delcídio do Amaral, 71 anos, retorna à disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul pelo PRD, quase uma década após a cassação de seu mandato. Com passagens pela Shell, Vale, Petrobras e Eletrobras, e ex-ministro de Minas e Energia, ele defende um plano de desenvolvimento estadual de longo prazo, com foco em gás natural, Rota Bioceânica, ferrovia, tecnologia, saúde regionalizada e segurança pública integrada.
Senador pelo PT durante 14 anos, Delcídio foi ministro de Minas e Energia, líder do governo Dilma Rousseff (PT) no Senado e relator do Orçamento Geral da União. Também comandou e teve cargos de chefia em empresas como Shell, Vale, Petrobras e Eletrobras. Para ele, essa trajetória influencia a maneira como enxerga o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul.
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A principal bandeira apresentada pelo candidato é a necessidade de um planejamento que ultrapasse os ciclos eleitorais. Ao comparar a gestão pública com as grandes empresas onde trabalhou, Delcídio questiona por que o Estado não possui um plano de desenvolvimento pensado para décadas.
“Empresas tem planejamento de 20 anos. Por que não temos um projeto de Estado de 20 anos?”, questionou.
A partir dessa ideia, o candidato organiza boa parte das propostas em torno de infraestrutura, energia, logística, tecnologia e qualificação profissional. Na avaliação dele, os investimentos precisam estar conectados e formar uma estratégia única de desenvolvimento, em vez de projetos isolados.
Gás natural como estratégia de desenvolvimento
Um dos principais exemplos citados por Delcídio é o gás natural. O candidato afirma que Mato Grosso do Sul conseguiu ampliar a arrecadação relacionada ao setor, mas não teria desenvolvido uma política energética capaz de aproveitar economicamente a disponibilidade do gás dentro do próprio Estado.
Ele lembra que participou da introdução do gás natural na matriz energética brasileira e sustenta que Mato Grosso do Sul poderia ter avançado mais no aproveitamento dessa fonte de energia.
“Já chegou a 30% da receita do Estado”, afirmou, ao destacar a importância que atribui ao gás para a economia estadual.
Na sequência, Delcídio argumenta que a política energética não deveria se limitar à arrecadação. Para ele, a estrutura existente poderia ser utilizada para estimular outras atividades econômicas, reduzindo custos e agregando valor à produção.
O candidato cita projetos que afirma ter deixado encaminhados durante sua trajetória política e defende a retomada de estruturas relacionadas ao processamento do gás. Segundo ele, a localização de Mato Grosso do Sul poderia garantir uma vantagem competitiva no preço da molécula, já que boa parte do custo está relacionada ao transporte. “Aqui seria o preço do gás mais barato do Brasil. Mas não fizeram nada”, afirmou.
Na avaliação de Delcídio, aproveitar o gás significa também pensar na produção de combustíveis, fertilizantes, GLP e outros insumos. A intenção seria transformar a disponibilidade energética em uma cadeia econômica capaz de gerar empregos e investimentos dentro do Estado.
Bioceânica além da rodovia
Delcídio considera a Rota Bioceânica uma oportunidade importante para Mato Grosso do Sul, mas defende que o Estado não trate o projeto apenas como uma ligação rodoviária entre os países.
Para ele, a estratégia deveria envolver também o transporte ferroviário e recuperar uma integração que, segundo sua visão, poderia aproveitar a antiga Noroeste do Brasil.
“A bioceânica é fazer o que os antigos fizeram. É botar para funcionar novamente com o terceiro trilho a antiga Noroeste do Brasil”, disse.
O candidato defende uma conexão ferroviária que avance em direção à Bolívia e ao Peru, criando uma alternativa de transporte capaz de ampliar o alcance da produção sul-mato-grossense até o Pacífico.
Ele cita o porto de Chancay, no Peru, como parte desse novo cenário de integração comercial e afirma que a infraestrutura precisa ser pensada como um projeto de longo prazo.
