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Cria do Santa Luzia: bairro se orgulha da convocação de Arthur Dias para Seleção

Zagueiro que começou no Pelezinho, deixou Campo Grande aos 15 anos e agora foi chamado para a Seleção

Por Jhefferson Gamarra e Duda Schindler | 09/09/2026 19:20
Cria do Santa Luzia: bairro se orgulha da convocação de Arthur Dias para Seleção
Campo-grandenses Arthur Dias (com troféu na mão) e Djhordney (atualmente atacante do São Paulo)  no estádio Olho do Furacão, em Campo Grande (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

Do campo de futebol do bairro Santa Luzia para a Seleção Brasileira. A convocação de Arthur Dias, de 19 anos, pelo técnico Carlo Ancelotti, foi recebida com orgulho por familiares e vizinhos que acompanharam de perto os primeiros passos do zagueiro em Campo Grande. Para quem viu o menino crescer, jogar bola pelas ruas e ser levado aos treinos pela família, a presença na equipe principal do Brasil representa a confirmação de um sonho que começou ainda na infância.

RESUMO

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Arthur Dias, zagueiro de 19 anos natural de Campo Grande, foi convocado pelo técnico Carlo Ancelotti para a Seleção Brasileira principal. Criado no bairro Santa Luzia, o jogador do Athletico-PR foi levado ao futebol pelo pai ainda criança, passando pelo Pelezinho e pela Funlec antes de ir a Curitiba aos 15 anos. Familiares e vizinhos celebram a conquista, que representa o resultado de anos de dedicação e apoio familiar. O Brasil enfrenta Austrália e Índia em setembro e outubro.

Arthur foi chamado pela primeira vez para a Seleção principal nesta quarta-feira (9), na primeira lista de Ancelotti após a Copa do Mundo de 2026 e que dá início ao ciclo para o Mundial de 2030. O jogador do Athletico-PR está entre os defensores convocados para os amistosos contra Austrália e Índia.

No Santa Luzia, a notícia rapidamente chegou aos moradores que conhecem a trajetória do jogador desde antes de ele deixar Campo Grande para seguir carreira no futebol.

Cria do Santa Luzia: bairro se orgulha da convocação de Arthur Dias para Seleção
Mauro Aparecido Mores Neto, de 49 anos, tio de Arthur Dias que comemorou convação do sobrinho (Foto: Paulo Francis)

O tio de Arthur, Mauro Aparecido Mores Neto, de 49 anos, soube da convocação por uma mensagem enviada pela irmã. Para ele, o chamado para a Seleção é consequência de uma relação com o futebol que começou muito cedo.

“Desde a barriga da mãe dele. O guri não parava com a bola, não. Aqui ele passava o dia inteiro batendo bola. Era terrível, mas ele gostava muito”, contou.

Antes de chegar ao Athletico-PR, Arthur passou por projetos e equipes de formação em Campo Grande. O pai o levava para treinar no Pelezinho e, posteriormente, ele teve a oportunidade de seguir para a Funlec. A partir daí, começou a ampliar os horizontes no futebol até chegar às categorias de base do clube paranaense.

“Da Funlec, ele já começou a ir para fora, até que foi para o Athletico, em Curitiba”, relatou o tio.

A mudança para Curitiba aconteceu quando Arthur ainda tinha 15 anos. No Athletico, o sul-mato-grossense começou sua trajetória nas categorias de base e passou a construir o caminho que o levaria às seleções brasileiras.

Segundo Mauro, as convocações para as categorias inferiores foram acontecendo ao longo dos anos. “Ele sempre foi convocado. Desde o Sub-17, depois Sub-20 e agora chegou à Seleção principal. Se não me engano, quando foi convocado para uma das seleções de base, ele até foi capitão”, afirmou.

Cria do Santa Luzia: bairro se orgulha da convocação de Arthur Dias para Seleção
Veria Lucia, de 64 anos, vizinha que acompanha a história de Arthur há décadas (Foto: Paulo Francis)

Vizinha viu Arthur crescer - Na mesma região, a vizinha Veria Lucia, de 64 anos, acompanha a história de Arthur há décadas. Moradora da rua há 26 anos e do Santa Luzia há cerca de 40, ela lembra de ver a avó do jogador levando o menino para a escola.

“Sempre, sempre. Eu via a avó dele levando ele para a escola. Ele estudava e sempre falava: ‘Eu vou crescer, vou crescer’. E também dizia que ia levar a avó dele com ele. E hoje ela está lá com ele”, contou.

A promessa acabou se tornando realidade. Arthur primeiro foi para Curitiba sozinho, depois recebeu a mãe e, posteriormente, levou também a avó para morar com ele. “Ela está lá, toda feliz, e não quer saber de voltar”, disse Veria.

A vizinha conta que, quando criança, Arthur brincava e jogava bola com os primos. Também ficava em sua casa em alguns momentos enquanto a avó trabalhava. “Ele era muito educado, não era pessoa de ficar na rua, essas coisas”, lembrou.

Veria também acompanhou a formação do garoto para além do futebol e sempre insistiu na importância dos estudos.

“Eu falava para ele: ‘Tem que estudar, você não pode largar os estudos’. Porque futebol você sabe como é: hoje você está bem, amanhã você não sabe. Então tem que estudar, nunca deixar o estudo”, contou.

Mesmo sem ser um aluno que passava o tempo todo sobre os livros, segundo ela, Arthur conseguia acompanhar as aulas. “Ele nunca foi de ficar no livro, mas só de prestar atenção na sala de aula já conseguia aprender”, disse.

