Elétricos mudam a régua de preços e pressionam mercado de seminovos em MS
Valores similares entre carros a combustão usados e modelos elétricos estão entre os fatores observados
O avanço dos veículos elétricos em Mato Grosso do Sul já começa a mudar a dinâmica do mercado de automóveis seminovos. Com modelos em faixas de preço próximas às de veículos a combustão usados, os consumidores passaram a repensar a escolha.
RESUMO
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Veículos elétricos zero-quilômetro passaram a concorrer diretamente com seminovos a combustão em Mato Grosso do Sul, impactando o mercado de usados. Com emplacamentos de elétricos crescendo 144,4% entre 2025 e 2026, modelos como BYD Dolphin Mini e Geely EX2 disputam a faixa de R$ 120 mil a R$ 200 mil com usados tradicionais, levando lojistas a adotar cautela nas avaliações e consumidores a vender carros a combustão para migrar aos elétricos.
Dados do Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul) mostram o ritmo acelerado dessa transformação. Entre janeiro e agosto de 2025 e o mesmo período de 2026, os emplacamentos de veículos elétricos no Estado saltaram de 408 para 997 unidades, crescimento de 144,4%.
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No mercado geral de veículos novos, considerando todas as categorias, os registros passaram de 42.677 para 44.139 no mesmo intervalo, alta de 3,4%. Na contramão, os veículos movidos a gasolina, etanol, diesel, GNV (Gás Natural Veicular) ou equipados com motor flex recuaram de 37.250 para 36.955 unidades, uma redução de 0,8%.
Para o especialista em carros Paulo Cruz, a proximidade entre os preços está fazendo o consumidor rever a decisão de comprar um seminovo a combustão, especialmente quando há a possibilidade de levar para casa um veículo eletrificado novo.
“Em vez de a pessoa comprar um seminovo de R$ 150 mil, 180 mil, ela passa para um chinês eletrificado zero. O mercado mudou drasticamente, virou de cabeça para baixo. Quando a pessoa começa a fazer a conta do que ela gasta com um elétrico ou um híbrido, ela começa a repensar que carro ela vai ter na garagem”, destacou.
Cruz pondera que o efeito direto sobre os seminovos continua em uma fase inicial. Segundo ele, a oferta de eletrificados usados ainda é pequena porque esses veículos chegaram recentemente ao mercado brasileiro e muitos proprietários ainda não têm interesse em revendê-los.
”Os carros elétricos ainda não chegaram com força no mercado de seminovos. Os eletrificados estão chegando agora no mercado de seminovos, ele tem pouco tempo de vida no Brasil. Quem compra esse carro, praticamente não quer vender. Os carros mais populares eletrificados ainda não impactaram o mercado de seminovos”, completou.
Na avaliação do especialista, portanto, a principal pressão está nos modelos que passaram a ocupar uma faixa de preço tradicionalmente disputada pelos usados.
”O que está impactando o mercado de seminovos hoje não são os eletrificados usados, são os eletrificados novos, elétricos ou híbridos, que estão custando o mesmo que o seminovo, que é um carro usado.”
Nas garagens de seminovos, essa mudança já é percebida como um movimento de reposicionamento. O gerente da Revolução Automóveis, Jean Ribeiro, afirmou que a procura pelos veículos eletrificados existe, mas que o impacto sobre os carros usados ainda deve aparecer de maneira mais forte no próximo ano.
“Até o momento não chegou para a gente, inclusive tem procura nesse carro. O que eu vejo é um reposicionamento de mercado. Os carros que tinha um preço um pouquinho maior estão sendo substituído pelos elétricos, isso vai influenciar nos seminovos daqui um ano”, disse.
Segundo Ribeiro, outro movimento que começa a aparecer é o de proprietários de veículos a combustão que tentam vender seus carros para fazer a migração para um elétrico.
“O que vemos é gente vender seu carro a combustão para conseguir comprar carro elétrico. Quando entrega esse carro na concessionária, o cliente não tem gostado da avaliação, e tentam vender em alguma garagem ou de forma particular. O mercado já está se acomodando”, pontuou.
Na Federal Car, a proprietária Bruna Soares também identifica uma mudança no comportamento de quem procura as lojas de seminovos. Segundo ela, os eletrificados já passaram a fazer parte das decisões de compra e venda.
“Essa categoria já chegou aos seminovos e a gente percebe claramente um reposicionamento do mercado. Hoje já recebemos clientes vendendo seus carros a combustão para migrar para um elétrico ou eletrificado. Muitas vezes eles procuram a loja de seminovos porque as concessionárias estão avaliando o carro usado por um valor muito baixo na troca e eles tentam conseguir uma avaliação melhor fora”, explicou.
Ao mesmo tempo em que aumenta a procura por eletrificados, as garagens precisam lidar com um novo risco: comprar um seminovo a combustão por um valor elevado e ter dificuldade para revendê-lo depois. A cautela, afirmou Bruna, passou a ser necessária principalmente nos veículos de maior valor.
“Nós também precisamos ter cautela na avaliação, porque depois esse carro precisa ser vendido. Com essa mudança no comportamento do consumidor, principalmente nos carros de maior valor, existe o risco de ficarmos com esse veículo parado no estoque.”
Segundo ela, a partir de aproximadamente R$ 130 mil, o consumidor já encontra alternativas eletrificadas novas, o que amplia a disputa com os seminovos tradicionais.
“Nós mesmos já temos eletrificados e veículos zero-quilômetro disponíveis para venda. Então, mudou a régua de comparação. Quem vai investir R$ 130 mil ou mais já começa a colocar na conta: compro um seminovo a combustão ou parto para um eletrificado, muitas vezes zero-quilômetro? Isso está impactando diretamente a procura e, consequentemente, o valor que o mercado consegue pagar em determinados carros a combustão”, ressaltou.
Preços – De acordo com Paulo Cruz, a mudança também aparece na comparação de preços. Um Jeep Commander Overland 2024, que custava cerca de R$ 290 mil quando novo, hoje pode ser encontrado na faixa de R$ 180 mil. Já o Corolla Cross XRX Hybrid 2024, lançado por aproximadamente R$ 208 mil, aparece no mercado por cerca de R$ 165 mil.
Na mesma faixa de valores, o consumidor já encontra modelos eletrificados novos. O Haval H6 HEV One, híbrido, custa R$ 199.900. O Leapmotor C10, elétrico ou híbrido com extensor de autonomia, aparece em ofertas próximas de R$ 200 mil. Já o Geely EX5, totalmente elétrico, é oferecido por R$ 195.800.
O cenário se repete em uma faixa de preço mais baixa. Um Volkswagen T-Cross Highline 2024, que custava cerca de R$ 170 mil quando novo, hoje vale aproximadamente R$ 131 mil. O Chevrolet Tracker Premier 2024, vendido por cerca de R$ 162 mil quando zero-quilômetro, tem valor atual próximo de R$ 115 mil. O Volkswagen Nivus Highline 2024, que custava aproximadamente R$ 152 mil, hoje vale perto de R$ 115 mil.
É justamente nessa faixa que os elétricos zero-quilômetro começam a disputar espaço diretamente com os seminovos a combustão. O BYD Dolphin Mini custa R$ 119.990; o Geely EX2 Pro sai por R$ 123.800; o EX2 Max custa R$ 136.800; e o BYD Dolphin GS, maior e mais potente, fica na faixa de R$ 150 mil.
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