Nesse sentido, a Rota Bioceânica, para Delcídio, seria apenas uma parte de uma estratégia maior. O objetivo seria combinar rodovias, ferrovias, energia e estruturas de escoamento para transformar a localização geográfica de Mato Grosso do Sul em vantagem econômica.
Indústria precisa gerar efeito dentro do Estado
A industrialização também aparece na proposta, mas com uma preocupação adicional: as contrapartidas dos grandes empreendimentos.
Delcídio reconhece como importante a tentativa de ampliar a participação da indústria na economia estadual, especialmente diante do crescimento do setor de celulose. Ao mesmo tempo, afirma que os grandes investimentos precisam estar associados à sustentabilidade e à geração de oportunidades para a população local.
“Acho que é uma iniciativa importante, mas tem que ver também as contrapartidas e a questão da sustentabilidade”, afirmou.
Para o candidato, não basta trazer empresas para Mato Grosso do Sul se parte dos trabalhadores e da renda gerada pelos empreendimentos continuar circulando fora do Estado. Ele defende que a política de atração de investimentos seja acompanhada de qualificação profissional, integração com universidades e escolas técnicas e formação de mão de obra local.
A mesma preocupação aparece quando Delcídio fala sobre pequenos e médios empresários. Ele considera que esse segmento deveria ter maior acesso a crédito e aos recursos do FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste).
“O pequeno e o médio é a essência da nossa economia. São eles que geram emprego, que geram oportunidades, que geram renda”, afirmou.
Tecnologia para segurar mão de obra qualificada
A qualificação profissional aparece ligada a outro ponto defendido pelo candidato: tecnologia. Delcídio afirma que Mato Grosso do Sul forma jovens em áreas digitais, mas não consegue oferecer estrutura suficiente para mantê-los no Estado.
Segundo ele, profissionais acabam migrando para cidades como São Paulo e Florianópolis, onde existem centros de tecnologia, startups e empresas de software.
“Você vê Mato Grosso do Sul, você vê gente, jovens, se formando em áreas digitais, indo embora para São Paulo, indo embora para Florianópolis”, disse.
A proposta, portanto, não seria apenas ampliar cursos ou formar profissionais, mas criar um ambiente econômico capaz de absorver essa mão de obra. Para Delcídio, conectividade, infraestrutura digital e atração de empresas de tecnologia precisam fazer parte do mesmo planejamento.
Saúde deve ser regionalizada
Na saúde, Delcídio retoma uma proposta que afirma já ter apresentado em 2014: a regionalização do atendimento. O candidato questiona a permanência do tema nas campanhas eleitorais e defende que os moradores do interior tenham acesso a serviços mais próximos de suas cidades.
“Todos os candidatos falam de regionalização. Então... Ou seja, a gente tem um campo enorme a percorrer”, afirmou.
Ele cita a situação de pacientes que precisam viajar até Campo Grande para conseguir atendimento e defende uma estrutura regional capaz de reduzir esses deslocamentos.
Para ele, tecnologia e medicina também precisam caminhar juntas para acelerar diagnósticos e ampliar a capacidade de atendimento.
Segurança com inteligência e tecnologia
Na segurança pública, o candidato defende uma estratégia baseada em inteligência, monitoramento e integração das forças policiais. Ele reconhece a necessidade de reforçar efetivos e equipamentos, mas considera insuficiente concentrar a política apenas na compra de viaturas e armamentos.
Delcídio defende o uso de câmeras, centros de comando e controle e integração entre Polícia Civil, Polícia Militar e forças federais, especialmente para o monitoramento da fronteira.
A experiência que cita nesse campo está relacionada ao Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), projeto para o qual afirma ter destinado recursos quando foi relator do Orçamento da União.
“Falta ousadia no Estado”, afirmou, ao defender maior utilização de tecnologia na segurança pública.
Mulheres e prevenção à violência
O combate à violência contra a mulher também aparece entre as propostas. Delcídio cita a Casa da Mulher Brasileira, que afirma ter ajudado a implantar durante sua atuação política, e defende o fortalecimento da estrutura de acolhimento e proteção.
Para ele, o enfrentamento da violência passa por delegacias especializadas, estímulo à denúncia e políticas de prevenção.
