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Arquitetura

Ícone da art déco, Edifício José Abrão é oficialmente tombado

Decreto da prefeitura, assinado hoje, protege prédio construído em 1939 e encerra processo iniciado há 15 anos

Por Mylena Fraiha | 16/03/2026 10:38
Ícone da art déco, Edifício José Abrão é oficialmente tombado
Fachada do Edifício José Abrão, localizado na esquina das ruas 14 de Julho e Marechal Cândido Mariano; prédio histórico foi finalmente tombado após 15 anos de processos administrativos e jurídicos (Foto: Juliano Almeida).

Depois de 15 anos de tramitação administrativa, análises técnicas, vistorias e disputa judicial, a prefeitura de Campo Grande oficializou nesta segunda-feira (16) o tombamento do Edifício José Abrão, conhecido por gerações como Hotel Americano. O prédio fica na esquina das Ruas 14 de Julho com a Marechal Cândido Mariano, no centro da cidade, e é considerado um dos exemplos mais expressivos da arquitetura art déco da Capital.

RESUMO

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O Edifício José Abrão, importante exemplar da arquitetura art déco em Campo Grande, recebeu tombamento definitivo após 15 anos de processo administrativo. Localizado na esquina das ruas 14 de Julho com Marechal Cândido Mariano, o prédio de 1939 é conhecido por gerações como Hotel Americano. O decreto assinado pela prefeita Adriane Lopes protege o imóvel e seu entorno, impedindo alterações sem autorização prévia. O edifício, projetado pelo arquiteto alemão Frederico João Urlass, destaca-se por suas varandas arredondadas, frisos horizontais e revestimento com pó de pedra contendo mica, características marcantes do estilo art déco.

A decisão foi formalizada por meio do Decreto nº 16.575, assinado pela prefeita Adriane Lopes (PP). O ato reconhece o valor histórico e arquitetônico do edifício e determina sua inscrição no Livro de Tombo de Artes Aplicadas do município. O tombamento protege o prédio e também o lote onde ele foi construído, impedindo alterações que possam comprometer suas características originais.

Construído em 1939, o imóvel tem três pavimentos e ocupa uma das esquinas mais tradicionais do centro de Campo Grande. O edifício foi projetado em um momento em que a cidade começava a consolidar seu perfil urbano e arquitetônico, e representava uma aposta na modernização da paisagem central.

Com o tombamento, qualquer intervenção na estrutura passa a depender de autorização da prefeitura. Reformas, reparos, pinturas, restaurações ou modificações estruturais deverão ser previamente analisadas pelos órgãos municipais responsáveis pela preservação do patrimônio. A proteção recai especialmente sobre a cobertura e as fachadas do prédio, consideradas elementos fundamentais da composição arquitetônica.

Caso ocorram alterações sem autorização, o responsável poderá ser obrigado a reconstruir ou restaurar o que foi danificado, além de pagar multa que pode chegar ao dobro do valor do dano causado ao imóvel.

Ícone da art déco, Edifício José Abrão é oficialmente tombado
Área do entorno do Edifício José Abrão também foi protegida por decreto (Foto: Reprodução).

O decreto também cria uma área de proteção no entorno do edifício. A zona preservada inclui imóveis vizinhos localizados na Rua 14 de Julho e na Rua Marechal Cândido Mariano Rondon, nas quadras imediatamente próximas ao prédio histórico. Dentro dessa área passam a existir restrições urbanísticas destinadas a preservar a visibilidade e o destaque do edifício na paisagem urbana.

Ícone da art déco, Edifício José Abrão é oficialmente tombado
Prédio localizado na esquina das ruas 14 de Julho e Marechal Cândido Mariano hoje também abriga lojas no térreo (Foto: Juliano Almeida).

Entre as limitações previstas está a proibição de construções que ultrapassem a altura do prédio tombado ou que bloqueiem sua visualização. Também ficam proibidos anúncios publicitários, painéis ou cartazes no entorno imediato, além do uso de cores em fachadas que disputem visualmente a atenção com o edifício histórico.

A intenção é evitar que intervenções no entorno descaracterizem a presença arquitetônica do prédio no centro da cidade. Qualquer obra ou intervenção nessa área também deverá passar por análise da prefeitura, com parecer técnico da Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano) e da Fundac (Fundação Municipal de Cultura).

