Após acidente, Kleiton retorna aos palcos e transforma desafio em dança
Artista foi vítima da imprudência no trânsito de um motorista que dirigia embriagado e fugiu do local

Entre os bailarinos do Grupo Funk-se, um retorno chamou a atenção do público: o de Kleiton Medina, integrante há mais de dez anos e peça importante na organização do evento. Ele voltou ao palco depois de sofrer um acidente de trânsito que quase encerrou sua trajetória como artista e dançou usando uma cadeira de rodas.
No camarim, depois de dançar, Kleiton relembrou o acidente que mudou sua vida e acabou levando-o de volta para a dança de outra forma. “Isso foi há quatro meses. Terminei um trabalho de dança e pedi uma moto de aplicativo. No caminho para casa, um carro, conduzido por um motorista embriagado, avançou o sinal vermelho, no centro da cidade, e atingiu violentamente a motocicleta. Foi tudo muito rápido. Três segundos e eu já estava no chão”.
Mesmo com fraturas e cirurgias, ele surpreendeu médicos e familiares. Ficou apenas quatro dias internado e evoluiu mais rápido do que o esperado. “Sou muito ativo, sempre trabalhei com o corpo. Paralisar de repente foi difícil, mexeu com meu psicológico, mas parte da recuperação eu devo à dança, pelo meu condicionamento físico. Foi ela também que me puxou de volta e evitou uma depressão. E, no MS Dance Fest, senti que ainda posso me expressar, independentemente da condição física”.
Mas o caminho até o palco não foi simples. Kleiton chegou a pensar em não se apresentar. A cadeira de rodas e a muleta pareciam estranhas para alguém acostumado a dançar em pé. “Eu resisti por meses. Achava que não estava bem para estar ali. A cadeira era estranha para o meu corpo, sabe? Eu sempre dancei de pé. Mas, com o passar do tempo e vendo os ensaios do grupo, entendi que dançar não é só sobre as pernas. Aí pensei: ‘se a dança sempre foi minha forma de expressar, por que não agora?’”.
Nos ensaios finais, a emoção veio antes do movimento. “Antes mesmo de decidir me apresentar, chorava vendo os ensaios do Funk-se. Os colegas me incentivaram a dançar, mas o medo me paralisava. Eu me perguntava: por que não estou ali também? Foi quando falei que queria ensaiar, quis entregar minha verdade. Senti o acolhimento do público e fiz o meu máximo”.
O acidente também fortaleceu laços. Sem celular no momento da batida, apenas dois nomes surgiram na mente de Kleiton: o de um amigo da dança e o do diretor do grupo, Edson Clair. “Acho que o acidente fortaleceu os vínculos. O celular sumiu com o impacto da batida e o primeiro número que lembrei foi do Ennio. Preciso lembrar também do Clair. Eles foram maravilhosos… não que minha família e outros amigos fossem menos importantes, não é isso. Porém, os dois ficaram comigo no hospital de madrugada. Isso me emocionou”, diz. Ele também agradece quem cuidou dele em casa: “sou grato à minha família e ao meu amigo, Jonas, ele que cuidou de mim em casa, sem pedir nada em troca”.
Para Edson Clair, diretor do Funk-se e idealizador do MS Dance Fest, acompanhar a recuperação de Kleiton foi inevitável — e participar da volta dele ao palco, emocionante. “Sabia que ele estava abalado e precisava se sentir parte. Disse: ‘Quero você trabalhando no festival, com a gente o tempo todo’. Ele esteve nos bastidores e vê-lo no palco, se expressando, foi emocionante. Ele está há 12 anos conosco. É família”.
A coreografia da terceira noite do festival reuniu colegas do Funk-se e convidados como Lavínia de Lucca, Vitor Locking, Henrique Lima e Vini Gomes. Para Edson, a presença de Kleiton no palco não foi apenas estética, mas simbólica: “Quando a participação dele surgiu, entendemos que não era só estética — era mensagem. Acessibilidade não é adaptação técnica, é presença. E Kleiton provou isso”.
Outro ponto marcante foi o uso da Libras. Kleiton estuda língua de sinais há um ano e meio e trouxe essa linguagem para a cena. “Libras é uma forma de se expressar. Uso muito braços para dançar. Na cadeira, senti que meu corpo continuava potente. A dança e a língua de sinais me ajudaram a improvisar e continuar dizendo o que precisava”.
A experiência também revelou as dificuldades do dia a dia para quem tem mobilidade reduzida. “Com as limitações, senti no corpo aquilo que a gente sempre trabalha nas artes, a questão da exclusão e o quanto o espaço pode não ser democrático. As calçadas, o acesso… é luta diária. Devemos olhar para isso com consciência, porque existem muitos corpos além do padrão”.
Sobre o acidente, ele lembra que o motorista estava embriagado e fugiu sem prestar socorro. “Muita gente diz ‘eu bebo, mas me controlo’. Não se trata só de você. No trânsito, estamos em sociedade. Um descuido muda vidas. Poderia ter tirado a minha e a do piloto que está em recuperação usando gaiola e quase perdeu a perna”.
Hoje, Kleiton vê a dança como um renascimento. Voltar ao palco foi uma forma de afirmar sua existência. “Ali, dançar era dizer que eu ainda estou aqui. Independente da condição, todo mundo pode dançar. Às vezes, a arte é o que resta quando tudo para”.
A performance emocionou o público e deixou uma mensagem forte sobre resistência, inclusão e verdade. “O que importa é expressar minha verdade. Mesmo com adversidades e esse universo novo que é a cadeira para mim. Embora, no meu caso, ela seja temporária, estava inteiro no palco e com pessoas que confio. A dança não conhece limites”.

