A conquista da Machorra, a fazenda de Solano Lopez em Bela Vista
Eles queriam nosso gado, não matar nossos soldados. Esta é uma história que mostra quando uma vitória é, em verdade, uma derrota. As tropas brasileiras marchavam pelo mato quando a infantaria paraguaia atacou. Quando as linhas de atiradores brasileiros deram por si, centauros de sabre e cutelo desabaram sobre nossas tropas fazendo o maior estrago. Nossos soldados não podiam atirar, amigos e inimigos lutavam misturados. Quem atirasse em um guarani poderia acertar um brasileiro. Enquanto os nossos vacilavam, os paraguaios não pensavam duas vezes. Abriam fogo sem se importar em matar muitos dos seus.
Para eles, o essencial era atacar.
A bravura enlouquecida de Camisão. Camisão é uma daquelas figuras que constam nos livros de nossa história, mas ninguém lhe dá a devida importância. Ele sempre se portou bravamente. Sempre à frente de nossas tropas, correndo de um lado para o outro, berrando ordens, manejando o fuzil, esgrimindo arma branca, pedaço de pau… o que lhe viesse às mãos. Chegou a pular em um cavaleiro paraguaio, pretendendo pegá-lo à unha. Para além dos limites da prudência. Dava a impressão que queria morrer. Camisão levava as frustrações da fuga vergonhosa das tropas em Corumbá. Mesmo não tendo culpa alguma desse recuo de Corumbá para Cuiabá, correram murmúrios de que ele fora um dos responsáveis. Mentira de soldados. Camisão estava mais para um louco corajoso do que para um sadio mental medroso.
A estranha retirada.
Os soldados iam caindo em grande quantidade. De lado a lado avultavam as baixas. Quando os brasileiros pensaram que seriam derrotados, os guaranis começaram estranhamente a retirar-se. É certo que morriam mais paraguaios do que brasileiros, mas a verdade é que grande parte deles não morria pelas balas brasileiras. Morriam no entrevero, recebendo balas de sua própria artilharia, que não se importava em matar os seus, desde que também matassem os nossos.
Levar nosso gado.
Os brasileiros custaram a atinar com a tática paraguaia. Demoraram a perceber que o ataque tivera o fim principal de subtrair nosso gado. O que podiam ver era que os paraguaios, os primeiros vaqueiros da América do Sul, tangiam o gado, com a sabedoria aprendida na época dos jesuítas, levando-o para o abrigo de suas tropas. Os brasileiros comemoraram a vitória. Tempo depois, perceberiam que foram derrotados sem saber. Na guerra, como na vida, às vezes a gente perde e pensa que ganhou. Esse combate resultou em 184 mortos guaranis. Não sabemos o numero de brasileiros caídos. O local é pouco antes da Machorra, a fazenda em Bela Vista que Solano Lopez reivindicava como se fosse sua. A fome logo tomaria conta de nossas tropas. O resto é óbvio e bem conhecido. Uma marcha de doentes e famintos, expostos ao tiroteio inimigo.
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