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Não existe justiça? Muitas vezes parece que não

Por Heitor Castro | 17/02/2022 08:30

Parece que não existe justiça no mundo. Muitas coisas acontecem na nossa vida e fazem com que a gente se sinta injustiçado.

Quando eu penso sobre justiça, me vem na cabeça a era grega clássica, quando os atenienses fundaram uma sociedade que se orgulhava de seus princípios de democracia e justiça, mas Atenas possuía uma base, Sócrates. Sua visão seria muito mais pautada em não aceitar a maneira como as coisas são e questionar o sistema e todo o resto, para ver se estava entendendo tudo direito; nada o faria concordar nem discordar, tampouco ofereceria qualquer solidariedade ou conselho, começaria a perguntar o que você pensa e o que quer dizer exatamente com justiça, o ponto crucial é sempre: “Sim, mas…” seguida por perguntas que farão você duvidar do que disse inicialmente; uma forma que ele encontrou para chegar ao núcleo de qualquer problema, antes de tentar propor uma solução.

Eu diria que, em geral, somos capazes de identificar quando algo é justo ou não, mas não conseguimos explicar o que é a própria justiça; podemos reconhecer quando a vemos em ação, mas fracassamos ao tentar defini-la. Claro, é importante se empenhar em esclarecer a diferença entre justiça e igualdade, embora a igualdade seja uma forma de justiça, e justiça nem sempre significa o mesmo que igualdade.

O que nos leva ao problema de definir o que entendemos por “igualdade”, e a verdade é que existem diferentes tipos de “igualdade”.

Assim como os atenienses procuraram criar uma sociedade justa, alguns dos pensadores revolucionários nos EUA e França nos século xviii queriam fundar uma sociedade mais igualitária também.

Alguns diriam que a injustiça se deve ao privilégio, de que algumas pessoas nascem em posições de poder e riqueza, enquanto outras são excluídas, mas isso pode ser remediado desde que se proporcionem a todos os mesmos direitos a certas coisas, uma igualdade de oportunidades.

Outros diriam que está ótimo ter igualdade de oportunidades por “lei”, mas isso não serve de consolo se o sistema continua lhe negando a capacidade de fazer algo concreto, não é só o privilégio que leva a injustiça, é também o famoso “direito adquirido”, nossa sociedade tende a proteger os direitos de certas pessoas, especialmente “os direitos”, e ainda tem a causa básica dos problemas que é a distribuição desigual da riqueza; não importa quais sejam seus direitos, não haverá igualdade de resultado enquanto isso não for abordado.

Talvez haja então dois tipos diferentes de igualdade: A de oportunidades e de resultados; os direitos iguais ou a participação equitativa. O problema é como você decide quem merece o quê?

Podemos pensar sobre a situação e concordar que o mundo não é justo; justeza é o principio subjacente a justiça. E se por acaso você tivesse nascido numa classe privilegiada e se tornasse presidente de uma empresa ganhando uma fortuna? Em particular, você poderia até admitir que isso não é exatamente justo, mas não reclamaria.

Aqueles com alta renda tendem a descartar os gritos por igualdade com a “política da inveja”, enquanto os que ganham mal denunciam a desigualdade crescente como sendo a “política da ganância”.

Tudo isso é injusto, ambos não podem ter razão, mas existiria um meio de chegar a uma visão mais justa?

Imagine que você estava abrindo um negócio com outras pessoas e não sabia se viria a ser o CEO, o gerente de médio escalão, ou um trabalhador do chão de fabrica; como isso afetaria sua forma de decidir a estrutura salarial e a duração do tempo de trabalho? O fato é que, como você estaria trabalhando atrás do “véu de ignorância” sobre sua posição na empresa, é bem provável que optasse por um sistema equitativo que fosse justo para todos.

Mesmo assim podemos discordar, e pensar que o principio de justiça é o “direito adquirido”, não privilégio, mas direito legal, e isso pode resultar na desigualdade que você acha injusta, mas é, mesmo assim, justa. Se você possui algo, ninguém mais tem direito a isso, a não ser que você o venda ou de de presente ou tenha adquirido ilegitimamente. Assim, corrigir a injustiça de tudo reduzindo a fortuna do seu chefe e aumentando a sua seria injusto, quer você goste ou não, ele faz jus, como gerente ou dono da empresa, ao que conquistou, contanto que tenha adquirido suas posses por meios legítimos; e você também faz jus ao que obteve, nada mais, nada menos.

O fato é que podemos pensar sobre o motivo das injustiças, pensar na desigualdade, que não é injustiça. Podemos defender a igualdade de oportunidades, a igualdade de resultados; definir a justiça como justeza, ou até como direito adquirido. Você é quem escolhe como pensar.

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