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Ensinar Juntos

Por que o tempo de estudo supera o tempo de aula

Por Carlos Alberto Rezende (*) | 11/08/2026 12:39

Há poucas décadas, o sinal da escola tocava ao meio-dia ou às cinco da tarde, e o dia escolar estava encerrado. O modelo de turno único dominava. A criança ou o adolescente voltava para casa, almoçava em família e tinha diante de si a tarde ou a manhã inteiras. Era o tempo do dever de casa na mesa da cozinha, do futebol na rua, da leitura sem apressamento, do tédio criativo e da convivência familiar. Hoje, essa rotina soa quase pré-histórica. A expansão da escola em tempo integral transformou o cotidiano das famílias e se tornou a grande promessa da educação moderna. No entanto, convém fazer uma pausa reflexiva: essa jornada estendida atende prioritariamente às necessidades de aprendizagem dos alunos ou às demandas organizacionais dos pais?

É inegável que a escola de tempo integral cumpre uma função social crucial no século XXI. Com pai e mãe inseridos no mercado de trabalho em jornadas exaustivas, ter um local seguro para deixar os filhos durante todo o dia tornou-se uma necessidade prática inevitável. Contudo, fundir a função de acolhimento social com a promessa de maior rendimento acadêmico pode ser um equívoco pedagógico. Estar exposto a sete ou oito horas diárias de ambiente escolar não se traduz, automaticamente, em maior absorção de conhecimento.

A ciência do aprendizado e a neuroeducação cansam de apontar um fato fundamental: assistir à aula é um ato passivo; estudar é um ato ativo. É na solidão da mesa de estudos, ao tentar resolver um problema sozinho, sintetizar um texto ou raciocinar sobre um conceito, que as conexões neurais da memória de longo prazo realmente se consolidam. Em uma hora de estudo ativo individual equivale a até 3 horas de aula passiva em retenção de conteúdo.

Após 4 ou 5 horas de aula, a curva de atenção cai drasticamente, gerando cansaço mental. (saturação cognitiva)

Quando a jornada escolar se estende por 8 ou 9 horas, o aluno frequentemente retorna para casa exausto. O tempo para a prática de atividades físicas, o lazer despretensioso com os amigos da rua, o jantar sem pressa com os pais e, crucialmente, o tempo para o estudo individual autônomo acabam esmagados pela rotina institucionalizada. O jovem passa a "viver na escola", em vez de usar a escola como uma das ferramentas para viver a vida.

O tempo de estudo, aquele em que o estudante assume o protagonismo do próprio aprendizado, precisa de espaço, descanso e variedade de estímulos para acontecer. A infância e a adolescência exigem a vivência de todas as fases do dia. A formação de um indivíduo pleno não se dá apenas entre quatro paredes sob supervisão pedagógica, mas também na liberdade do brincar, na disciplina do esporte escolhido por afinidade e nos laços afetivos construídos no seio familiar.

A escola em tempo integral é uma excelente solução de salvaguarda e organização social para o mundo contemporâneo. Porém, não devemos confundi-la com a panaceia da excelência acadêmica. Se quisermos alunos genuinamente mais preparados e cognitivamente desenvolvidos, precisamos valorizar a qualidade e a autonomia do tempo de estudo, e não apenas a quantidade de horas que eles passam sentados diante do computador ou em sala de aula.

(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.