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Entre Risco e Decisão

Por que vender tudo pode ser o ato de amor mais difícil do fundador

Por Rodrigo Gonçalves Pimentel (*) | 28/05/2026 08:05

Até aqui, falamos sobre governança, sucessão e estruturas para manter empresas familiares de pé ao longo das gerações.

Mas existe uma pergunta que quase nenhum fundador está preparado para ouvir:

“Pai… a gente admira tudo o que você construiu. Mas não queremos isso pra nossa vida.”

E talvez esteja tudo bem.

Nem todo legado precisa continuar na operação.

Às vezes, o verdadeiro legado está justamente na coragem de encerrar um ciclo da forma certa.

Porque existe uma verdade dura que muitos empresários evitam encarar:

o maior erro nem sempre é vender.

Às vezes, o maior erro é insistir.

Tem fundador que prefere ver a empresa sangrar por dez anos, perder valor, entrar em recuperação judicial e destruir relações familiares…

só para não admitir que os filhos não querem continuar o negócio.

Isso não é legado.

É vaidade.

O herdeiro que não quer operar a empresa — e mesmo assim é mantido preso nela — não fortalece patrimônio.

Vira refém dele.

Existe uma diferença importante entre o provedor e o dono.

O provedor constrói para sustentar.

O dono entende a hora de realizar.

E quando a família não quer tocar o negócio, a decisão madura pode ser justamente vender no tempo certo, pelo preço certo, e transformar uma operação pesada em liberdade patrimonial para a próxima geração.

Mas vender bem não significa simplesmente “passar a empresa adiante”.

Venda inteligente exige preparação.

Os melhores negócios normalmente são estruturados anos antes da venda.

Comprador estratégico não aparece no desespero.

Fundos e grupos pagam mais quando enxergam organização, previsibilidade e governança.

Timing muda valuation.

E existe outro ponto que quase ninguém fala:

o problema não termina quando o dinheiro entra na conta.

Porque patrimônio sem estrutura vira confusão familiar em velocidade recorde.

O empresário passa 30 anos construindo uma empresa…

e destrói o patrimônio da família em 18 meses de desorganização sucessória.

Por isso, antes da divisão, existe a necessidade de organização.

Holding.

Fundos.

Proteção patrimonial.

Estruturas que permitam renda, previsibilidade e liberdade individual para cada herdeiro construir a própria vida — sem transformar patrimônio em descontrole.

Porque herança sem preparo financeiro normalmente não vira prosperidade.

Vira excesso.

E talvez o ponto mais importante de todos seja este:

a família precisa conversar.

Sem romantização.

Sem imposição.

Sem culpa.

“Eu construí isso.

Vocês não querem continuar.

Eu respeito.

Então vamos transformar esse patrimônio em liberdade — e não em obrigação.”

Dói?

Claro que dói.

Mas dói menos do que inventário, briga familiar e empresa falida ao mesmo tempo.

A gente romantiza a ideia da “empresa centenária”.

Mas muitas empresas que sobreviveram por gerações só sobreviveram porque alguém teve coragem de vender, incorporar, fundir ou mudar completamente o rumo.

Dinastia não é sobrenome na fachada.

Dinastia é família unida, patrimônio protegido e capital atravessando gerações.

Se para isso for necessário vender tudo, talvez isso não seja fracasso.

Talvez seja maturidade.

Porque, no fim, a grande decisão nunca é simplesmente vender ou não vender.

A verdadeira decisão é outra:

você quer preservar o ego…

ou preservar a família?

(*) Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado (OAB/SP 421.329 | OAB/DF 68.003 | OAB/MS 16.250), empresário e corretor de imóveis (CRECI/MS 11.939). Sócio do Pimentel & Mochi Advogados e gestor da Todeschini MS e RP Imóveis. Foi Secretário de Governo e Presidente da Fundação de Cultura de Campo Grande.

Siga no Instagram: @rodrigogpimentell