“Os jovens se matavam e a gente não sabia por quê”, diz escritora indígena
Autora Guarani Kaiowá de Dourados reúne poemas inspirados em suicídios, violência obstétrica e conflitos

A primeira poesia de Jadi Ribeiro não nasceu de um romance nem da contemplação da natureza. Nasceu da dor. Foi vendo adolescentes tirarem a própria vida na aldeia, acompanhando a morte da sobrinha após um parto marcado por violência obstétrica e convivendo com ameaças, conflitos e preconceito que a escritora indígena começou a transformar o que sentia em versos.
RESUMO
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Aos 28 anos, Jadi, da etnia Guarani Kaiowá e moradora da Aldeia Jaguapiru, em Dourados, é autora do livro Koa Kuera, lançado em dezembro de 2025, que reúne 15 poemas em português e em guarani. Nesta semana, ela participa da Flib (Feira Literária de Bonito), onde ministra uma oficina de grafismo indígena.
Mas, antes do livro, vieram as histórias difíceis.
"Antigamente morria muito adolescente, a gente não sabia por quê. Depois que eu entrei na faculdade, vi que existia depressão. Foi aí que eu falei: 'Os jovens se matavam porque eles eram depressivos'. Quando a informação chega para nós, acho que a gente consegue atingir mais jovens e crianças", conta.
Ela explica que quase todos os poemas surgiram de episódios reais vividos dentro do território.
"Tem uma poesia inspirada na minha sobrinha. Eu perdi a minha sobrinha porque obrigaram a minha irmã a fazer um parto normal. Ela não ia nascer normal. Quando nasceu, machucou a cabeça. Ela morreu quando estava indo do segundo para o terceiro mês de vida."
Outro poema nasceu depois do assassinato de uma colega indígena que havia acabado de ingressar na universidade.
"Ela passou na faculdade e o companheiro falou que, se ela fosse, ia matar ela. Ela achou que ele estava brincando. Foi para a faculdade, tirou foto, ficou feliz. Quando deu sete horas da noite, caiu nos grupos que ele tinha matado ela de verdade."
As páginas também falam sobre disputas por território, ataques a comunidades e episódios que continuam fazendo parte da rotina de muitas famílias indígenas.
"Queimaram uma casa de reza, tentaram colocar fogo numa casa com um casal dormindo às três horas da manhã. São coisas que acontecem lá. Eu transformei tudo isso em poesia porque acho que isso humaniza o que eu sinto."
Ela diz que escrever acabou sendo uma forma de sobreviver emocionalmente. "São muitos sentimentos, muita coisa acontecendo e eu não consigo digerir. Acho que a poesia traz esse conforto para mim."
Além de escrever, Jadi é uma das fundadoras do coletivo Koa Kuera, formado por mulheres indígenas que levam atividades culturais para crianças em uma área de retomada em Dourados.
No espaço, elas oferecem oficinas de teatro, dança, poesia, batalhas de rima e atividades ligadas à cultura tradicional Guarani Kaiowá.
Mas existe também outro objetivo. "Não é que lá não tenha cultura. O que a gente leva é essa arte dos brancos para o nosso povo. A gente ensina eles a usar essa arte como ferramenta de luta e de resistência."
Segundo ela, fortalecer as crianças é uma forma de enfrentar o preconceito. "Dourados é uma cidade muito preconceituosa. Então a gente está fortalecendo nossa base, que são as crianças, para elas entenderem que não precisam ter vergonha de ser indígenas."
Na Flib, Jadi conduz uma oficina sobre grafismo indígena, mostrando que os desenhos tradicionais carregam significados ligados à natureza e à espiritualidade. "Nosso grafismo é inspirado na natureza, nos animais. Tem grafismo da cobra, da onça, do peixe, da casa de reza."
Ela também faz questão de usar essas pinturas no próprio corpo. "Quando a gente traz o nosso grafismo, a nossa pintura e os nossos acessórios, a gente mostra essa resistência. É uma forma de dizer que a gente está aqui."
Para Jadi, ver pessoas não indígenas interessadas em conhecer essa cultura também representa um avanço. "Quando a gente sente que não está sozinho nessa luta contra o racismo, isso fortalece não só a mim, mas também as crianças que participam das nossas oficinas", finaliza.
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