ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
OUTUBRO, SEXTA  23    CAMPO GRANDE 24º

Economia

Fim do 6x1 pode gerar custo de R$ 2 bilhões e provocar demissões, alerta Longen

Presidente da Fiems diz que empresas terão dificuldades para adaptar operações e prevê aumento de preços

Por Gabriel Neris | 23/10/2026 16:30
Fim do 6x1 pode gerar custo de R$ 2 bilhões e provocar demissões, alerta Longen
Presidente da Fiems, Sérgio Longen, faz alerta para risco de demissões (Foto: Luiz Donizete)

O fim da escala de trabalho 6x1 poderá representar custo adicional de R$ 2 bilhões para a economia de Mato Grosso do Sul em 2027, com reflexos nos preços de produtos e serviços, redução da atividade econômica e risco de demissões. O alerta é do presidente da Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul), Sérgio Longen, de 64 anos, que comanda a entidade desde 2007.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O presidente da Fiems, Sérgio Longen, estima que o fim da escala 6x1 poderá gerar custo adicional de R$ 2 bilhões à economia de Mato Grosso do Sul em 2027, com repasse aos preços e risco de demissões, sobretudo em pequenas empresas. A Emenda Constitucional 141/2026 reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, em etapas. Ele cita a falta de 5% a 15% de mão de obra na indústria e prevê fechar duas das seis linhas de produção de sua empresa. Apesar disso, projeta cenário positivo, impulsionado por investimentos em celulose e agroindústria.

Em entrevista ao Campo Grande News, Longen afirmou que a mudança na jornada, embora represente uma conquista para os trabalhadores em relação ao tempo de descanso, exigirá uma reorganização das empresas, especialmente daquelas que funcionam de forma ininterrupta.

Segundo ele, o impacto não estará necessariamente na redução das horas trabalhadas, mas na necessidade de reorganizar turnos, contratar funcionários e manter as linhas de produção funcionando. “Não é o salário, é o operacional. A média de trabalho da indústria já era entre 38 e 39 horas. Então, esse não é o problema. Mas quando você ajusta toda a operação, ela acaba que cria um vácuo de necessidade de contratação”, explicou.

A mudança foi oficializada pelo Congresso Nacional em 16 de outubro, com a promulgação da Emenda Constitucional nº 141/2026. A nova regra estabelece dois dias de descanso por semana, sem redução salarial, e diminui gradualmente a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais.

A primeira etapa entra em vigor em dezembro deste ano, quando o limite será reduzido para 42 horas semanais. A jornada de 40 horas será implementada ao final do período de transição de 14 meses.

Uma das maiores preocupações apresentadas pelo presidente da Fiems é o impacto financeiro da mudança sobre a cadeia produtiva. Conforme estimativa citada por Longen, o custo adicional da mão de obra em Mato Grosso do Sul poderá alcançar R$ 2 bilhões em 2027.

Para ele, parte desse valor será repassada aos consumidores, pressionando os preços de alimentos, combustíveis e serviços. “Não tem como você não transferir esse custo para a sociedade. Tem lá uma padaria que tem que se ajustar. Tem lá uma empresa que tem um custo de adaptação”, afirmou.

Longen destacou que os impactos não ficarão restritos às indústrias. Supermercados, restaurantes, postos de combustíveis e outros estabelecimentos também poderão rever horários de funcionamento e escalas de funcionários. “Não vai ser só na carne, não vai ser só no combustível, não vai ser só no leite, não vai ser só no feijão, no arroz e assim por diante. Mas o custo de R$ 2 bilhões será transferido, de uma maneira ou de outra”, declarou.

Fim do 6x1 pode gerar custo de R$ 2 bilhões e provocar demissões, alerta Longen
Trabalhadores atuam em linha de produção de uma indústria alimentícia; setor depende de escalas e turnos para manter as operações (Foto: Divulgação)

Indústrias podem demitir e reduzir produção - O presidente da Fiems também demonstrou preocupação com a possibilidade de demissões, principalmente nas pequenas empresas, que possuem menor capacidade financeira para contratar novos trabalhadores ou reorganizar suas operações.

Segundo Longen, Mato Grosso do Sul já enfrenta dificuldades para preencher vagas disponíveis na indústria. Ele estima que o déficit de mão de obra varie entre 5% e 15% do quadro de funcionários necessário nos estabelecimentos industriais.

“Nós temos um apagão de mão de obra que vai de 5% a 15% hoje de todos os estabelecimentos industriais, pelo menos. Qualquer empresa que tenha 100 funcionários, ela, no mínimo, precisa contratar cinco e, no máximo, 15”, afirmou.

