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Arquitetura

Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal

Parte da estrutura precisou ser reconstruída, mas frente ficará igual e da cor azul; visitamos a obra

Por Natália Olliver | 15/08/2026 07:23
Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal
Com parte da estrutura reconstruída, Igreja de Tia Eva terá arruda e pé de manga (Foto Paulo Francis)

Oito meses depois do início da obra na igreja São Benedito, a vida, finalmente, começou a voltar por ali. Isso porque a Igreja, símbolo da comunidade quilombola Tia Eva, está renascendo. Nesta sexta-feira (14), o Lado B viu de pertinho como está tudo por lá em uma visita guiada. De cara, a igreja parece bem maior que antes. Parte da igreja precisou ser reconstruída devido ao estado lamentável que estava, mas a fachada segue como a original e na cor azul.

Agora o busto de Eva Maria de Jesus, ou Tia Eva, fundadora da comunidade, vai descer. Não ficará mais em frente à igreja, mas sim de frente para ela, à sombra de uma mangueira. Arrudas e flores vermelhas também vão fazer parte do paisagismo do Centro Cultural Tia Eva.

Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal
Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal
Igreja foi inaugurada em 1919 e virou patrimônio (Foto Paulo Francis)

De acordo com a arquiteta e urbanista, uma das responsáveis pelo projeto, Regina Moura Loff Scott Cortez, Tia Eva gostava das flores e todas as plantas presentes no projeto têm relação com a história da comunidade e de Eva.

Para quem perdeu parte da história, a igreja estava caindo sobre o túmulo dela. Os restos de Tia Eva ainda descansam no local que ela tanto sonhou e que ajudou a construir, reunindo seu povo em torno da fé, da memória e da resistência.

Com a intervenção no entorno, a percepção do espaço também mudou. A arquiteta explica que a sensação de que a igreja cresceu veio justamente da nova organização das áreas externas, com a criação de platôs e uma escadaria que ampliaram a perspectiva de quem observa a construção.

Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal
Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal
Número do imóve original é verde e amarelo e moradores querem manter assim (Foto Paulo Francis)

“Isso trouxe perspectiva de observação. Então, a igreja cresce”. Segundo ela, a retirada de elementos que estavam nas laterais da igreja também ajudou a valorizar a construção original, deixando o prédio “respirar”.

A mudança do busto de Tia Eva também fez parte de uma discussão cuidadosa da equipe responsável pelo projeto. A ideia é que ele deixe de ficar em frente à igreja para ocupar um novo espaço, voltado para a construção, como se estivesse observando e abençoando o local.

Segundo Regina, a proposta é criar um espaço simbólico e sagrado em frente à igreja. Atrás do busto será plantada uma mangueira, em referência às histórias contadas por Tia Eva, que costumava reunir pessoas sob a sombra das árvores.

“A gente espera que seja uma mangueira de uns 2 metros, mas não dá para pôr uma muito adulta. Até porque ela vai crescer rápido, vai trazendo essa sombra aos poucos, mas vai trazer esse significado que Tia Eva contava as histórias”.

Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal
Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal
Arquiteta Regina Maura e engenheira Elaine Maria (Foto Paulo Francis)

O paisagismo também foi pensado para preservar a memória da comunidade. Entre as espécies escolhidas estão a arruda, planta muito utilizada por Tia Eva para benzer; a própria mangueira e flores vermelhas, que faziam parte das preferências dela.

Além do valor histórico, a escolha das plantas tem como objetivo criar uma experiência sensorial para quem visitar o espaço. “Não é só pela memória, mas tem também o sensorial, uma percepção multissensorial desse espaço, trazendo cheiros também, que remetem à Tia Eva”, explicou a arquiteta.

Perrengues  e mudanças

A recuperação da igreja também exigiu um trabalho estrutural delicado. Segundo a engenheira civil Elane Maria da Fonseca, parte de uma das torres e uma grande área lateral apresentavam deformações graves e ameaçavam a estrutura.

De acordo com a engenheira, uma das causas prováveis foi a presença de um sumidouro no local, que carregava líquidos (principalmente o esgoto) e acabou comprometendo a fundação ao longo dos anos. A estrutura original era feita com pedras de arenito e blocos assentados com saibro, material sem resistência suficiente e que facilitava a perda de estabilidade.

“Não tinha como arrumar. A gente teve que ir desmontando parte por parte, trecho por trecho. Fizemos fundação, baldrame, impermeabilizamos e reconstruímos com todos os tijolos que a gente tirou daqui cuidadosamente. Eles foram limpos e assentados novamente”, explicou Elane.

O trabalho também envolveu o escoramento do telhado, já que a alvenaria que foi desmontada era responsável por sustentar parte do peso da cobertura. A torre passou pelo mesmo processo, com a desmontagem e reconstrução gradual de cada trecho para garantir novamente a estabilidade da estrutura.

Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal
Igreja de Tia Eva renasce com arruda, mangueira e histórias no quintal
Antes e depois da igreja de São Benedito (Foto Arquivo Campo Grande News e Paulo Francis)

Durante a visita, realizada pelo CAU/MS (Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso do Sul) e pelo Iphan/MS (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), os detalhes da obra foram destacados. As janelas de madeira e o telhado romano, que já não é original há anos, foram trocados; todos os itens históricos foram restaurados, assim como o cruzeiro que ficava dentro da igreja e o próprio busto da Tia Eva.

O número do imóvel também. E, dessa vez, ficará com a pintura original. Muitos não sabem, mas o 1919 era verde e amarelo. A comunidade optou por deixar assim nessa nova fase da igreja. Cor também é memória.

Outra mudança é que agora a entrada do barracão não é mais pela Rua Eva Maria de Jesus. Ali fica só o acesso secundário de incêndio e serviço. Quem quiser acessar o lugar terá que passar pela entrada geral do Centro Cultural Tia Eva. Veja como vai ficar a obra:

A Igreja São Benedito foi construída em 1919 e se tornou um dos principais símbolos da Comunidade Tia Eva. Tombada como patrimônio histórico, a capela chegou a ser interditada pela Defesa Civil de Campo Grande em maio de 2024 por risco de desabamento. Em janeiro de 2025, o imóvel foi novamente isolado pela Defesa Civil Estadual para impedir o acesso ao local.

Os reparos eram aguardados desde 2021, mas ganharam urgência com o avanço das rachaduras e a piora das condições da estrutura. A situação preocupava principalmente os descendentes e moradores da comunidade, que acompanhavam a deterioração da igreja construída pela própria Tia Eva e onde ela está sepultada.

Confira a galeria de imagens:

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O Quilombo Tia Eva é uma das comunidades quilombolas urbanas mais antigas do país. A história começou com Eva Maria de Jesus, mulher negra recém-alforriada que chegou à região no início do século 20 e criou ali um núcleo comunitário que atravessou gerações.

Em 2026, o quilombo se tornou o primeiro do Brasil a receber tombamento oficial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O orçamento foi de R$ 2,2 milhões, e o prazo total de execução da obra é de 540 dias, com previsão de término em 27 de maio de 2027. A engenheira responsável, Elaine, comenta que a equipe enfrentou muitos desafios que atrasaram alguns processos, principalmente por causa das chuvas.

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