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Entre Risco e Decisão

Meus filhos não querem tocar o negócio. E agora?

Por Rodrigo Gonçalves Pimentel (*) | 14/05/2026 11:00

Ou não sabem tocar. O que fazer quando os herdeiros não têm vocação para o comando?

O maior risco da sua empresa não é o concorrente, não é o banco, não é o governo: É o herdeiro não se interessar por ela.

Todo fundador que construiu um império conhece essa angústia: 40 anos levantando a empresa e os herdeiros seguiram outros caminhos. Um virou médico, outra mora fora e tem aquele que não quer tocar o negócio de jeito nenhum.

Fomos ensinados que legado é passar o bastão, mas ninguém falou o que fazer quando quem recebe o bastão não quer correr a maratona.

Primeiro: tire a culpa da mesa. Legado não é obrigar herdeiros a sentarem na cadeira do provedor. Legado é garantir que a cadeira continue gerando riqueza, mesmo se os filhos forem pilotos de avião, artistas ou quiserem só viver de renda em Portugal.

Ninguém falhou como Pai ou Mãe. Só faltou montar a estrutura pra eles serem beneficiários sem serem funcionários.

O erro que quebra dinastias Achar que sucessão é testamento é um equívoco tremendo. Testamento divide bens. Estrutura divide poder, lucro e trabalho.

E tem um risco ainda maior: O herdeiro que não tem vocação, não sabe tocar, mas acha que sabe. Esse é o mais perigoso. Por orgulho, por teimosia ou por pressão da família, assume o comando e em 5 anos vende mal, briga com sócio ou quebra o que levou 30 anos para ser construído.

Quando a operação afunda e o passivo aperta, muita empresa só vê uma saída: Recuperação judicial e tomar essa decisão não é vergonha. É ferramenta. O problema é chegar lá sem blindagem prévia e sem comando profissional. Aí o juiz decide por você, credor dita regra e valor some.

Se você entrega a chave da empresa pra quem não tem condição, você não deu um presente. Você deu uma sentença. E às vezes é preciso blindar o herdeiro dele mesmo.

Os 3 caminhos pra perpetuar sem depender da vontade ou da aptidão dos herdeiros:

Profissionaliza a Gestão, com ou sem a Família na Operação Holding familiar + Conselho + CEO com metas claras. Aqui entra o ponto central: se existe um sucessor natural dentro da família, ele passa por um processo profissional, com parâmetros, avaliação e prazo pra entregar resultado. Igual a qualquer executivo de mercado. Sucessão não é sobrenome, é competência.

O provedor, pela estrutura de controle societário que já defendemos aqui, sempre será beneficiário. O que muda é se ele ocupa a cadeira de CEO e controla a operação, ou se decide, em vida, passar o bastão pra alguém com mais condição de gerar resultado. Seja um herdeiro preparado, seja um executivo contratado.

Quando o provedor sai da operação, por opção estratégica, por sucessão em vida ou até por morte, a estrutura continua garantindo a ele, e depois aos herdeiros, a condição de beneficiários. Eles recebem lucros, rendas e benefícios conforme as normas estabelecidas na governança.

lindagem é isso: separar a família do CNPJ e proteger o patrimônio do herdeiro que insiste em tocar sem preparo. Ele pode ter assento no conselho, pode ter voto, mas a caneta do dia a dia só fica com quem entrega resultado. É assim que se blinda o herdeiro dele mesmo.

Transforma Ativo em Renda Nem todo império precisa continuar como império. Uma indústria pode virar galpão alugado. Uma rede de lojas pode virar franquia. Uma fazenda pode virar arrendamento de 20 anos com trava de preço.

O patrimônio continua da família. O trabalho vira de outro. Os herdeiros, como beneficiários da estrutura, recebem a renda, não a dor de cabeça.

É melhor ser beneficiário de 10% de algo que rende, do que de 100% de algo que dá prejuízo.

Fundo Familiar para o Patrimônio Líquido - inclusive fora do Brasil Aqui está o erro comum: achar que FIP vai tocar sua fábrica. Não vai. Fundo não opera, fundo aloca. Fundo compra participação e cobra resultado, não contrata funcionário nem compra diesel.

O FIP/Fundo Familiar entra pra parte do império que já virou patrimônio passivo. Imóveis de renda, carteira de investimentos, royalties, recebíveis, fazenda que já virou arrendamento. Isso sim se integraliza num fundo com gestão profissional.

E tem provedor que leva essa camada patrimonial pra fora estruturando-a em jurisdição com menos burocracia e menos exposição a intercorrência de governo e justiça. Não é fuga. É soberania patrimonial: garantir que o que foi construído não fique refém de uma penhora, um bloqueio ou um inventário de 5 anos.

Aí a sucessão vira troca de beneficiários. O provedor morre, os herdeiros assumem o benefício das cotas e continuam recebendo renda. Ninguém precisa saber tocar nada. O gestor do fundo faz isso.

E aqui vem a verdade: se 100% do patrimônio da família estivesse em fundos gerando renda, não existiria drama de sucessão de gestão. Mas essa não é a realidade. A maioria construiu negócio operacional. E negócio operacional é peculiar de cada provedor. Por isso o ponto 1 existe.

Use o fundo pra blindar a parte líquida da família. Use a governança pra blindar a parte operacional. Uma coisa não anula a outra. As duas se completam.

Gancho com o que já falamos aqui De que adianta fazer doação com usufruto se foi entregue um problema? De que adianta passar por RJ e limpar a empresa se ela vai morrer junto com o provedor por falta de comando? Sucessão não é dar a chave do trator, da fábrica ou do escritório. É entregar um sistema que funciona sem o fundador, onde todos são beneficiários da estrutura de controle societário bem montada.

Resumo da ópera: Existem 2 opções. Ser o último da empresa, ou ser o primeiro gestor da dinastia.

A decisão entre Risco e Decisão hoje não é "vendo ou não vendo". É: "Quem vai tocar o negócio quando o provedor não estiver mais aqui? A família, através de uma estrutura, ou a justiça, através de um inventário?"

A primeira se controla. A segunda enterra duas vezes.

Próxima semana: Sucessão Não É Plano B. É Plano A Pra Não Vender.


Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado (OAB/SP 421.329 | OAB/DF 68.003 | OAB/MS 16.250), empresário e corretor de imóveis (CRECI/MS 11.939). Sócio do Pimentel & Mochi Advogados e gestor da Todeschini MS e RP Imóveis. Foi Secretário de Governo e Presidente da Fundação de Cultura de Campo Grande.

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