Na avaliação do empresário, a exigência de novos turnos poderá agravar a situação. “Na grande maioria hoje, principalmente o pequeno, ele vai ter que demitir. Porque ele não tem suporte para contratar mais”, declarou.

Longen usou a própria empresa como exemplo de possíveis mudanças. Segundo ele, a operação industrial possui atualmente seis linhas de produção e cerca de 800 trabalhadores, mas poderá ser reduzida para quatro linhas.

“Eu tenho seis linhas de produção. O desenho que nós estamos fazendo já é fechar duas linhas de produção. Eu tenho 800 funcionários aqui, talvez eu vou ficar entre, por volta de 700, 680 funcionários”, disse.

Caso a projeção se concretize, a redução representaria entre 100 e 120 postos de trabalho na empresa. O dirigente acrescentou que, apesar de possuir mais de 100 vagas abertas, poderá optar por diminuir a produção em vez de ampliar as contratações. “Tenho hoje mais de 100 vagas abertas. Ao invés de eu contratar, eu vou reduzir”. Ressaltou ainda que cada empresa terá de avaliar sua própria capacidade de adaptação à legislação.

Longen afirmou que outros setores econômicos poderão ser afetados pela reorganização das jornadas. Na avaliação dele, estabelecimentos que funcionam 24 horas poderão reduzir o atendimento, enquanto restaurantes e pequenos negócios poderão ampliar os dias de fechamento para controlar despesas.

“Por exemplo, um restaurante, ao invés dele fechar segunda, ele vai fechar segunda e terça. Um supermercado, grande, médio, pequeno, na mesa está a condição de fechar”, exemplificou.

O presidente da Fiems também considera possível que supermercados e postos de combustíveis deixem de funcionar durante a madrugada, o que poderia provocar a redução de postos de trabalho.

Diante das mudanças, Longen afirmou que a Federação das Indústrias já trabalha na elaboração de orientações para auxiliar empresas de diferentes portes a reorganizarem escalas e processos produtivos. O planejamento considera tanto a primeira etapa de redução da jornada, para 42 horas semanais, quanto a futura implementação do limite de 40 horas.

“Nós estamos trabalhando forte, entregando para eles já um formato de trabalho para 42 horas, mas já botando na mesa também a condição das 40 horas”, explicou.

Segundo ele, não haverá uma solução única para o setor produtivo, já que cada atividade possui necessidades operacionais diferentes. “A decisão é de cada empresário, de cada setor. Então, cada um vai se ajustar ao seu modo de gestão”, afirmou.

A federação também pretende orientar o setor industrial sobre os efeitos das novas regras nas operações que dependem de turnos contínuos, incluindo atividades realizadas durante a noite, aos fins de semana e em feriados.

Fim do 6x1 pode gerar custo de R$ 2 bilhões e provocar demissões, alerta Longen
Apesar da polêmica do fim da escala 6x1, Sérgio Longen traça cenário positivo para 2027 em MS (Foto: Luiz Donizete)

Longen vê cenário positivo para a indústria em 2027  - Apesar das preocupações com o aumento dos custos trabalhistas e os possíveis impactos do fim da escala 6x1, o presidente da Fiems mantém uma avaliação positiva sobre o desenvolvimento industrial do Estado em 2027. Segundo ele, a consolidação de grandes empreendimentos e a chegada de novos investimentos devem continuar impulsionando a atividade econômica, principalmente nos setores de celulose e agroindústria.

O dirigente destacou que Mato Grosso do Sul construiu, ao longo dos últimos anos, um ambiente favorável à instalação de empresas, resultado de uma política de desenvolvimento industrial que atravessou diferentes administrações estaduais.

“A indústria se consolidou no Estado. Então, a gente vem evoluindo na indústria do agro, cada vez mais, dando suporte para essas empresas evoluírem numa condição de competitividade”, afirmou.

Longen ressaltou que a instalação de grandes fábricas também movimenta uma cadeia de fornecedores, prestadores de serviços e pequenos negócios. Conforme estimativa apresentada pelo presidente da Fiems, cada grande empreendimento pode atrair cerca de 200 empresas para atender às demandas de sua operação.

“Em cada grande projeto instalado, hoje nós temos cerca de 200 empresas que se instalaram ao redor para atender a demanda daquela grande empresa”, declarou.

Na avaliação dele, esse movimento amplia a circulação de recursos nos municípios, fortalece a economia regional e cria oportunidades de trabalho que vão além das contratações realizadas diretamente pelas grandes indústrias.

Entre os segmentos com perspectivas de expansão, Longen destacou a indústria de celulose, que vem transformando a economia de municípios como Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo e Inocência.

