Uma mensagem mais que atual dos indígenas ao Brasil
A um país, do qual grande parte ainda nos conhece de forma distorcida, dirigimos uma mensagem atual, no intuito de que nós, os quase 400 povos originários presentes no Brasil, com suas 300 línguas faladas, sejam muito mais respeitados e honrados por aquilo que representamos e somos na história desta nação.
De início, importante destacar a nossa presença por estas terras há mais de 10 mil anos, algo bem anterior à chegada dos colonizadores no final do século 16. Nossa história não se inicia, portanto, em 1500. Fazendo uso, com propriedade, do plural, nossas presenças sobressaem e antecedem em muito e há muito a presença daqueles que até hoje insistem em perpetuar uma colonização de nossos saberes, mentes, corpos e territórios.
A cada brasileiro, faz-se necessário informar que nossos costumes, tradições, culturas e crenças sejam não somente valorizados, mas também respeitados e compreendidos a cada dia por um número crescente de pessoas, estas cientes de que, por esse conjunto de realidades que vivenciamos, não somos um entrave para o crescimento, desenvolvimento, ordem e progresso do país. Nunca fomos e jamais seremos obstáculo para que, no Brasil, as coisas deem certo, apesar que no passado muitos assim tenham pensado e ainda no presente vários ainda advoguem tais ideias.
A mensagem prossegue, no objetivo de fazer com que mais brasileiros não nos vejam como bandidos e/ou invasores de propriedades alheias, no que tange às reivindicações pela demarcação de todos os nossos territórios. As retomadas são ações concretas dos povos originários no retorno aos seus territórios tradicionais, diante de uma nação que, teimosamente, segue negando aos indígenas o que lhes é garantido por direito na Constituição. Informarmos com detalhes a esse respeito e dirimir todo o conjunto de desinformações espalhados pelo país com relação a esse assunto, eis um de nossos alvos até aqui.
Prosseguimos em nossa fala, reafirmando, como há anos fazemos, que convivemos em um país que presencia corriqueiramente notícias e relatos de racismo, discriminação e depreciação ainda sofridos por vários componentes de seus povos originários. Temos como um de nossos mais caros objetivos o combate a todos esses males, dos quais ainda, tristemente, somos alvo nos dias atuais. Um maior alcance de acertadas informações a nosso respeito é um forte aliado no combate a essa enxurrada de violência direcionada aos povos originários.
Na sequência, nossa voz e presenças ecoam pelo país, a fim de que o mesmo venha a compreender que ser indígena independe do contexto geográfico. Se em um território indígena chamado de tradicional, em uma área de retomada ou no convívio junto a um contexto urbano Brasil afora, nada disso limita ou deslegitima o ser indígena de um indivíduo. Não somos menos indígenas ou deixamos de pertencer a um determinado povo pelo fato de estarmos aqui ou ali localizados no imenso mapa desse país continental.
A mensagem continua, ao dizer que as línguas que falamos são muito diferentes da língua que por aqui, forçosamente, passou a ser declarada como a oficial no país. De tão importantes que são, esses idiomas milenares acabaram por servir de base para muito do que é hoje a língua portuguesa falada e praticada no Brasil. Portanto, um ato extremo de depreciação quando um indígena é alvo de piadas ou chacotas por não falar e/ou escrever a língua portuguesa com maestria, isso pelo fato de o mesmo ter como idioma materno a língua falada por seu povo de origem. Que as centenas de línguas ainda vivas e faladas pelos indígenas brasileiros sejam vistas e tratadas com apreço.
Nosso objetivo também é que cada leitor destas linhas entenda a filosofia indígena do bem viver, pela qual o coletivo e a defesa e preservação do meio ambiente e de tudo aquilo ligado à natureza são a tônica daquilo que vivenciamos junto às nossas comunidades e como honra à memória e ao legado de nossos antepassados, algo que seguimos ensinando às novas gerações e semeamos hoje na certeza de que, no futuro próximo ou distante, ainda seguirá vivo junto àqueles que nos sucederão.
O intuito que temos, da mesmo forma, é fazer com que a maioria entenda que todas as tecnologias atuais são projetadas e não levam em consideração quais povos ou culturas delas farão uso. Assim, um indígena que lance mão de qualquer que seja a tecnologia mais moderna jamais perde a sua identidade ou deixa de lado a sua cultura, pelo fato de assim proceder com aquilo que é considerado sofisticado ou de ponta. Exemplo disso são hoje vários indígenas pesquisadores, cientistas e, dessa forma, ligados diretamente às inúmeras inovações que nos chegam a cada momento.
Somos e continuamos indígenas, independentemente de onde estejamos, com quem estejamos, do que usamos ou de como somos em termos físicos e na aparência. Nada nos impede de possuirmos uma caminhote moderna, o modelo de celular mais sofisticado ou um determinado fenótipo diferente daquele ainda pensado por grande parte do Brasil. O que nos faz indígenas e isso jamais alguém roubará ou tirará de nós é aquilo que portamos em nosso âmago, nossa identidade, aquilo que portamos de nossa ancestralidade e a garra que possuímos na continuidade de nossa história, culturas e tradições.
Por fim, nossa mensagem também é um convite a não indígenas, para que somem conosco em nossas ações nas quais imprimimos perseverança e vigor na continuidade da escrita da existência e da resistência de todos os povos originários hoje presentes no Brasil. São bem-vindos todos aqueles que se aproximam de nós e optam por seguirem conosco nesta caminhada.
Que por todo este país, um maior número de pessoas passem a nos compreender de uma forma mais próxima àquilo que somos até hoje na atualidade, os povos originários destas terras, com nossas singularidades e multiplicidade de culturas e um rico conjunto de contribuições que temos ainda a proporcionar à nação.
(*) Kleber Gomes é indígena terena e professor na rede pública.
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