Na manhã desta segunda-feira (16), o Campo Grande News observou que o prédio apresenta o característico tom avermelhado já desgastado pelo tempo, com pontos em que o cimento começa a se desprender. A parte da esquina, onde está grafado o nome do edifício, também aparece pichada. No térreo, atualmente, o imóvel abriga lojas.

Ícone da art déco, Edifício José Abrão é oficialmente tombado
Prédio apresenta pintura desgastada, partes do concreto se desprendendo e pichações (Foto: Juliano Almeida).

Processo longo - A oficialização do tombamento encerra um processo que se arrastava há mais de uma década e meia. O procedimento administrativo teve início em 26 de dezembro de 2011, quando a prefeitura abriu o processo para avaliar a preservação do edifício.

Poucos meses depois, em 26 de abril de 2012, a Fundac publicou no Diário Oficial o tombamento provisório do prédio. O tombamento provisório é uma medida cautelar utilizada para garantir proteção ao imóvel enquanto são realizados estudos técnicos e análises administrativas sobre seu valor histórico e arquitetônico. Mesmo antes da decisão definitiva, essa medida já impedia alterações que pudessem descaracterizar o prédio.

Ao longo dos anos seguintes, o processo seguiu com levantamentos técnicos, avaliações sobre o estado de conservação do edifício e discussões sobre a preservação da fachada original. Apesar de aprovado pelos conselhos municipais de cultura, o tombamento definitivo ainda aguardava publicação oficial.

Paralelamente à tramitação administrativa, o edifício também se tornou objeto de disputa judicial. Em 2017 foi aberta uma ação na Justiça com o objetivo de impedir intervenções que pudessem alterar as características originais do prédio. Em 2019, a Justiça acolheu pedido do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) e proibiu qualquer obra ou alteração na estrutura sem autorização da prefeitura.

Durante esse período, diferentes inspeções técnicas foram realizadas para avaliar as condições do imóvel. Vistorias feitas entre 2018 e 2020 identificaram problemas estruturais e sinais de deterioração. Técnicos registraram ferragens expostas, descolamento de peitoris e desgaste de revestimentos da fachada.

A vistoria realizada em novembro de 2020 também apontou novas interferências visuais que comprometiam a leitura arquitetônica do prédio. Entre elas estava a instalação de uma marquise considerada elemento descaracterizante da fachada original.

Outro ponto levantado foi a situação da rede elétrica após a revitalização da Rua 14 de Julho, quando o rebaixamento da fiação deixou fios aparentes sem acabamento adequado. Esses problemas reforçaram a necessidade de preservação do edifício, considerado um dos marcos arquitetônicos do centro de Campo Grande.

Histórico - O prédio foi construído por Manoel Rosa e pelo engenheiro Joaquim Teodoro de Faria, a pedido do comerciante José Abrão, um dos empresários mais conhecidos da cidade na época. O projeto é atribuído ao arquiteto alemão Frederico João Urlass, responsável por outras obras importantes da Capital, entre elas o Colégio Dom Bosco.

Conforme já noticiado pelo Campo Grande News, documentos históricos do filho de Urlass contam que o pai se preocupava em atender as necessidades do contratante, porém, com a seguinte ressalva: “O senhor é proprietário do prédio, mas a fachada pertence à cidade”. Uma das características era o uso da curvatura na esquina, como exemplifica o edifício José Abrão.

Ícone da art déco, Edifício José Abrão é oficialmente tombado
Registro do imóvel, com traços da Art Déco, na década de 1940 (Foto: Arca/Reprodução).

O edifício apresenta características típicas do estilo art déco, corrente arquitetônica que marcou o período entre as décadas de 1920 e 1940. Entre os elementos mais marcantes estão as varandas arredondadas, os frisos horizontais e a curva elegante da esquina, solução arquitetônica pensada para valorizar a perspectiva das ruas.

Outro detalhe que chama atenção é o revestimento da fachada com pó de pedra contendo mica, material trazido da região de Porto Murtinho. O mineral cria um brilho particular na superfície do edifício, descrito em relatórios técnicos como um tom vermelho cintilante, considerado um luxo arquitetônico para a época.

Ao longo das décadas, o prédio ficou conhecido principalmente por abrigar o Hotel Americano, um dos pontos tradicionais da região central da Capital. O estabelecimento também ajudou a consolidar a imagem do edifício na memória urbana de Campo Grande.

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