Hoje, Veria acompanha pela televisão os jogos do zagueiro pelo Athletico. Ela lembra, inclusive, de ter assistido à partida mais recente do jogador e ficado preocupada depois que ele caiu e machucou o braço. “Na hora pensei: ‘Nossa, a mãe dele deve estar apavorada de ver ele cair e se machucar’”, relatou.

Agora, a torcida da vizinha ganhou uma nova dimensão. “Estou muito feliz por ele. Agora estou torcendo para o vizinho. Feliz pelo filho, feliz por ele. Graças a Deus. Se Deus quiser, vai para frente”, afirmou.

Cria do Santa Luzia: bairro se orgulha da convocação de Arthur Dias para Seleção
 Vilma da Silva Torres, de 51 anos, que viu Arthur crescer e pegou zagueiro no colo quando era pequeno (Foto: Paulo Francis)

“Ele é nosso” - Outra moradora que acompanhou a infância de Arthur é Vilma da Silva Torres, de 51 anos, que vive na região há 33 anos. Ela lembra do menino jogando no Pelezinho e da família se revezando para levá-lo aos treinos.

“Então, o Arthur é um menino que joga desde pequenininho. Jogava aqui no Pelezinho e a gente acompanhava. O pai levando, a mãe levando, o tio levando. A gente viu ele crescer”, contou.

A relação com a família também se estendeu às irmãs de Arthur, que frequentavam a casa de Vilma desde pequenas.

Para ela, acompanhar a evolução do jogador pelas seleções de base já era motivo de emoção. A convocação para a equipe principal, porém, levou o orgulho a outro nível.

“Foi um orgulho tremendo. Eu tenho orgulho das minhas filhas, mas senti um orgulho como se fosse um filho meu. Vai ser emocionante ver ele numa Copa do Mundo, ver ele jogando na Seleção Brasileira”, afirmou.

Vilma acompanhou os passos do jogador nas categorias inferiores e resume a trajetória como uma escalada gradual.

“Já era emocionante, porque ele passou pelo Sub-16, pelo Sub-20. Foi cavalgando um degrau de cada vez. E olha aí onde ele chegou.” Para a vizinha, agora “o mundo é pequeno” para Arthur.

Cria do Santa Luzia: bairro se orgulha da convocação de Arthur Dias para Seleção
Bairro Santa Luzia onde o novo convocado da Seleção Brasileira foi criado (Foto: Paulo Francis)

“Cria do Santa Luzia” - Mesmo depois de deixar Campo Grande, Arthur manteve os vínculos com a região onde cresceu. A mãe e a avó continuam ligadas ao bairro, e o jogador costuma visitar familiares e pessoas próximas quando retorna à cidade.

Arthur esteve em Campo Grande na semana passada, durante o aniversário da filha de seu tio. A rotina profissional, porém, tornou as visitas menos frequentes.

“Agora é mais em ocasiões especiais, porque ele viaja muito e tem muitos jogos. Às vezes minha irmã fala: ‘O Arthur foi para não sei de onde jogar’. É difícil até acompanhar”, contou Mauro.

Para Vilma, a distância não mudou a relação com o bairro. Ela considera Arthur uma verdadeira “cria” do Santa Luzia.

“Com certeza. Cria do Santa Luzia. Tem gente que não conhece o Arthur aqui na vila, mas ele é o Arthur, ele é nosso, ele é do Santa Luzia. E a gente está muito orgulhosa, muito orgulhosa mesmo”, afirmou.

A vizinha guarda ainda uma promessa para o futuro. Se Arthur disputar uma Copa do Mundo, ela pretende transformar a própria casa em uma homenagem ao jogador.

“Eu prometi para ele que, quando fosse jogar uma Copa do Mundo, eu ia pintar a rua, pintar meu muro e estampar a cara dele no meu muro. Falei hoje para ele que a promessa vai ser feita. Vou fazer isso por você, por orgulho do nosso bairro.”

A expectativa é que, quando Arthur entrar em campo pela Seleção, a torcida atravesse as paredes das casas e tome conta do bairro. “Quando ele entrar em campo numa Copa, a gente vai estar reunido e vai fazer bagunça nesse Santa Luzia”, disse Vilma. “Já pensou ele trazer uma taça para nós? Vai ter muito orgulho”, completou.

Cria do Santa Luzia: bairro se orgulha da convocação de Arthur Dias para Seleção
Arthur Dias ao lado dos irmãos na sua mais recente visita a Campo Grande (Foto: Arquivo Familiar)

Uma trajetória construída em família - Para o tio Mauro, a convocação não pode ser separada do esforço da família ao longo dos anos. “Com certeza. O pai ajudou, a mãe sempre ajudou, muitos amigos também. Então é uma conquista muito grande”, afirmou.

Ele também já guarda uma lembrança para marcar o momento: uma camiseta da Seleção Brasileira. “É muito maravilhoso. Eu já tenho até a camiseta da Seleção Brasileira. É uma conquista que não é para qualquer um. Tudo tem um preço, e ele não está lá à toa”, afirmou.

A convocação de Arthur é o resultado de uma trajetória que começou ainda criança em Campo Grande, passou pelo futebol de base e chegou às seleções inferiores antes de alcançar a equipe principal.

Agora, o menino que passava os dias jogando bola no Santa Luzia terá pela frente o primeiro compromisso com a Seleção Brasileira. O Brasil enfrentará a Austrália duas vezes, em 25 e 29 de setembro, em Townsville e Brisbane, respectivamente. Depois, a equipe seguirá para a Índia, onde enfrentará a seleção local em 3 de outubro, em Calcutá.