“A política de mulheres, voltada para as mulheres, não existe aqui no Estado. Zero. Não existe”, afirmou.
O candidato também defende que a prevenção comece ainda na infância e que o governo amplie a rede de proteção para mulheres e crianças vítimas de violência.
PPPs com contrapartidas
A participação da iniciativa privada em projetos públicos também é abordada por Delcídio. Ele afirma não ser contrário às PPPs (Parcerias Público-Privadas), mas defende que os contratos tenham objetivos claros e tragam benefícios concretos para o Estado.
O candidato cita sua experiência em projetos de infraestrutura para diferenciar o que considera uma PPP estruturada de modelos em que, segundo ele, o poder público assume grande parte dos custos enquanto o setor privado fica com a exploração econômica.
“Eu não sou contra PPP, não sou contra privado, muito pelo contrário, convivo com vários deles”, afirmou.
Para Delcídio, o Estado precisa definir quais são suas prioridades e concentrar esforços em áreas como planejamento, finanças, educação, saúde, segurança e meio ambiente.
Segundo turno para ampliar debate
Ao falar especificamente sobre a disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul, Delcídio defende que a eleição chegue ao segundo turno. Para ele, uma segunda etapa permitiria um confronto direto entre os candidatos e abriria espaço para uma discussão mais aprofundada sobre os projetos para o Estado.
“Porque é a oportunidade de a gente fazer um debate franco. No mano a mano. Tete a tete”, afirmou.
O candidato diz acreditar que haverá segundo turno e aproveita a entrevista para fazer um apelo pela manutenção da disputa em duas etapas. Segundo ele, esse cenário permitiria que os eleitores comparassem propostas e que os candidatos discutissem de maneira mais direta o futuro de Mato Grosso do Sul.
“A gente precisa levar essa eleição para o segundo turno. Para aí sim fazer um debate, que eu espero seja um debate que o Estado ganhe com isso”, disse.
Na mesma resposta, Delcídio relaciona a necessidade de discussão sobre o futuro do Estado ao desempenho econômico de Mato Grosso do Sul. Ele afirma que o Estado tem potencial maior do que os resultados atuais demonstrariam e cita a trajetória de crescimento de Mato Grosso e Goiás como exemplos de Estados que conseguiram ampliar sua participação econômica.
A partir desse argumento, retoma a defesa de um planejamento capaz de aproveitar melhor a localização, a produção e a infraestrutura de Mato Grosso do Sul.
Retorno à política após uma década
A volta de Delcídio à disputa estadual ocorre depois de uma sequência de derrotas eleitorais. Ele foi eleito senador em 2002 pelo PT e reeleito em 2010. Em 2006, disputou pela primeira vez o Governo de Mato Grosso do Sul e, em 2014, voltou a concorrer ao cargo, sendo derrotado no segundo turno por Reinaldo Azambuja.
Depois, tentou novamente uma vaga ao Senado em 2018, disputou uma cadeira de deputado federal em 2022 e concorreu à Prefeitura de Corumbá, sua cidade natal, em 2024. Não foi eleito desde a reeleição para o Senado.
Na entrevista, Delcídio também voltou a abordar o episódio de 2015 que levou à cassação de seu mandato. Ele afirma que o caso envolvia obstrução de Justiça e não corrupção e ressalta que posteriormente foi absolvido pela Justiça.
Ao explicar o retorno à política, o ex-senador diz acreditar que ainda pode contribuir com o Estado a partir da experiência acumulada no setor privado, no governo federal e no Congresso Nacional. “Eu acho que eu não terminei a minha missão”, afirmou.
É nesse ponto que Delcídio procura diferenciar sua candidatura. Em vez de apresentar apenas propostas isoladas, ele defende que gás natural, logística, ferrovia, Rota Bioceânica, tecnologia, saúde, segurança e desenvolvimento econômico sejam tratados dentro de um mesmo planejamento.
“Se eu vou fazer um governo pior ou melhor que essa turma que está aí, eu não sei, mas diferente com certeza será”, finalizou.



