Eles suam a camisa, mas ninguém vê: conheça quem dá vida aos mascotes de MS
Personagens do Corumbaense, Galo do Operário e lobo-guará do Comercial têm histórias de paixão pelo futebol

Por trás das fantasias que animam as arquibancadas dos estádios de Mato Grosso do Sul estão histórias de paixão pelo futebol, dedicação e até sacrifícios. Enquanto os jogadores disputam a bola dentro de campo, os mascotes enfrentam calor intenso, divertem crianças e ajudam a manter viva a tradição dos clubes. Mas quem são as pessoas que dão vida a esses personagens?
RESUMO
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Por trás dos mascotes dos clubes de Mato Grosso do Sul há histórias de paixão e sacrifício. Jackson Souza, o Beto, veste o Galo do Corumbaense há 19 anos, enfrenta calor dentro da fantasia e recebe cerca de R$ 150 por jogo. Sullivan Gonçalves de Oliveira criou o Galo Lutador do Operário, que deixou em 2008, e nunca foi pago. Paulo Henrique dos Santos Pereira, de 20 anos, interpreta o Guará Perverso, do Comercial, em tradição familiar. Os três aproximam torcedores dos clubes, sobretudo crianças.
No Corumbaense, o Galo é interpretado há 19 anos pelo profissional de educação física Jackson Souza, de 52 anos, conhecido como Beto. No Operário, o artista plástico Sullivan Gonçalves de Oliveira deu vida ao Galo Lutador, personagem que deixou de interpretar há aproximadamente 18 anos. No Comercial, o lobo-guará, apelidado de Guará Perverso ou Perversão, é representado por Paulo Henrique dos Santos Pereira, de 20 anos. Apesar das diferenças entre os personagens, os três compartilham a missão de aproximar os torcedores dos clubes.
Corumbaense – A história de Jackson Souza com o Galo começou de maneira inesperada. Há 19 anos, quando trabalhava na Prefeitura de Corumbá, foi chamado pelo então prefeito para comparecer ao Estádio Arthur Marinho. Sem saber o motivo do convite, imaginou que participaria de alguma atividade esportiva. Ele já havia sido jogador de futebol.
Ao chegar, foi encaminhado ao vestiário, onde encontrou um saco branco com a fantasia do mascote. Surpreso, aceitou o desafio e entrou em campo pela primeira vez. Logo na saída, três crianças começaram a gritar ao vê-lo, reação que marcou o início de sua trajetória.
Desde então, criou um ritual que mantém até hoje. Ao entrar no gramado, segue pelo lado esquerdo, passa próximo ao banco de reservas, cumprimenta a torcida e caminha até o meio do campo, onde faz um gesto característico do galo, como se estivesse demarcando território.
O carinho dos torcedores ultrapassou os limites do estádio, e Beto passou a receber convites para visitar escolas, participar de eventos e fazer apresentações particulares. Uma das experiências mais emocionantes foi a visita à casa de Enzo, um menino que sonhava em conhecer o Galo, mas não conseguiu acompanhar a mãe ao estádio. Ao ouvir um áudio da criança chorando por não ter encontrado o mascote, decidiu realizar seu desejo e apareceu na residência vestido com a fantasia.
Apesar dos momentos especiais, a rotina também tem dificuldades. Em uma cidade conhecida pelas temperaturas elevadas, o profissional permanece cerca de 90 minutos dentro de uma roupa de espuma. “A ventilação ocorre apenas pela abertura do bico”, relata.
Segundo ele, a mesma fantasia é utilizada desde sua primeira apresentação, há quase duas décadas. O material fica guardado em sua casa, onde recebe os cuidados necessários para continuar sendo utilizado. Beto afirma receber aproximadamente R$ 150 por partida. Também relata que nunca recebeu benefícios do clube, como ingressos para familiares ou produtos oficiais. Pai de três filhas, gostaria de levá-las aos jogos como convidadas. Apesar das dificuldades, garante que não pretende abandonar o personagem.
O profissional também convive com as diferentes reações da torcida. “Nas vitórias, recebo abraços e pedidos de fotos. Nas derrotas, já fui alvo de reclamações e xingamentos”, conta.
Entre as lembranças mais divertidas está a reação de uma de suas filhas, que, ao encontrar o Galo durante uma apresentação na rua, não acreditou que o próprio pai estivesse dentro da fantasia. Além do mascote do Corumbaense, Jackson interpreta outros personagens em ações educativas na cidade, como o mosquito da dengue.

Operário – No maior rival do Comercial, o Galo Lutador também tem uma história ligada à paixão de um torcedor. O artista plástico Sullivan Gonçalves de Oliveira, de 51 anos, conta que sua aproximação com o Operário foi por meio de amigos que já acompanhavam o clube.
Tudo começou quando um deles apareceu em sua antiga residência, no Bairro Caiçara, para propor a criação de um grafite em uma bandeira da torcida Garra Operariana. Durante a conversa, Sullivan pediu para acompanhá-lo a uma partida. Depois daquela experiência, passou a frequentar os jogos e percebeu que faltava um personagem para animar a torcida. Foi então que, com a ajuda de um amigo, decidiu criar o Galo Lutador.
