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Política

Após crise com própria etnia, Eloy Terena ressurge na sucessão de ministério

Secretário-executivo do ministério volta a ter apoio após tensão com base indígena e quer suceder Guajajara

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 19/03/2026 14:25
Após crise com própria etnia, Eloy Terena ressurge na sucessão de ministério
Eloy e Sônia Guajajaram em novembro do ano passado (Foto: reprodução)

Nome mais provável para substituir a ministra Sônia Guajajara, que deve deixar o cargo até o início de abril para disputar a reeleição à Câmara dos Deputados, o secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Luiz Eloy Terena, chega à reta final da sucessão após atravessar meses de tensão com lideranças de sua própria base em Mato Grosso do Sul.

RESUMO

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Luiz Eloy Terena emerge como principal nome para substituir Sônia Guajajara no Ministério dos Povos Indígenas, após superar crise com lideranças de sua base em Mato Grosso do Sul. Entre setembro e dezembro de 2025, decisões administrativas e disputas políticas locais provocaram tensões que foram posteriormente resolvidas através de diálogo direto com as comunidades. O futuro ministro enfrentará desafios significativos à frente da pasta, que possui um dos menores orçamentos da Esplanada para 2026: R$ 1,31 bilhão. O ministério é responsável por gerir cerca de 13% do território nacional, onde vivem 391 etnias e aproximadamente 1,69 milhão de indígenas, tendo homologado 20 terras indígenas até o final do ano passado.

Entre setembro e dezembro de 2025, decisões administrativas, disputas políticas locais e a possibilidade de uma candidatura própria à Câmara provocaram uma ruptura inédita entre o dirigente e parte do movimento indígena estadual. Em reuniões com parlamentares do PT, caciques chegaram a pedir formalmente sua exoneração e a defender que ele fosse excluído da sucessão ministerial.

O impasse foi posteriormente superado após negociações diretas com as comunidades. Hoje, lideranças afirmam que Eloy voltou a contar com apoio majoritário e consideram sua eventual posse um marco histórico para a representação indígena sul-mato-grossense no governo federal.

“Pela primeira vez teremos um ministro indígena de Mato Grosso do Sul que nasceu da base do movimento”, afirma Valcélio Terena Figueiredo, ex-coordenador do conselho da etnia no Estado e atual coordenador-executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), em Brasília.

Do movimento ao poder

A trajetória recente de Eloy sintetiza o dilema enfrentado por uma nova geração de lideranças indígenas que ingressou nas estruturas do Estado: como preservar legitimidade junto às bases enquanto se negocia dentro de um sistema político dominado por forças historicamente adversárias às pautas indígenas.

Advogado e referência na contestação jurídica da tese do marco temporal no Supremo Tribunal Federal, Eloy ganhou projeção nacional como representante técnico e político do movimento indígena. Ao assumir posição estratégica no governo federal, passou a lidar com pressões institucionais, partidárias e regionais que extrapolam a lógica da militância.

Essas tensões se amplificam em Mato Grosso do Sul — Estado com a terceira maior população indígena do país e um dos cenários mais agudos de conflitos fundiários, marcado por assassinatos recorrentes de lideranças Guarani Kaiowá. A política local é fortemente influenciada pelo agronegócio, enquanto as comunidades se mobilizam pela retomada de antigos territórios, reivindicam demarcação e proteção contra a violência.

Crise aberta em 2025


Foi nesse contexto que explodiu a crise no fim de 2025. Em reunião realizada em novembro, representantes indígenas pediram à bancada federal do PT no Estado a exoneração de Eloy do cargo de secretário-executivo e sua exclusão da disputa pelo comando do ministério. Em vídeo do encontro, o cacique Ageu Terena criticou duramente a condução da política indigenista federal.

“Nossos irmãos Guarani e Kaiowá estão morrendo, sendo fuzilados, enquanto se passa a imagem de que está tudo bem.” Outro representante do Conselho do Povo Terena rejeitou de forma categórica a possibilidade de Eloy assumir a pasta: “Não admitiremos, sob hipótese alguma, que ele assuma o cargo de ministro.”

As críticas ocorreram em meio à escalada de conflitos fundiários no sul do Estado e à percepção de lentidão nas respostas do governo federal.

Pressão política

O encontro contou com a presença de parlamentares estaduais e federais petistas, entre eles o deputado Vander Loubet, presidente do partido em Mato Grosso do Sul e pré-candidato ao Senado.

No vídeo, Vander e a deputada Camila Jara reconheceram o descontentamento e afirmaram que levariam as reivindicações ao Palácio do Planalto, cobrando também maior presença de políticas públicas nos territórios indígenas. O pedido de exoneração teria sido encaminhado à ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.

