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Campo Grande, Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018


24/04/2018 09:53

Em Campo Grande, russas garantem que povo russo quer festa, não guerra

Masha e Svetlana revelam as muitas diferenças entre russos e brasileiros, mas apontam algo em comum: “Ambos são abertos e amigáveis”

Paulo Nonato de Souza
Masha Manich, empunhando a bandeira russa, ao lado da irmã Svetlana Franchuk, quer continuar vivendo em Campo Grande (Foto: Paulo Nonato de Souza)Masha Manich, empunhando a bandeira russa, ao lado da irmã Svetlana Franchuk, quer continuar vivendo em Campo Grande (Foto: Paulo Nonato de Souza)

Os russos estão entre nós, ou melhor, as russas. A revelação não é parte de nenhum relatório secreto, afinal, Masha, diminutivo de Maria para os russos, e sua irmã Svetlana Franchuk, estão em Campo Grande há algum tempo e até já se comunicam em português, apesar da abissal diferença entre os alfabetos latino e cirílico. Elas são naturais da cidade de Khabarovsk, no extremo oriente da Rússia, distante 8.292 km de Moscou, e a 30 km da fronteira com a China.

No clima da Copa do Mundo da Fifa 2018, que será disputada pela primeira vez na Rússia, a partir do dia 14 de junho, Masha Manich e Svetlana, mesmo admitindo não entender de futebol, estão antenadas com tudo que cerca a realização da mais importante competição esportiva do planeta em solo russo, apesar da distância geográfica de mais de 14 mil km que separam seu país de Mato Grosso do Sul.

“A Copa é um grande evento, uma oportunidade de trocas de experiências e de culturas entre vários países. Não falo que a Copa vai fortalecer de alguma forma o futebol na Rússia, mas será importante para o nosso país. Sabemos que o time da Rússia não tem chance de ser campeão, como tem o Brasil, porque o Brasil sim é forte em futebol, nós não. Nosso esporte mais popular é o hóquei, depois vem o esqui cross-country, snowboard e patinação artística (modalidades de inverno). Não pensamos em ganhar a Copa, mas queremos fazer uma Copa que seja um orgulho para o povo russo”, acredita Masha, uma veterinária formada pela Universidade de Khabarovsk, que vive em Campo Grande desde 2008.

Sobre recomendações de cuidados que os sul-mato-grossenses e demais brasileiros que irão ao país da Copa deverão tomar, Masha avalia que na questão da segurança não haverá problemas porque o governo russo vai disponibilizar um esquema muito forte para proteger todos que forem passear e assistir aos jogos.

“Acho que é preciso ter cuidados com coisas básicas que devem ser igual em qualquer lugar, como não andar sozinho em lugares que não conhece, por exemplo, mas acho que vai ser bem tranquilo. O povo russo sabe muito sobre o Brasil por causa das novelas que passam na Rússia, desde Escrava Isaura (uma produção da TV Globo de 1976, exibida na Rússia em 1988), então a gente sabe da vida brasileira, e o que acontece no Brasil. Somos bem receptivos, alegres, gostamos de festa e de fazer novas amizades”, destacou.

Khabarovsk, cidade natal de Masha e Svetlana, tendo ao fundo o rio Amur, na fronteira entre a Rússia, República Popular da China e Mongólia (Foto: Divulgação)Khabarovsk, cidade natal de Masha e Svetlana, tendo ao fundo o rio Amur, na fronteira entre a Rússia, República Popular da China e Mongólia (Foto: Divulgação)

A vinda para Campo Grande - Segundo Masha, foi uma mudança por amor. “Eu tinha o hobby (atividade exclusivamente de lazer e passatempo) de estudar a língua japonesa, então fui aprender japonês em Nagoya, no Japão (distante 1.489 km e a 1h30 de viagem de avião de Khabarovsk), e lá foi onde conheci o meu ex-marido em 2005. Ele é do interior de São Paulo, mas toda a família dele vive em Campo Grande", revelou.

Em 2008, ela decidiu vir com o então namorado para conhecer o Brasil, a intenção era ficar três meses e já vai completar 10 anos em Mato Grosso do Sul. "Então, posso dizer que foi o amor que fez eu trocar a minha cidade na Rússia por Campo Grande. Não consegui aprender japonês, mas aprendi português”.