A elaboração da fantasia contou com sugestões de torcedores de diferentes gerações, desde integrantes da velha guarda até crianças. Para Sullivan, vestir o personagem era uma experiência que ia muito além de entrar em campo. "Ser o mascote do Operário é muito mais do que vestir uma fantasia. É representar uma paixão, preservar uma história e levar alegria ao coração de cada torcedor", afirmou.
A rotina começava aproximadamente uma hora antes das partidas, quando chegava ao estádio para vestir a fantasia. Pouco antes de a bola rolar, já estava no gramado interagindo com o público. O calor era um dos principais desafios. Segundo ele, a temperatura dentro da roupa podia se tornar insuportável, especialmente em dias acima dos 40°C. Mesmo assim, evitava retirar a máscara diante das crianças para não revelar quem estava por trás do personagem.
"Precisávamos nos hidratar sem tirar a máscara, pois, durante o jogo, nenhum mascote pode quebrar o encanto. Os pequenos torcedores ficam de olhos atentos, acompanhando cada passo", explicou.
Diferentemente de Beto, Sullivan afirma que nunca recebeu pagamento para representar o clube. A atividade era realizada por amor ao Operário. Entre as lembranças mais marcantes estão as viagens pelo Estado no ônibus da Garra Operariana e uma partida do Campeonato Brasileiro em que acabou atuando como gandula para ajudar a equipe.
A última vez que vestiu a fantasia foi em 2008, durante a Série C do Campeonato Brasileiro. O afastamento aconteceu após um acidente de motocicleta que lesionou seu joelho. Posteriormente, dificuldades enfrentadas pelo clube também contribuíram para sua saída. Mesmo depois de tanto tempo longe da fantasia, Sullivan afirma que continua ligado ao personagem. "Eu não posso voltar de onde nunca saí! Uma vez mascote, sempre mascote", resumiu.
Comercial – Enquanto o Operário tem o galo como mascote, o Comercial encontrou no lobo-guará uma maneira de provocar o rival. O personagem ganha vida com Paulo Henrique, que há dois anos veste a fantasia para animar a torcida colorada.
Segundo o pai do jovem, Paulo Sérgio Pereira, conhecido como Tim da Vila, a ideia surgiu durante uma conversa com o médico Trombini, antigo apoiador do clube. Antes do lobo-guará, o Comercial já havia sido representado por outros personagens, como o diabinho Manda Brasa, a águia e o saci. A escolha do novo mascote levou em conta a pelagem avermelhada do animal, que combina com as cores do time, além da rivalidade com o Operário.
"A gente resolveu adotar o lobo-guará para brincar com o adversário. Como a cabeça da fantasia antiga havia desaparecido, decidimos fazer um lobo com cara de mau e demos o nome de Guará Perverso, o Perversão. O Flamengo tem o Malvadão, e aqui nós temos o Perversão", contou.
Paulo Henrique estreou como mascote no Campeonato Estadual de 2025 e, desde então, acompanha as partidas, entra em campo com as crianças, distribui balas e anima as arquibancadas. Apesar do calor dentro da fantasia e da dificuldade de se expressar, garante que a experiência vale a pena.
"É sensacional sentir a emoção de dentro do campo e o apoio da torcida colorada. Os desafios são o calor da roupa e não poder se manifestar", relatou. Paulo Henrique trabalha em um ateliê que produz fantasias para o Uruguai, mas atua como mascote de forma voluntária. Questionado sobre o que recebe pelo trabalho, brincou: "Apenas memórias".
A paixão pelo Comercial também envolve toda a família, que tem tradição musical e integrantes de baterias de escolas de samba. Paulo Sérgio conta que os jogos são prioridade, mesmo quando surgem convites para apresentações.
"A gente espera ansiosamente chegar o dia do jogo. Nem marcamos compromissos para tocar ou cantar em bares e shows quando tem partida do Comercial. É presença confirmada da família toda", afirmou.
Entre as histórias mais divertidas está uma visita à região das Moreninhas, quando Paulo Henrique apareceu fantasiado diante de um grupo de crianças. Algumas ficaram assustadas, sem saber se o personagem era um cachorro ou um lobo, enquanto outras tiveram receio de se aproximar por medo de serem mordidas.
"As crianças começaram a se assustar. Algumas perguntavam se era cachorro, outras se era lobo. Teve criança falando que não queria chegar perto porque achava que ele mordia. Aí a gente foi explicando que era o mascote do Comercial. Essa interação é o barato do negócio", relembrou o pai.
Situação dos clubes – Atual tricampeão sul-mato-grossense, o Operário se prepara para disputar a Série A do Estadual de 2027, com início previsto para 9 de janeiro, além de ter vaga garantida na Copa do Brasil. O Corumbaense também está confirmado na primeira divisão. Já o Comercial, que terminou a Série B deste ano em terceiro lugar, busca na Justiça Desportiva o acesso à elite estadual. Os 3 clubes estão fora da Copa MS, que começou nesta quarta-feira (28) e reúne 6 equipes na disputa por uma vaga na Copa do Brasil de 2027.
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