O perfume que atravessou gerações e voltou a florescer em Bonito
Muito antes do turismo, cidade já exportava fragrâncias para o mundo

Uma história iniciada por franceses na década de 1950 renasce pelas mãos de uma família que transformou a biodiversidade do Cerrado em sabonetes artesanais carregados de memória, afeto e sustentabilidade
RESUMO
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Antes de Bonito conquistar fama internacional pelas águas transparentes e pelos rios de beleza quase inacreditável, outro perfume já anunciava ao mundo a riqueza daquela terra.
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Era o aroma das plantas cultivadas para a extração de óleos essenciais, um ciclo econômico hoje praticamente esquecido, mas que levou o nome da cidade para além das fronteiras brasileiras muito antes do turismo se tornar sua principal vocação.
Mais de 70 anos depois, essa história voltou a ganhar vida. Não em grandes plantações nem em tonéis destinados à exportação, mas nas mãos de uma família que decidiu transformar lembranças em empreendedorismo e a biodiversidade do Cerrado em cuidado com a pele.
Foi assim que nasceu a Mãos do Cerrado.
A história começa na década de 1950, quando o espanhol José Eugênio de Zayas D'Harcourt desembarcou em Bonito acompanhado da esposa, a francesa Claude Bernanos D'Arc. Ele integrava a tradicional companhia francesa Antoine Chiris, fundada em 1768, na cidade de Grasse, reconhecida mundialmente como o berço da perfumaria.
A missão era ambiciosa: implantar áreas de cultivo de espécies aromáticas destinadas à produção de óleos essenciais para abastecer os mercados da França e dos Estados Unidos.
Bonito foi escolhida por razões que a natureza explica. O clima tropical, a abundância de água e o solo rico em minerais — especialmente o calcário — criavam condições ideais para o desenvolvimento de plantas de alto valor aromático.
Nos campos floresciam vetiver, capim-limão, patchouli e laranja-amarga. Ao lado delas, espécies nativas como peroba-rosa e bálsamo também revelavam seu potencial para a produção de essências.
Durante anos, aquele perfume viajou pelo oceano e colocou Bonito no mapa internacional de um mercado sofisticado e pouco conhecido da maioria dos brasileiros.
O tempo passou. O ciclo econômico terminou. As plantações desapareceram.
Mas a memória permaneceu viva.
Ela ressurgiu de maneira inesperada durante a pandemia de Covid-19. Com o turismo praticamente paralisado e as atividades da família interrompidas, o neto de José, Marc Zayas, e sua esposa, Yolanda Prantl, olharam para trás em busca de um novo caminho para seguir em frente.
Encontraram muito mais do que uma oportunidade de negócio.
Encontraram um legado.
Na propriedade da família, em Bonito, passaram a percorrer o Cerrado com um novo olhar. Não para repetir a história exatamente como ela aconteceu, mas para reinterpretá-la com respeito à natureza e às tradições locais.
As coletas são feitas de forma responsável, valorizando espécies nativas e plantas cultivadas que carregam propriedades reconhecidas há gerações.
A delicadeza da macela e da clitória encontra a força do barbatimão e da aroeira. O perfume do alecrim se mistura às cores da cúrcuma. Cada ingrediente é escolhido não apenas pelas características cosméticas, mas pela história que representa.
O resultado são sabonetes produzidos artesanalmente, nos quais cada barra reúne muito mais do que óleos vegetais e extratos naturais.
Carrega a memória de uma família, a riqueza de um bioma e a identidade de uma região.
Toda a produção permanece nas mãos da própria família, preservando um processo artesanal que respeita o tempo da natureza e transforma matéria-prima do Cerrado em produtos capazes de despertar lembranças antes mesmo de serem usados.
A Mãos do Cerrado tornou-se mais do que uma marca.
É uma ponte entre passado e presente.
Uma homenagem silenciosa aos pioneiros que descobriram o potencial aromático daquela terra e uma demonstração de que preservar também significa criar novas formas de manter vivas as histórias de um lugar.
Em Bonito, onde a natureza sempre encantou pelos olhos, ela agora também conquista pelo perfume. E prova que algumas histórias jamais desaparecem. Apenas esperam o momento certo para voltar a florescer.
Essa trajetória ganhará novos capítulos entre os dias 13 e 15 de agosto, quando a Mãos do Cerrado participará de dois importantes eventos voltados à gastronomia, cultura e valorização dos produtos regionais: o Cinesur e o Mesa ao Vivo, idealizado pelo chef Paulo Machado.
Será uma oportunidade para apresentar ao público sabonetes que carregam muito mais do que fragrâncias naturais. Em cada peça artesanal há um pouco da história de Bonito, da força do Cerrado e do legado de uma família que transformou memória em empreendedorismo e biodiversidade em cuidado.

