A eleição começa antes da campanha, e isso ameaça a igualdade nas urnas
A democracia não pode ter candidatos de primeira e de segunda categoria

A campanha eleitoral brasileira tem data para começar. A disputa pelo voto, não. Muito antes das convenções partidárias, quando sequer são definidos oficialmente os candidatos, parte dos futuros concorrentes já ocupa ruas, avenidas, redes sociais e eventos públicos. Não pedem votos. Não exibem números. Não dizem explicitamente que são candidatos. Mas fazem exatamente aquilo que a legislação tentou impedir: promovem seus nomes de forma contínua, preparando o terreno para a eleição.
RESUMO
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É uma campanha disfarçada de pré-campanha.
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A legislação eleitoral buscou estabelecer um equilíbrio entre a liberdade de manifestação política e o combate ao abuso do poder econômico. Permitiu que interessados em disputar eleições participassem de entrevistas, debates, encontros e apresentassem suas ideias. O problema é que, na prática, as fronteiras entre divulgação de ideias e propaganda eleitoral tornaram-se cada vez mais tênues.
Em todas as eleições, multiplicam-se adesivos com frases como "Amigo do Fulano", faixas, outdoors, pinturas em muros, distribuição de brindes, eventos, camisetas e uma intensa presença nas redes sociais. Isoladamente, muitas dessas ações podem até ser consideradas legais. Juntas, entretanto, constroem uma estratégia permanente de exposição pública que produz exatamente o efeito de uma campanha antecipada.
Quem ganha com isso não é necessariamente o melhor candidato.
Quem ganha é quem tem dinheiro.
O custo dessa exposição permanente é elevado. Produzir material gráfico, manter equipes de comunicação, investir em marketing digital, participar de eventos, financiar estruturas de divulgação e manter o nome em evidência durante meses exige recursos que poucos possuem. A consequência é previsível: candidatos com menor capacidade financeira, lideranças comunitárias, representantes da sociedade civil e pessoas que ingressam pela primeira vez na política chegam às convenções em desvantagem evidente.
Quando a campanha oficial finalmente começa, alguns concorrentes já desfrutam de um patrimônio político construído durante muitos meses de exposição contínua.
A desigualdade nasce antes mesmo da largada.
O princípio constitucional da igualdade entre os candidatos perde força quando o poder econômico consegue prolongar a campanha muito além do calendário previsto pela Justiça Eleitoral. Formalmente, todos iniciam a disputa no mesmo dia. Na realidade, alguns percorrem quilômetros antes que os demais sequer possam sair da linha de partida.
É uma distorção silenciosa.
Mais preocupante ainda é a naturalização desse fenômeno. O eleitor já se acostumou a ver nomes espalhados pela cidade muito antes do período eleitoral. A prática tornou-se tão frequente que quase deixou de causar estranheza. O excepcional virou rotina.
Essa lógica produz outro efeito perverso. Em vez de estimular o debate sobre projetos para educação, saúde, segurança, infraestrutura ou desenvolvimento econômico, estimula a competição pela visibilidade. O importante deixa de ser apresentar soluções e passa a ser aparecer mais vezes que o adversário.
A política transforma-se em disputa de marketing.
É evidente que ninguém defende impedir a participação política antes das eleições. Pré-candidatos devem, sim, debater ideias, conceder entrevistas, participar de encontros com entidades e ouvir a população. Isso fortalece a democracia. O problema surge quando a divulgação deixa de informar e passa a servir como promoção sistemática da imagem pessoal, financiada por quem dispõe de mais recursos.
A Justiça Eleitoral enfrenta dificuldades para estabelecer esse limite. Cada caso depende de análise individual, da existência ou não de pedido explícito de voto, do contexto e da interpretação da legislação. Enquanto isso, a criatividade para contornar as regras avança mais rápido do que a capacidade de fiscalização.
O resultado é uma eleição em que nem todos competem em igualdade de condições.
A democracia não exige apenas liberdade para disputar eleições. Exige também equilíbrio entre os concorrentes. Quando o dinheiro permite que alguns façam campanha durante um ano inteiro, ainda que sob outra nomenclatura, o princípio da isonomia perde espaço para o poder econômico.
Talvez tenha chegado o momento de o Congresso Nacional revisar as regras da pré-campanha. Não para restringir o debate político, mas para impedir que brechas legais continuem sendo utilizadas como instrumento de vantagem eleitoral.
Porque eleições livres não significam apenas liberdade para pedir votos.
Significam garantir que todos tenham a mesma oportunidade de conquistar a confiança do eleitor.
E essa igualdade começa muito antes da abertura oficial da campanha. Ela começa quando ninguém pode comprar, com dinheiro, o privilégio de largar na frente.