“O Eloy não nos representa e não faz política conosco. Se articula muito mais com o governo do Estado”, afirmou Vander, que classificou o estilo do secretário como autoritário e arrogante. O deputado também criticou a ministra Sônia Guajajara: haveria “revolta e descontentamento com a forma com que Eloy e a própria ministra vêm conduzindo o Ministério”.

A mobilização evidenciou a capacidade de pressão da base indígena organizada no Estado, historicamente articulada em momentos de crise.

Ruptura por decisões e alianças

Segundo Ageu Terena, a insatisfação teve origem em decisões consideradas unilaterais e na percepção de distanciamento das comunidades.

“Faltou consulta prévia às lideranças”, afirmou, citando mudanças na coordenação regional da Funai em Mato Grosso do Sul sem comunicação à presidente do órgão, a ex-deputada Joenia Wapichana.

Outro fator foi a aproximação política com setores ligados ao agronegócio durante o período em que Eloy cogitava disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. “Isso preocupou porque o agro é historicamente contrário às pautas indígenas”, disse.

Até o final do ano passado, quando decidiu não concorrer, Eloy aproximou-se do governador Eduardo Riedel, que lidera o PP no Estado ao lado da senadora Tereza Cristina, além de dirigentes do setor agropecuário historicamente em conflito com o movimento indígena.

Para lideranças, o episódio expôs o risco de cooptação política quando representantes do movimento passam a atuar dentro das instituições.

Diálogo e acomodação

A crise começou a arrefecer no fim de 2025, após visitas de Eloy às comunidades e reuniões com lideranças de diferentes regiões do Estado.

Em entrevista posterior, Ageu afirmou que, pelo menos para os Terena, o cenário hoje está pacificado. “Agora está tudo normalizado. Houve revolta no final do ano passado, mas atualmente está tudo OK.” Segundo ele, a explicação apresentada pelo secretário foi decisiva para a mudança de posição.

“Ele mostrou que os projetos dependem de trâmites e recursos públicos; não é algo que se resolva de um dia para o outro.” O cacique relatou ainda que Eloy reconheceu erros políticos. “Ele pediu desculpas e disse que nossa bandeira não é de direita nem de esquerda, é a bandeira do movimento indígena.”

Apoio majoritário

Atualmente, afirma Ageu, a maior parte das lideranças voltou a apoiar o dirigente.

“Se pensarmos no bem coletivo, estamos bem representados no governo federal.”

Ele admite, porém, resistências pontuais.

“Sempre haverá alguma liderança descontente, mas é minoria.”

A eventual posse é vista como conquista simbólica e política para o Estado.

“Seria uma honra. Ele é preparado, conhece a base e é daqui.”

Ministério novo, desafios antigos

Criado em 2023, o Ministério dos Povos Indígenas ainda enfrenta limitações estruturais, segundo Valcélio. “O ministério é novo e precisou montar toda a estrutura antes de executar projetos.”

Entre os avanços citados estão processos de demarcação e homologações em andamento, embora a lentidão continue sendo alvo de críticas. O MPI possui um dos menores orçamentos da Esplanada para 2026: R$ 1,31 bilhão — considerado insuficiente para gerir cerca de 13% do território nacional, onde vivem 391 etnias e aproximadamente 1,69 milhão de indígenas.

A nova pasta homologou 20 terras indígenas até o final do ano passado, rompendo um período de cinco anos sem avanços, mas ainda há 70 territórios em fase de homologação e outros 304 a demarcar.

Mato Grosso do Sul concentra entre 110 mil e 120 mil indígenas e apresenta uma das menores proporções de terras regularizadas do país. Lideranças estimam que mais de 180 áreas aguardam demarcação envolvendo diferentes povos.

Esse cenário mantém o Estado no centro das disputas nacionais sobre política indigenista.

Pragmatismo eleitoral

A possível candidatura de Eloy à Câmara também alimentou tensões internas. Considerado competitivo, ele poderia contar com apoios fora do campo tradicional do movimento indígena.

Para dirigentes indígenas, a busca por alianças é vista como parte inevitável do sistema político.

“Quem não tem recursos precisa buscar apoio para disputar eleição. É o jogo da política”, afirmou Valcélio, eleitor declarado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas que convive com forte oposição na própria família. Seu irmão, o vereador Otacir Pereira Figueiredo, conhecido como Gringo, presidente da Câmara Municipal de Sidrolândia, foi eleito pelo PP..

Com a possibilidade de assumir o ministério, a candidatura a deputado federal foi abandonada — movimento interpretado como tentativa de preservar capital político e institucional, evitando uma inflexão que poderia enfraquecer o indigenismo e a pauta indígena no Estado.

A ascensão como ministro depende, é claro, de como Lula interpretou o zigue-zague político do secretário-executivo do MPI.