O presidente da Fiems citou projetos de expansão de plantas industriais e a possibilidade de instalação de novos empreendimentos em Mato Grosso do Sul. Entre os investimentos mencionados está o da multinacional Bracell, cuja negociação contou com a participação de representantes do governo estadual e da federação.

Segundo Longen, as tratativas incluíram uma reunião em Singapura, na qual foram discutidas as condições necessárias para a instalação de duas unidades industriais no Estado.

“Eu estive lá, a Assembleia Legislativa esteve presente. Então, sentamos com o dono da Bracell. [...] O dono falou: vou colocar duas fábricas no Mato Grosso do Sul de produção de celulose, papel e assim por diante”, relatou.

O empresário afirmou que, durante as negociações, foram apresentadas contrapartidas relacionadas à qualificação profissional, educação e condições para o desenvolvimento dos empreendimentos.

Longen também mencionou projetos em Bataguassu e iniciativas de ampliação de plantas industriais já existentes. Segundo ele, a atração desses investimentos exige negociações permanentes com empresários nacionais e estrangeiros. “Você tem que ir atrás, você tem que convencer, você tem que mostrar. E o Estado criou um ambiente de negócios muito favorável”, afirmou.

A disponibilidade de mão de obra foi apontada como um dos principais obstáculos para o crescimento da indústria sul-mato-grossense no próximo ano.

Segundo Longen, o desafio não está apenas em atrair novos empreendimentos, mas também em garantir profissionais suficientes para atender à demanda das empresas que já estão instaladas no Estado.

O dirigente afirmou que a Fiems, por meio do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e do Sesi (Serviço Social da Indústria), tem ampliado investimentos em formação profissional, modernização de laboratórios e estrutura educacional.

Um dos exemplos citados foi a implantação de uma unidade educacional vinculada ao Sesi e ao Senai para atender à região da fábrica da Suzano, em Ribas do Rio Pardo. “Estamos modernizando cada vez mais o sistema em laboratórios, em pesquisa e inovação”, destacou.

Ele explicou que a qualificação de trabalhadores faz parte dos compromissos assumidos com grandes empresas que chegam a Mato Grosso do Sul, permitindo preparar profissionais conforme as necessidades de cada atividade industrial.

Entretanto, segundo Longen, a federação enfrenta dificuldades até mesmo para preencher vagas em cursos gratuitos de capacitação.

“O que nós temos dificuldade hoje é de atingir, por exemplo, as vagas de gratuidade. Porque, quando eu busco fazer cursos gratuitos, eu preciso ter pessoas interessadas. E aí eu não encontro as pessoas”, declarou.

Fim do 6x1 pode gerar custo de R$ 2 bilhões e provocar demissões, alerta Longen
Operação de colheita e transporte de eucalipto da Suzano, maior produtora mundial de celulose, setor que impulsiona a expansão industrial e a geração de empregos em Ms (Foto: Divulgação)

O presidente da Fiems atribuiu parte dessa dificuldade ao receio de beneficiários de programas sociais de perderem os auxílios ao ingressar no mercado de trabalho. Embora reconheça o avanço industrial de Mato Grosso do Sul, Longen avalia que o desempenho do setor em 2027 dependerá também das condições da economia nacional.

O presidente da Fiems mencionou juros elevados, carga tributária, custos operacionais e dificuldades de contratação entre os fatores que podem comprometer a competitividade das empresas.

Para ele, a ampliação dos investimentos industriais precisa ser acompanhada de medidas que permitam às empresas manter a produção e disputar mercado com produtos importados.

O dirigente defendeu maior liberdade para negociações comerciais e criticou o aumento das despesas públicas e dos tributos.

“Nós precisamos hoje de liberdade para a contratação, liberdade para trabalhar no frete, liberdade para trabalhar no preço. O governo federal precisa, urgente, colocar os seus números de gastos dentro de um número de receita”, afirmou.

Apesar das críticas ao cenário econômico nacional, Longen demonstrou confiança na continuidade dos investimentos em Mato Grosso do Sul e destacou que o crescimento industrial tem sido resultado de um trabalho desenvolvido ao longo de diferentes governos. “Então, o Estado está num momento bom. E a indústria faz parte disso. E a Fiems está na consolidação desse projeto”, declarou.

O presidente da federação não apresentou uma projeção percentual de crescimento industrial nem uma estimativa fechada de geração de empregos para 2027. Ele ressaltou, no entanto, que a expansão das grandes empresas e de suas cadeias de fornecedores continuará sendo importante para o desenvolvimento econômico regional.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.