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Em Pauta

A religiosa história da Afonso Pena e de todas as avenidas do mundo

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 15/06/2026 07:00
A religiosa história da Afonso Pena e de todas as avenidas do mundo

A avenida Afonso Pena é o coração de Campo Grande. Seus quase oito quilômetros de árvores frondosas e canteiros centrais foram idealizados em 1.922. Na ideia original, seria chamada de avenida Marechal Hermes. O nome atual foi dado em homenagem a Afonso Augusto Moreira Pena, o presidente do Brasil de então que teve grande influência na aprovação e expansão da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, fundamental para o progresso da cidade. A avenida foi projetada pelo engenheiro Nilo Javary Barem, quando Arlindo de Andrade Gomes era o prefeito. Mas de onde o prefeito e o engenheiro tiraram a ideia de construir uma longa e larga avenida?


A religiosa história da Afonso Pena e de todas as avenidas do mundo

O papa que não era Urbano mas era urbanista.

Há milhares de avenidas por onde passamos sem suspeitar de onde vieram. Felice Peretti era um frade franciscano, filho de uma família que fugiu dos turcos otomanos para a Itália que se converteu no Papa Sixto V em 1.585. Ele governou o Vaticano por exatos cinco anos, o tempo necessário para fazer com que os cortejos religiosos fluíssem pela Roma medieval cheia de ruelas sem saída. Todas as cidades nessa época eram labirínticas. Ninguém de fora conseguia entender as teias de aranha de suas ruelas. Era uma defesa fundamental para ataques de exércitos inimigos. Foi ele quem inventou o traçado urbano, acabou com os labirintos… em nome de Deus. O urbanismo é filho de um Papa.


A religiosa história da Afonso Pena e de todas as avenidas do mundo

Ligar as igrejas, nasce o urbanismo.

Imaginem um Papa muito inteligente e criativo inclinado sobre um plano da cidade antiga. Era um labirinto que não levava a lugar algum. E ali temos o Papa, uma pluma na mão, estudando como eliminar todas as curvas e meandros e traçando em seu lugar linhas retas - todas as avenidas do mundo são retas - de basílica a basílica, eixos unindo a igreja de São Pedro com Santa Maria Maior; de Santa Maria Maior até São João de Latrão e dessa igreja a Santa Cruz de Jerusalém. Ele conectou os grandes santuários de peregrinação romanos mediante uma rede de avenidas que permitiam aos fiéis ir de uma igreja a outra sem perder-se na velha cidade. Como um engenheiro elétrico que estende cabos de alta tensão entre subestações de Deus. Quem conhece Roma sabe que é um plano genial. Mas tem mais genialidade ainda.


A religiosa história da Afonso Pena e de todas as avenidas do mundo

Para que servem os obeliscos nas cidades modernas?

Não tenho dúvida, o hoje desconhecido Papa Sixto V foi um dos maiores gênios da humanidade. Em seus estudos urbanísticos, percebeu que os fiéis tinham de ter um marco que os orientassem para andar de igreja em igreja. Bastava levantar a cabeça e enxergá-los. Como facilitar o fluxo dos fiéis? Sixto V, sem medo de críticas, usou os obeliscos egípcios de mais de trezentas toneladas que estavam jogados, eram pagãos. Mandou colocar cruzes em cima deles e os cravou no fundo de cada avenida, como se fossem agulhas de uma bússola do tamanho da cristandade. Era ao mesmo tempo teologia, desenho urbanístico e uma declaração do triunfo do cristianismo sobre as velhas religiões. Passados alguns séculos, Paris copiou a ideia de Sixto V. Em seguida, foi a vez da Washington dos norte-americanos aderir à ideia. E as avenidas de Sixto V, como se fossem relíquias, passaram de cidade a cidade…chegando em Campo Grande. E ali temos um obelisco que não serve de bússola. Apenas uma cópia sem sentido. Uma artefato herege caído de um disco voador para atrapalhar o trânsito.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.