Brasileiro fala dengoso - Uma década depois, Masha está casada com o músico aquidauanense criado em Corumbá, Leonardo Bugalu, com quem faz planos de viajar a passeio pela Rússia em 2019. Falando um português quase perfeito, apesar do sotaque, Masha disse que a maior dificuldade que enfrentou para sua adaptação em Campo Grande não foi o idioma nem o calor, mas explicar o seu nome para as pessoas.

“Gosto do clima de Mato Grosso do Sul e aprender português não foi difícil. O brasileiro fala de um jeitinho dengoso, o russo é uma língua rude, cheia de consoantes, e eu sabia que era mais fácil eu aprender português do que um brasileiro aprender russo, então eu estudava 5 horas por dia, pregava papéis com palavras por todos os cantos da casa, se tinha dúvida eu corria lá para ver, assistia muito tevê, escutava músicas, e assim logo comecei a falar e a entender”.

Dificuldade ela teve quando se apresentava como Masha. As pessoas não entendiam, perdia-se muito tempo com explicações, passou a usar Mary até perceber que Maria, da mesma forma que na Rússia, é um nome bastante popular no Brasil, e adotou o seu verdadeiro nome, exatamente o nome que aparece em seus documentos: Maria Manich.

“Masha não é nome, apenas é como uma pessoa de nome Maria é chamada na Rússia, da mesma forma como os brasileiros chamam José de Zé, Samuel de Samuca, Antônio de Tonho, é isso”, explicou.

Masha abaixo de zero em Khabarovsk, sua cidade natal na Rússia (Foto: Arquivo pessoal)Masha abaixo de zero em Khabarovsk, sua cidade natal na Rússia (Foto: Arquivo pessoal)
Com o atual marido, o músico aquidauanense criado em Corumbá, Leonardo Bugalu (Foto: Arquivo pessoal)Com o atual marido, o músico aquidauanense criado em Corumbá, Leonardo Bugalu (Foto: Arquivo pessoal)

Em 2016, a família em Campo Grande ganhou o reforço da irmã mais nova, Svetlana Franchuk, formada em tecnologia de alimentos, uma área multidisciplinar que envolve conhecimentos de química, bioquímica, nutrição, farmácia e que trabalha o conjunto de técnicas relativas ao processo de industrialização dos produtos de origem vegetal e animal.

É a segunda vez de Svetlana no Brasil. Antes, tinha vindo em 2012 para visitar Masha, retornou para a Rússia, e há 11 meses desembarcou em Campo Grande acompanhada do filho de 8 anos. Ela já arrisca algumas palavras em português, mas para se comunicar ainda precisa da ajuda da irmã.

“Gostei de Campo Grande. É difícil achar semelhanças entre Campo Grande a minha cidade na Rússia, a cultura é diferente, a arquitetura, a comida, a vegetação, o ritmo da vida, é tudo diferente, mas tem uma coisa que une as cidades: a receptividade. Lá na Rússia somos muito sociáveis e receptivos como aqui”, afirmou.

Maria Manich considera Campo Grande uma cidade tranquila, onde viveria para sempre, e garante que não pretende voltar a viver na Rússia, apenas a passeio.

“Depois de 10 anos vivendo aqui, acredito ser um período bastante grande para uma nova mudança de vida, começar tudo de novo, do zero, isso não entra nos meus planos”, afirmou. Já Svetlana ainda não tem certeza sobre isso. “No momento estou pensando, ainda não tomei uma decisão se quero ficar ou se volto para a Rússia”, disse ela.

As duas irmãs, mais o filho de Svetlana, engrossam a lista dos russos que começaram a vir para o Brasil desde a revolução comunista de 1917. Calcula-se que já são 1,8 milhão de descendentes de imigrantes e refugiados russos que vivem hoje no país, e os estados que concentram o maior número de filhos, netos e bisnetos de russos são Rio Grande do Sul, São Paulo, Goiás e Paraná, seguidos de Rio de Janeiro, Santa Catarina e Pernambuco.

Ameaça de guerra - Durante a entrevista ao Campo Grande News elas revelaram uma certa tensão diante da ameaça de guerra entre Rússia e Estados Unidos, depois que a Síria, vizinha e aliada geopolítica do país sede da Copa do Mundo de 2018, foi bombardeada no dia 13 deste mês por mísseis americanos, franceses e britânicos.

“A Rússia não quer guerra com ninguém. Historicamente somos um povo guerreiro, passamos por muitas guerras, só que hoje o povo russo em si quer paz. Somos um povo muito patriota, não queremos a guerra, mas se tiver que ter guerra a gente vai lutar, e se for com os Estados Unidos aí será o fim do mundo”, enfatizou Masha Manich.

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