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Arquitetura

Em cenário calado pela violência, esperança fala na arquitetura dos barracos

Moradores de favela constroem um novo mundo entre paredes de madeira e materiais que são abandonados pela cidade

Por Thailla Torres | 19/02/2020 07:07
Casa feita por Ademar com materiais que são descartados na região da favela. (Foto: Marcos Maluf)
Casa feita por Ademar com materiais que são descartados na região da favela. (Foto: Marcos Maluf)

Gente que tem pouco e sobrevive com o que tem, mas não de qualquer jeito. Madeira alinhada, fachada feita de palete bem desenhado, barraco suspenso que é chamado de sobrado. As diversas arquiteturas que se espalham por alguns barracos, na favela do Jardim Centro-Oeste, reforçam a esperança de quem mantém o sonho de morar melhor.

Do outro lado da rua, que só passa carro de passeio, moradores quase silenciosos, cuja violência dos últimos dias na região levou todo mundo a ficar ressabiado com a chegada da imprensa, resumem que barraco arrumadinho é a busca pelo conforto, que divide espaço com a frustração de quem não tem casa boa para viver.

Na manhã acompanhada pelo sol forte que marca os dias de fevereiro, parte da mata ainda preservada diminui o calor em parte da favela, mais especificamente na Rua Itapevi. A invasão é endereço há três anos da mãe de Tabata Moreira dos Santos, 31 anos.

Caprichoso, até o cercadinho chama atenção entre os barracos. (Foto: Marcos Maluf)
Caprichoso, até o cercadinho chama atenção entre os barracos. (Foto: Marcos Maluf)

Ela conta que viu durante muito tempo a mãe sofrer para pagar o aluguel e sustentar os filhos com o salário de empregada doméstica. Faltava água, às vezes, luz. “O dinheiro nem sempre dava para pagar tudo e ainda comer”, explica.

Hoje elas vivem em um barraco que se destaca pela arquitetura. Uma parte é suspensa e lembra uma casinha na árvore. Com madeiras pintadas de branco, a cor escolhida é para trazer a sensação de paz no ambiente que, uma vez por semana, recebe moradores de outros barracos para o culto. A mãe é da Congregação Cristã e quem ministra no próprio quintal ao fieis.

“Isso aqui foi meu irmão quem fez. Ele sempre foi caprichoso em tudo o que faz. Quando minha mãe veio morar aqui ele queria que ela vivesse melhor e então ele mesmo construiu o barraco que alguns dizem que parece casa”.

Pergunto como ela prefere chamar o próprio lar. “Tem gente que prefere falar casa. Falar barraco, às vezes, causa uma sensação ruim, mas eu não tenho vergonha de falar barraco não, mas é um barraco arrumado”, ri.

A sensação ruim de barraco é representada pelo calor da lona que predomina nos barracos, nas fissuras da madeira que não são capazes de ventilar, mas são poderosamente dolorosas no inverno. “Entra vento de tudo quanto é lado”, diz. Na chuva então: “Cai goteira em tudo, isso quando o vento não leva tudo também”, desabafa.

Para ela a pintura e a construção bem elaboradas do irmão são vem vistas no dia a dia. “Aqui a gente vive tranquila”, afirma. A expectativa de Tabata é que haja um acordo e a mãe um dia consiga ficar com o loteamento, mas enquanto isso não dá certo, o jeito é ir ajeitando o barraco com o que tem.

Casa da mãe de Tabata chama atenção pelo barraco suspenso que parece casinha na árvore. (Foto: Marcos Maluf)
Casa da mãe de Tabata chama atenção pelo barraco suspenso que parece casinha na árvore. (Foto: Marcos Maluf)

A poucos metros dali batemos palma em um barraco ainda mais elaborado. Quem não soubesse que o endereço é na favela não ousaria falar barraco, é casa de madeira mesmo, e bem-feita. O dono dela, que não abre mão de falar barraco, é o ex-militar Ademar Mendes, 60 anos.

Também sem abrir mão do chapéu de estampa militar, que ele guarda desde menino quando serviu o quartel, o proprietário só abre o portão com a condição de não fotografarmos a família. “Não quero aparecer. Aqui ninguém tem falado nada, ainda mais depois de tudo”, se refere ao assassinato ocorrido na região nos últimos dias.

Mesmo assim ele adora falar do próprio lar. Envaidecido pela simetria do cercado, Ademar explica que gosta de tudo “na medida”. “Não faço nada de qualquer jeito”.

A casa que ele mostra foi construída por ele com paletes e ripas de madeira que iriam para o lixo. Ele conta que algumas pessoas descartam restos de obras na região e, por isso, ele conseguiu materiais para usar na construção. “Eu aproveito tudo”.

Outro cercadinho feito no capricho. (Foto: Marcos Maluf)
Outro cercadinho feito no capricho. (Foto: Marcos Maluf)

Com a reciclagem, ele construiu uma casa de madeira que seria entregue à filha, mas, enquanto ela não se muda, a varanda do lugar virou conveniência. Com mesas feitas de carreteis pelo quintal e balanço pendurado no pé de pequi, o lugar tem até câmera, que o dono jura que funciona.

Além disso, Ademar aproveita do espaço maior que tem para cultivar alimentos. Tem abobrinha, mandioca e verduras. Em outro ponto ele mantém um galinheiro e, em época de colheita, ele vende para ganhar um dinheiro.

Hoje ele mora com esposa no local e diz que optou pela favela depois de inúmeros problemas financeiros. “Meu filho ficou doente, precisamos cuidar muito dele e isso exigiu dinheiro. Depois, ele precisou de um transplante e minha esposa doou o rim dela para ele, mas não resistiu”, lamenta. “Por isso, acabamos aqui”.

Sobre construir um barraco no capricho, o investimento é ter uma vida menos cansativa. “A gente precisa se sentir bem onde mora, senão fica difícil viver”, finaliza.

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Verde mantido por Ademar para ter uma vida mais tranquila. (Foto: Marcos Maluf)
Verde mantido por Ademar para ter uma vida mais tranquila. (Foto: Marcos Maluf)