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Campo Grande, Quarta-feira, 24 de Julho de 2019

01/07/2019 08:44

Cinelândia Bar era point dos homens galanteadores na década de 50, na Capital

O local ficava na esquina da Rua 14 de Julho com a Avenida Afonso Pena, e os rapazes se reuniam para observar as moças

Alana Portela
O Cinelândia Bar marcou os anos de ouro e foi point de azaração (Foto: Yoshi Haru Guenka)O Cinelândia Bar marcou os anos de ouro e foi point de azaração (Foto: Yoshi Haru Guenka)

O Cinelândia Bar já foi o que hoje seria o lugar "que bomba" em Campo Grande. Na esquina da Avenida Afonso Pena com a Rua 14 de julho, a fármacia instalada agora nem de longe lembra o point dos homens muito bem vestidos na década de 1950. O espaço era uma mistura de bar com restaurante, e ainda tinha apresentações musicais com um pianista famoso. Lalo tocava para romantizar as noites da época e deixar o clima mais “azaração”. “Ele era de Bauru, deve ter falecido. Teria uns 90 anos hoje. Era conhecido por Lalo, nunca soubemos seu sobrenome. Lembro que ele tinha um conjunto que tocava no Rádio Clube”, lembra o escritor e historiador, Edson Contar, 79 anos

O boteco funcionava todos os dias e do lado de dentro, sentados tomando a cervejinha, os rapazes ficavam com os olhos na espreita observando as moças passavam. “Era um point dos flertes da época. Tinha o Cine Alhambra, que era o melhor cinema da cidade e ficava perto dali. O nome do bar é em referência a esse cinema. Todas as terças, às 19h, aconteciam à sessão das moças e os jovens ficavam sentados ao redor daquelas mesas de calçada. Dessa forma, a gente se aproximava mais da passagem das moças, quando saiam”, diz Edson.

Naquele tempo, não costumavam fotografar, por isso, quase não há imagens do bar, muito menos dos rapazes flertando, ou das moças. No entanto, o que existe nitidamente são as lembranças dos anos de ouro marcados pelo romantismo e inocência. Na foto acima, é possível notar as cadeiras e mesas na calçada e os rapazes em frente, esperando o movimento começar. 

Edson relata que frequentava o local quando era adolescente e conta alguns fatos marcantes que tornaram o Cinelândia o bar mais famoso da região. “Era o bar da elite, A rapaziada gostava de andar elegante, terno e gravata esse traje era comum”, lembra.

Ele recorda que naquele tempo, os moços se reuniam em grupos, cada um com seu time. “Tinha o ’Club das Cinco', que era esportivo e social. Era um poderoso time de basquete e vôlei que foi campeão numa competição nordestina. Eram quase imbatíveis. O meu grupo era o ‘Havana’ e nasceu através de um grupo de amigos de infância”.

A turma da 5+, que tinha um poderoso time de basquete e vôlei e frequentavam o bar (Foto: Arquivo pessoal/ Edson Contar)A turma da 5+, que tinha um poderoso time de basquete e vôlei e frequentavam o bar (Foto: Arquivo pessoal/ Edson Contar)

Aos domingos, as mulheres iam até a Rua 14 de Julho com a Avenida Afonso Pena, para um passeio entre moças. "Elas saiam com as amigas, mães e irmãs. Andavam até a Rua Dom Aquino. Na volta, passavam em torno do Cinelândia porque, do lado, tinha o famoso ‘Sonheiro’, um italiano que vendia sonhos no carrinho. Do outro lado, havia os doces árabes de seu Abrão e próximo, tinha a ‘Sorveteria Torino’”, recorda.

Enquanto as damas passavam próximo ao bar, os homens permaneciam sentados para vê-las melhor. “Tinha mais conforto assim, tomando cerveja e observando o movimento”, diz. Naquele tempo o romantismo reinava. “Era um período diferente, de muito romance e pouca maldade”, destaca.

De vez em quando, as moças também frequentavam o bar, mas acompanhadas. “Quando não com o namorado, era com a família ou de grupinhos. Éramos todos amigos, porém 90% da frequência eram dos rapazes. Mas quando elas iam, era para tomar um sorvete e passear”.

O Cinelândia funcionou por volta de 1951 a 1959, até o ponto ser vendido para uma família de italianos e se tornar o “Esporte Bar”. Contudo, o local continuou sendo o ponto de encontro dos jovens até 1963, quando fechou.

A turma Havana no qual o escritor Edson Contar fazia parte (Foto: Arquivo pessoal/ Edson Contar)A turma Havana no qual o escritor Edson Contar fazia parte (Foto: Arquivo pessoal/ Edson Contar)

Galanteios - Waldir Santos Pereira Junior, 80 anos, também frequentou o local. Tinha 18 anos e se reunia com a rapaziada. Encontrava os amigos, maioria mais velho, pelo menos uma vez na semana. Lá, viu muitos rapazes encostados na parede só observando, parecendo gavião.

“Peguei o Cinelândia numa fase não inicial. Lembro que era o único bar descente para as moças saírem com as amigas, era tudo aberto. As meninas ficavam em grupos tomando refrigerante, enquanto aguardava a passagem dos moçoilos. No domingo, tinha sessão das 6h e das 8h da tarde o cinema e lotava”, recorda.

O bar ficava entre a rua 14 de Julho e a Avenida Afonso Pena (Foto: Yoshi Haru Guenka)O bar ficava entre a rua 14 de Julho e a Avenida Afonso Pena (Foto: Yoshi Haru Guenka)

Para ele, não tem como falar do Cinelândia e não comentar sobre o Cine Alhambra, que deu origem a tudo. “Era do bar que observavam. O cinema era divido em três partes e tinha um corredor largo por onde as pessoas andavam. As moças guardavam os acentos para os namoradinhos, amigos, isso gerava briga. Entretanto, tinha segurança total. A gente era criado na rua, andava de bicicleta, nadava no Rádio Clube”, recorda Waldir com aquele tom de saudade.

Os anos de ouro marcaram sua juventude e ele também comenta sobre o “Footing” da época. “Era diferente do que acontecia em outros estados. Era gozado, pois os rapazes também passeavam. Naquele tempo, em São Paulo os homens só observavam as moças”, disse.

Outro motivo pelo qual não se esquece do preciso Cinelândia, é que nos tempos de “azaração” conseguiu arrumar uma namorada e até formou uma família. “Casei com ela, tive dois filhos e hoje tenho quatro netos. A gente começou nas festinhas e aquele bar teve influência em todos os namoros de Campo Grande”.

Quase 70 anos passaram-se, muitas coisas mudaram de lá pra cá. Contudo, para Waldir foi um tempo inesquecível. “Foi um período charmoso, diferente de tudo que possa imaginar. Era animado, foi tempo lindo”, recorda.

Hoje, o ponto point da garotada virou em uma farmácia e poucos conhecem a história do Cinelândia. Entretanto, quem viveu aquele período não se esquece e sente saudade.

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Depois de seis décadas, agora o prédio tem uma farmácia. (Foto: Henrique Kawaminami)Depois de seis décadas, agora o prédio tem uma farmácia. (Foto: Henrique Kawaminami)
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