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11/09/2017 06:35

O colégio dos meninos sem infância

Mário Sérgio Lorenzetto
O colégio dos meninos sem infância

De joelhos, sobre o chão que ainda guarda a umidade e o cansaço de um dia duro de trabalho, o mundo é visto de maneira diferente. Como o veem os cegos e os que esqueceram de ensinar a ler. Um menino-engraxate sabe olhar o mundo. Um mundo onde se multiplicam as misérias. Porque ele vive ali. Nos dias tórridos de Campo Grande. Essas manhãs em que os outros meninos de um mundo que não é seu, passam em frente de suas mãos enegrecidas sem nem sequer reparar nelas. Porque aos meninos-engraxates, os meninos que limpam os sapatos, lhes tiraram até o direito da infância.
Os meninos só são meninos porque sonham. Porque imaginam. Porque conquistam estrelas e mundos distantes. Para o menino-engraxate não lhe resta tempo para isso. Ele só lustra, come, lustra e volta para casa. Se tiver sorte, com R$10 no bolso. Se não, nem haverá jantar. Ainda que sua voz mude em cada esquina. Ainda que siga acreditando que um dia será Neymar. Para o mundo, ele é só mais um. Uma dessas crias sem sorte que a vida é uma cruz, um instrumento de tortura. São pobres, párias e analfabetos. Assim, só lhe resta uma saída: trabalhar naquilo que ninguém quer fazer. Limpando os sapatos sujos. Olhando o mundo desde o chão.

O colégio dos meninos sem infância

Meninos sem escola, combustível para o trabalho infantil.

Mais de 5 milhões de crianças entre 5 e 17 anos, trabalham no Brasil, apesar da lei estabelecer 16 anos como a idade mínima para o ingresso no trabalho. Eles trabalham nas lavouras, lojas, fábricas ou casas de família, em regime de exploração, quase de escravidão, já que muitos deles não recebem remuneração alguma. Mas, proporcionalmente, é na Guatemala onde está o maior índice de trabalho infantil de toda a América Latina. Com quase 1 milhão de crianças no mercado de trabalho, eles não têm acesso ao sistema educativo.

O colégio dos meninos sem infância

A escola dos engraxates para meninos que cuidam dos sapatos.

Todos os meninos de uma peculiar escola que só funciona aos sábados olham o mundo ajoelhados. Mas por algumas horas, das sete às doze dos sábados, uma dezena de meninos-engraxates voltam a ser apenas crianças. Meninos que aprendem matemática, espanhol e ciências sociais.
"Zapaterías Cobán", o maior produtor de calçados da Guatemala, lançou há alguns anos um projeto pioneiro para cuidar dos meninos que cuidam de seus sapatos nas ruas. Era devolver um pouco para aqueles que lhes davam tanto. Uma tentativa de romper o círculo vicioso da miséria através da educação. Em colaboração com uma universidade, idealizaram um programa educativo com palestras para que os meninos escutassem enquanto não tinham clientes. No ano passado, deram um passo além: criaram um curso básico de alfabetização. Inicialmente foi um sucesso, deram escovas e pastas para engraxar, os meninos apareciam sem jamais faltar um que fosse. Agora, restam poucos, não mais de duas dezenas de meninos frequentam a escola. Resolveram contratar os melhores professores da Guatemala para incentivar a volta à escola. Os professores já entenderam que os meninos sempre escreverão com linhas tortas, letras mal desenhadas. Porque os meninos-engraxate não tem mais que o solo para fazer suas tarefas, mas ainda assim a fazem.




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