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Segurança e Cidadania

Vencendo o medo com confiança

Por Coronel Alírio Villasanti | 27/01/2026 14:05



O medo de ser vítima de algum crime tem unido os brasileiros, que passaram a mudar hábitos e adotar medidas para evitá-lo. O sentimento de insegurança é real. Fenômenos como o aumento do poder e da presença das facções criminosas, bem como a interiorização do crime organizado, constituem uma realidade brasileira.

A segurança pública passou a dominar as pesquisas de opinião quando, em 2018, o então candidato Jair Bolsonaro concentrou seu discurso na segurança e nos costumes. Um em cada cinco brasileiros afirma que o tripé violência, criminalidade e tráfico de drogas é sua maior preocupação.

Não há conexão direta entre a incidência de crimes ocorridos na vizinhança imediata e a sensação de insegurança. A percepção da violência é fortemente influenciada por informações oriundas da imprensa, do discurso político e de outras fontes, atingindo principalmente os grupos mais vulneráveis. Mulheres, pessoas pretas e as mais pobres apresentam níveis mais elevados de preocupação, em razão da maior proximidade com áreas menos seguras. Entre os mais ricos, a principal preocupação recai sobre corrupção e ordem pública.

A insegurança impacta significativamente a vida cotidiana, levando as pessoas a deixarem de sair de casa, mudarem seus trajetos, investirem em segurança privada e se preocuparem constantemente com a proteção de familiares e amigos. Como exemplo, 23% da população afirmam que não gostariam de ter como vizinhos pessoas viciadas em drogas, e 15% rejeitam a convivência com ex-presidiários.

Cerca de 56% dos brasileiros concordam com a afirmação “não me sinto seguro ao andar pelas ruas da minha cidade”, um dos maiores índices do mundo. Esse dado não se relaciona diretamente à situação econômica, pois habitantes do Zimbábue e da Jordânia — países mais pobres que o Brasil — relatam sentir-se consideravelmente mais seguros nas ruas.

O sentimento de insegurança cresce conforme o tamanho da cidade: nas capitais, atinge 70%; nas cidades grandes, com mais de 100 mil habitantes, 62%; e nas pequenas, com até 30 mil habitantes, 44%.

Como o brasileiro tende a opinar sobre os temas do cotidiano, também apresenta propostas para reduzir a criminalidade. Em geral, acredita que a solução não está em políticas públicas preventivas, mas na punição severa por meio do sistema de justiça, defendendo medidas como a redução da maioridade penal e a adoção da pena de morte para crimes hediondos. Trata-se de uma visão essencialmente punitivista, que, paradoxalmente, contribui para o aumento da sensação de insegurança.

Conclui-se que o punitivismo é uma característica marcante da sociedade brasileira, decorrente da confiança na polícia e da desconfiança na justiça. Pesquisa da Quaest, de julho de 2024, aponta que 86% dos brasileiros concordam com a ideia de que a polícia prende criminosos, mas a justiça os solta por conta de uma legislação fraca. Já levantamento da Quaest de setembro de 2025 revela que 71% dos brasileiros confiam na Polícia Militar, considerada a segunda instituição mais confiável do país, atrás apenas da Igreja Católica, com 73%.

Com o avanço da sensação de insegurança, os hábitos sociais se transformam: diminui a sociabilização, intensifica-se a segregação dos espaços públicos por meio de condomínios fechados e aumenta a desconfiança entre as pessoas. Essa baixíssima confiança interpessoal impacta negativamente a economia, pois a confiança é um fator essencial para o desenvolvimento. Ela passa a se restringir apenas aos círculos mais próximos. Estudos indicam que maior confiança interpessoal está associada a maior capacidade institucional, crescimento econômico, menor desigualdade e fortalecimento da coesão social. Mato Grosso do Sul e Mato Grosso se destacam negativamente no cenário nacional por apresentarem as menores taxas de confiança entre as pessoas.

É notório que a urbanização acelerada no Brasil, a partir da década de 1950, influenciou esse fenômeno. A redução da convivência comunitária, a concentração populacional nas grandes metrópoles e a verticalização das moradias contribuíram para o enfraquecimento dos vínculos sociais. Atualmente, muitas pessoas sequer conhecem seus vizinhos, em razão de rotinas intensas, horários de trabalho distintos e do medo de permanecer nos espaços públicos.

A baixa confiança em políticas preventivas e na justiça reforça a crença de que a punição é a melhor forma de dissuadir criminosos e gerar uma sensação de justiça imediata. Em tese, o Brasil encontra-se preso a um círculo vicioso: o medo gera desconfiança, que alimenta o punitivismo, o qual promete uma ordem que raramente se concretiza. Esse processo reorganiza a vida cotidiana, penaliza de maneira desproporcional mulheres, pessoas pretas e as mais pobres, encarece a convivência social e corrói o espaço público.

A população clama por um Estado que funcione: uma polícia profissional e uma justiça que puna com certeza e eficiência. O caminho passa pela cooperação e pelo fortalecimento dos laços sociais, com pessoas que confiem umas nas outras e nas instituições. Com isso, reduz-se o custo de viver, trabalhar e empreender, beneficiando toda a sociedade.

O grande desafio do brasileiro é transformar segurança em confiança — e confiança em futuro. (Texto elaborado com base na obra Brasil no Espelho, de Felipe Nunes - 2025).

 

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