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09/08/2017 07:11

Da direita à esquerda, futebol e política caminham juntos

Mário Sérgio Lorenzetto
Da direita à esquerda, futebol e política caminham juntos

Apesar de Karl Marx e Adam Smith nem mencionar em seus livros - nem mesmo quando Marx acusava outros como "ópio do povo" - o futebol e a política sempre andaram de mãos dadas. A primeira tentativa se deu quando quiseram entender que o futebol nasceu da vontade de operários ingleses. É verdade que o jogo com bola tem origem eminentemente popular e muito pouco civilizado. Mas sua origem ocorreu em escolas da elite inglesa e nas fábricas. Nas escolas e universidades da Grã-Bretanha, o futebol foi uma tentativa de lutar contra a formação de "turbas descontroladas" e a invasão de terrenos cercados. Nas fábricas, operários e proprietários se irmanaram na formação de times de futebol.

Da direita à esquerda, futebol e política caminham juntos

Lazio x Livorno: o clássico mais ideológico do mundo

O tradicional Livorno e a grande Lazio, travaram por muito tempo uma rivalidade que excedia os campos de futebol. De um lado, os comunistas do Livorno, e de outro, os fascistas da Lazio. Livorno, na região da Toscana, é conhecida como a cidade símbolo da resistência a Benito Mussolini. O Partido Comunista Italiano foi fundado por Antônio Gramsci, nessa cidade. Históricamente, os moradores de Livorno só votam em candidatos e partidos de esquerda.

Fundado em 1915, por trabalhadores portuários, a torcida do Livorno carrega até hoje bandeiras com a foice e o martelo, faixas com o rosto de Che Guevara e cânticos como "Bandiera Rossa", a famosa canção da esquerda italiana. O clube revelou diversos jogadores para a seleção. Chielline, Benascia e Lucarelli são os mais famosos. Lucarelli é o maior ídolo do Livorno, não só por seus gols como por ser declaradamente comunista. Certa vez ao comemorar um gol pela seleção, mostrou uma camiseta com o rosto de Che Guevara. Nunca mais foi convocado pela Azurra.

No lado da Lazio, os fanáticos "Irreducibili" representam a extrema direita. Simpatizam com Mussolini. Nos jogos exaltam as cruzes celtas e suásticas e cantam: "Duce", "Duce", em homenagem ao "Líder" Mussolini (Duce significa líder). Em 1988, a torcida biancoceleste, em uma atitude lamentável, exibiu uma faixa com a frase: "Auschwitz vossa pátria, os fornos vossas casas". Foi repreendida e multada. Paolo di Canio é seu ídolo maior. Fez um gesto fascista após um gol. Foi suspenso por um jogo e multado em 10 mil euros.

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Atlético de Madrid e Real Madrid

Após instalar-se, o regime ditatorial comandado por Franco, decidiu organizar um time de futebol formado por aviadores do exército, que no período da Guerra Civil espanhola, haviam se destacado em algumas partidas. Surgia o Club Aviácion como propósito de divulgar o ideário franquista através do futebol. Mas, a criação do clube não lhe daria a chance de jogar na primeira divisão e impor, por decreto oficial, a entrada de um novo time, não agradaria a ninguém. A saída, então, foi aproximar-se dos clubes existentes. A primeira escolha dos franquistas foi pelo Real Madrid, que na época se chamava apenas Madrid (o pronome "Real", havia sido suprimido durante o regime republicano). Mas, os dirigentes "blancos" não concordaram com a aproximação, ainda que Franco fosse um declarado "madridista". Todavia, os franquistas não encontraram resistência com os "colchoneros". Em 4 de outubro de 1939, a união entre os clubes foi sacramentada. O time foi chamado "Club Atletico Aviacion". O emblema do Atletico ganhou asas e recebeu todo apoio governamental para reerguer seu estádio que havia sido destruído na guerra. Foi bicampeão espanhol entre 1940 e 1941. Os primeiros títulos do clube segundo o site oficial do Atletico de Madrid. Mas, a partir daí, só acumulou derrotas. Até que os franquistas decidiram, em 1947, separar-se do Atletico.

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Anarquistas e comunistas na América do Sul e seus times de futebol

Os Argentinos Juniors, um dos clubes mais antigos do país, foi fundado em Buenos Aires em 1 de maio de 1904. A data diz a que vieram. Foi uma fusão entre o time "Sol da Vitória" e os "Mártires de Chicago". Quatro anos depois foi a vez do Club Atletico Colegiales, originalmente chamado Club Atletico Libertários Unidos. Eram times formados por anarquistas.

Os jogadores da seleção do Uruguai, medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de 1924, participavam da Federação Vermelha de Futebol, uma liga organizada pelo partido comunista, onde jogavam equipes com nomes como " A Comuna", "Soviet", "Leningrado". Chegaram a organizar os Jogos Olímpicos dos Trabalhadores.
No Perú, desde 1974, joga o Clube Esportivo e Cultural Ho Chi Min, criado por estudantes da Universidade de Ayacucho, como forma de enfrentamento com a ditadura militar.

Muito mais recente, de 2006, é o Clube Social Atletico e Desportivo Che Guevara, de Córdoba, na Argentina, cujo lema é "Até a vitória sempre".

O Vasco da Gama e o Corinthias são lembrados pelos historiadores como os primeiros times brasileiros a negarem as leis, em 1924, que proibiam a inclusão de jogadores negros e mulatos. A imprensa internacional também sempre recorda que nos anos oitenta o Corinthians de Sócrates e Casagrande desafiaram a ditadura militar com faixas e camisetas onde escreviam "Democracia". Há ainda o gesto do treinador César Luis Menotti, depois de ganhar o Mundial de 1978 com a Argentina, negando-se a subir no palanque para saudar os militares do general Videla. Os holandeses, finalistas dessa Copa do Mundo, fizeram o mesmo, em solidariedade.

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A morte ronda os jogadores de futebol durante a Segunda Guerra

Enquanto os jogadores do Schalke 04 foram utilizados como imagem dos esportistas ideais pelo Partido Nazista, o Borussia Dortmund sofreu a morte de vários de seus dirigentes por divulgar propaganda antinazista. Depois de muitos anos de penúria, conseguiram recuperar as propriedades do Borussia Dortmund e devolver o orgulho a seus torcedores. O Bayern de Munique, por sua vez, não cedeu em sua tradição de ter jogadores e empregados judeus. Os franceses montaram uma seleção junto com colaboracionistas do nazismo. Alex Villaplane, um feroz colaborador da Gestapo, era seu comandante. No outro lado da trincheira estava Étienne Mattler. Foi detido e torturado pela Gestapo por ser contra os nazistas. Mas seu futebol encantava. Era jogador do "Red Star" (Estrela Vermelha). Abandonou o clube de Paris para unir-se à resistência e morreu executado com vinte anos.




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