Eleições 2026: para os grandes, incentivos; para os pobres, a fila
Empresas negociam benefícios, enquanto mães sem creche perdem oportunidades

Mato Grosso do Sul acertou ao buscar investimentos e ampliar sua base industrial. As fábricas de celulose movimentam bilhões de reais, geram empregos, aumentam as exportações e colocam o Estado no mapa dos grandes projetos econômicos. O problema começa quando os incentivos concedidos às empresas não são acompanhados de contrapartidas sociais claras, fiscalização rigorosa e transparência.
RESUMO
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Mato Grosso do Sul avança com investimentos industriais, como fábricas de celulose, mas enfrenta o desafio de garantir que os incentivos fiscais concedidos às empresas gerem contrapartidas sociais reais. Enquanto grandes grupos negociam benefícios com facilidade, famílias pobres enfrentam filas e falta de serviços básicos. O desenvolvimento só será pleno quando a riqueza gerada alcançar toda a população.
É preciso fazer uma distinção importante: incentivo fiscal nem sempre significa isenção completa de impostos. Pode envolver redução de alíquotas, créditos presumidos, adiamento de pagamentos e outros benefícios. Seja qual for o formato, porém, há um custo público. Quando o Estado abre mão de arrecadação para atrair uma empresa, precisa demonstrar quanto concedeu e o que a sociedade recebeu em troca.
Não basta inaugurar fábricas, celebrar bilhões em investimentos e divulgar números grandiosos. Desenvolvimento não pode ficar restrito aos relatórios empresariais, às exportações e às fotografias oficiais. Precisa chegar à mesa das famílias, às escolas, aos bairros, às creches e ao mercado de trabalho.
Enquanto grandes grupos econômicos encontram portas abertas, reuniões com autoridades, equipes jurídicas e capacidade de negociar benefícios, as famílias mais pobres enfrentam filas, formulários, falta de informação e serviços insuficientes. Para um lado, existe o balcão da negociação. Para o outro, o balcão da espera.
A diferença de poder é evidente. Uma grande empresa consegue apresentar estudos, contratar consultorias, pressionar governos e defender seus interesses diante de secretários, governadores e parlamentares. Já a mãe solo que não tem onde deixar o filho dificilmente consegue ser ouvida. Sem creche, ela não trabalha. Sem trabalho, não tem renda. Sem renda, depende de assistência. E, muitas vezes, sem apoio para estudar, permanece presa ao mesmo ciclo de pobreza.
Não se trata de colocar empresas contra trabalhadores ou de rejeitar investimentos privados. Mato Grosso do Sul precisa de indústrias, empregos e atividade econômica. Mas também precisa perguntar quem está pagando pelos incentivos e quem realmente está ficando com os benefícios.
Se o poder público concede vantagens em nome do desenvolvimento, deve exigir resultados concretos: contratação de trabalhadores locais, qualificação profissional, fortalecimento de pequenos fornecedores, investimento em infraestrutura urbana e apoio aos municípios que recebem grandes empreendimentos. Também deve estabelecer metas, prazos, avaliações periódicas e mecanismos para rever benefícios quando as contrapartidas não forem cumpridas.
Não é razoável que uma indústria receba tratamento especial durante anos enquanto famílias esperam meses por uma vaga em creche. Não é justo que bilhões sejam negociados com rapidez nos gabinetes enquanto uma mulher abandona os estudos porque não tem com quem deixar os filhos. A política econômica não pode funcionar com eficiência para quem tem poder e com burocracia para quem precisa sobreviver.
Os grandes empresários têm associações, advogados, influência e acesso aos centros de decisão. Os pequenos comerciantes, trabalhadores informais, desempregados e famílias humildes quase sempre enfrentam o poder público sozinhos. Sem padrinhos políticos e sem capacidade de pressão, tornam-se invisíveis justamente para o Estado que deveria protegê-los.
Incentivos fiscais podem ser instrumentos legítimos de crescimento. O que não podem é transformar-se em privilégios permanentes, protegidos pelo sigilo e livres de cobrança. A sociedade tem o direito de saber quanto foi concedido, por quanto tempo, quais obrigações foram assumidas e quais resultados foram efetivamente entregues.
Desenvolvimento de verdade não é apenas produzir mais celulose, aumentar exportações ou atrair novos bilhões. É permitir que uma mãe tenha onde deixar o filho, consiga estudar, encontre emprego e construa uma vida independente. É oferecer aos mais pobres alguma proteção diante de um sistema no qual os mais poderosos sempre chegam primeiro.
O dinheiro público não nasce nos cofres do governo. Sai do esforço de toda a sociedade. Se parte dele é utilizada para beneficiar grandes empresas, a riqueza gerada precisa retornar à população. Caso contrário, Mato Grosso do Sul poderá crescer muito nos números e continuar pequeno na distribuição das oportunidades.

