Justiça extingue 22 mil cobranças fiscais da Prefeitura da Capital em 3 anos
Decisões seguem diretrizes do CNJ para desafogar o Judiciário; execuções ainda somam mais de 63 mil processos

Em Campo Grande, 22.372 processos de execução fiscal movidos pela Prefeitura foram encerrados nos últimos três anos. Foram 1.248 em 2024, 19.080 em 2025 e 2.044 neste ano. Apesar das regras para reduzir o volume de processos, definidas há dois anos, a Vara de Execução Fiscal da Capital ainda tem 63.453 processos em tramitação, enquanto a Vara de Execução Fiscal do Interior contabiliza 32.810.
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Em Campo Grande, 22.372 execuções fiscais da Prefeitura foram encerradas nos últimos três anos, enquanto ainda tramitam 63.453 processos na Capital. As extinções seguem regras do STF e do CNJ para reduzir a judicialização de dívidas, com foco em cobranças abaixo de R$ 10 mil sem movimentação útil. A Prefeitura ampliou a negociação do IPTU, com descontos e parcelamento, e fixou valor mínimo de R$ 3 mil para novas ações.
Somente na última sexta-feira, dia 29, o Diário da Justiça publicou quase 270 extinções sem análise do mérito da cobrança. Essas extinções seguem a diretriz definida pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para reduzir o elevado volume de execuções fiscais, considerado um dos principais fatores de congestionamento processual no Poder Judiciário.
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As instituições definiram que há outros meios mais eficazes e ágeis para as prefeituras cobrarem devedores de impostos, como o protesto em cartório. As regras para a extinção de processos foram estabelecidas em 2024, por meio da Resolução nº 547. Na época, o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) definiu as regras locais e, para justificar a necessidade de limitar a quantidade de processos fiscais, informou que um levantamento apontou que as execuções respondiam por 34% dos processos ativos. Desse total, 95 mil envolviam valores inferiores a R$ 10 mil, representando 14% de todas as ações em tramitação naquele momento.
O texto previu a possibilidade de extinção das execuções fiscais de valor inferior a R$ 10 mil, considerado o valor na data do ajuizamento, quando o processo estiver há mais de 1 ano sem movimentação útil e não houver localização do devedor ou de bens passíveis de penhora. Em 2023, a reportagem do Campo Grande News já havia revelado o acúmulo de processos na Vara de Execução Fiscal da Capital. À época, o juiz Wagner Munir Saad apontou a existência de 113 mil processos, quantidade que, de forma informal, equivalia a 20% das ações em tramitação no Judiciário estadual.
Antes de adotar a resolução, o TJMS reuniu representantes das procuradorias municipais para que tomassem conhecimento e se planejassem diante das mudanças nas execuções fiscais. A Prefeitura de Campo Grande definiu a possibilidade de renegociação permanente do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), com desconto de até 60% sobre multas e juros para pagamento à vista, ou de 30% para parcelamentos em até cinco vezes. Também estabeleceu o valor mínimo de R$ 3 mil para o ajuizamento de ações de cobrança.
Nas decisões constam desde a ausência de movimentações recentes que possam resultar na quitação do imposto até irregularidades processuais, como problemas na CDA (Certidão de Dívida Ativa), documento que fundamenta a cobrança judicial de débitos tributários. Pelo CTN (Código Tributário Nacional), a certidão deve conter informações essenciais, como a identificação do devedor e de eventuais corresponsáveis, o valor da dívida e a forma de cálculo dos juros, a origem e a natureza do crédito, a data da inscrição e, quando houver, o número do processo administrativo que deu origem à cobrança.
Também houve extinções a pedido da Procuradoria Municipal em razão da existência de acordos celebrados com contribuintes para a quitação dos tributos devidos. Depois que a Justiça sinalizou que encerraria cobranças de tributos sem andamento útil, a Prefeitura reforçou as possibilidades de negociação. A Prefeitura realizou vários programas de refinanciamento fiscal e, em junho do ano passado, divulgou uma lista com 58 mil devedores de IPTU, ISS (Imposto Sobre Serviços) e taxas diversas cobradas pela administração pública, convidando os contribuintes a buscarem acordos para regularização dos débitos.
As extinções recentes publicadas pela Justiça são assinadas por diversos juízes que atuam para reduzir o volume processual. As ações de execução fiscal foram direcionadas ao chamado Núcleo Justiça 4.0.
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura para obter informações sobre os créditos tributários e os valores cobrados judicialmente, além de dados sobre acordos firmados dentro das regras de refinanciamento das dívidas com o município, mas não obteve retorno. Havendo manifestação, ela será acrescentada ao texto.
O recebimento de tributos é determinante para a administração municipal, que há vários anos tenta equilibrar receitas e despesas. O município enfrenta excesso de gastos com a folha de pessoal, acima do limite prudencial que a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) estabelece, além de dificuldades para destinar recursos a investimentos, como obras públicas.
Receitas e despesas - Em recente prestação de contas, a Prefeitura informou que a arrecadação com IPTU entre janeiro e abril somou R$ 367,1 milhões, crescimento de 0,34% em relação ao mesmo período do ano passado. Já o valor total arrecadado desde maio de 2025 alcançou R$ 677,3 milhões.
O ISS teve aumento de 6,34%, alcançando R$ 239,1 milhões entre janeiro e abril. No acumulado do período considerado, a arrecadação somou R$ 606 milhões, ficando abaixo da receita do IPTU. Essa ordem tende a se inverter ao longo do ano, pois tradicionalmente há concentração do pagamento do IPTU nos primeiros meses, enquanto o ISS é recolhido de forma contínua por autônomos e prestadores de serviços.
A folha de pagamento dos servidores ativos da Prefeitura custou R$ 3.061.752.359,94 entre maio de 2025 e abril deste ano. No primeiro quadrimestre de 2026, os gastos com pessoal comprometeram 53,9% da receita corrente líquida do município, que totalizou R$ 2.970.786.424,47 para esse critério de comparação, acima do limite prudencial de 51,3%. No mesmo período do ano anterior, o índice era de 52,99%.
Os gastos com pessoal cresceram 15% no período, enquanto as despesas de custeio tiveram aumento de 16,73%.
Segundo o balanço, a receita com impostos até abril somou R$ 802,4 milhões.

