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O Atletismo como Base para a Cidadania e o Desempenho Humano

Por Carlos Alberto Rezende | 11/07/2026 08:38

A discussão sobre o papel da Educação Física no ambiente escolar ganhou contornos complexos nos últimos anos, especialmente com legislações que tornaram a disciplina facultativa ou flexibilizada em determinadas etapas do ensino. No entanto, encarar a prática esportiva e a cultura corporal apenas como um apêndice opcional do currículo é um equívoco estratégico. A Educação Física escolar precisa ser obrigatória, estruturada e valorizada, tendo o atletismo como seu pilar fundamental. É no chão da escola que se formam não apenas os atletas do futuro, mas os cidadãos que sustentarão o tecido social.

O Atletismo como Esporte-Base.

O atletismo é universalmente reconhecido como o "esporte-base", e não por acaso. Seus movimentos primordiais, correr, saltar, arremessar e lançar,  constituem a raiz de praticamente todas as outras modalidades esportivas, é o desenvolvimento motor.

Ao dominar a mecânica de uma corrida de velocidade ou a coordenação de um salto, o estudante desenvolve valências físicas como força, explosão, resistência e agilidade.

Transferência de habilidade: esse repertório motor é diretamente transferível. Um jogador de futebol precisa da aceleração de um velocista; um jogador de basquete depende da impulsão vertical lapidada nos saltos; um goleiro ou jogador de handebol utiliza a coordenação óculo-manual desenvolvida nos lançamentos.

Portanto, sedimentar o atletismo na escola é pavimentar o caminho para o sucesso tanto em esportes individuais quanto coletivos. Sem essa base sólida, o desenvolvimento técnico posterior de qualquer atleta fica severamente limitado.

Fair Play e os grandes palcos: A lição que falta no Gramado.

A relevância da Educação Física obrigatória ultrapassa as barreiras do rendimento físico; ela toca diretamente na formação do caráter. Recentemente, grandes eventos globais, como a copa do mundo, deixaram evidente uma lacuna na preparação emocional e ética de atletas e torcedores. Testemunhamos, com frequência, episódios em que os derrotados não conseguem aceitar o resultado com dignidade, recorrendo a desculpas ou comportamentos antidesportivos. Da mesma forma, vemos vencedores que expressam sua vitória com soberba, carecendo do mínimo de "fair play" (jogo limpo).

O esporte, em sua essência, carrega um princípio pedagógico inegociável: "Vencer com humildade e perder com dignidade.

Na Educação Física obrigatória, o estudante aprende que a derrota não é a aniquilação do ser, mas parte do processo competitivo e um convite à evolução. Aprende também que a vitória não confere superioridade moral sobre o adversário, mas sim a validação de um esforço que deve ser respeitado. Sem a vivência escolarizada e orientada desses valores, criamos competidores imaturos, incapazes de lidar com as frustrações inerentes à vida e ao esporte.

O Peso da Camisa e o Sentido de Nação.

Outro aspecto crucial moldado nas quadras e pistas escolares é a compreensão do que significa representatividade. Quando um jovem atleta evolui a ponto de vestir a camisa de uma seleção nacional, ele precisa entender que aquela peça de roupa não é apenas mais um uniforme ou uma marca de patrocínio. Ela carrega a bandeira, a história e as esperanças de um país inteiro.

Esse sentimento de pertencimento, responsabilidade e respeito às instituições e ao próprio povo é cultivado desde cedo. É na Educação Física escolar que o indivíduo experimenta o peso e a honra de representar seu colégio, sua comunidade e, eventualmente, sua nação. A consciência de que o esporte é um espelho da pátria nasce no compromisso diário das aulas obrigatórias.

Mudar destinos pela obrigatoriedade.

Tornar a Educação Física facultativa significa privar milhares de jovens do acesso democraticamente distribuído à saúde, ao desenvolvimento motor e à formação ética. A obrigatoriedade da disciplina, tendo o atletismo como ponto de partida para a diversificação de outras modalidades, é uma urgência educacional.

O esporte escolar não serve apenas para preencher o tempo livre ou descobrir talentos isolados; ele é uma ferramenta de Estado para consolidar a formação de cidadãos resilientes, éticos e saudáveis. Ao garantir que cada criança e adolescente corra nas pistas, salte os obstáculos e aprenda a jogar coletivamente respeitando as regras, a escola cumpre seu papel mais nobre: o de transformar vidas e mudar, definitivamente, o destino de uma nação.

(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.