ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JULHO, QUARTA  08    CAMPO GRANDE 26º

Economia

Com China freando compras, pecuaristas de MS já sentem cautela dos frigoríficos

Cota menor pressiona exportações, pode afetar arroba e leva setor a buscar novos mercados

Por Kamila Alcântara | 08/07/2026 13:17
Com China freando compras, pecuaristas de MS já sentem cautela dos frigoríficos
Carnes prontas para exportação da planta da Friboi de Campo Grande (Foto: Divulgação)

Frigoríficos que dependem mais da China já demonstram cautela na compra de gado em algumas regiões, segundo a Acrissul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul). O movimento ainda não é generalizado, mas acendeu o alerta no setor, depois que a indústria passou a tratar como praticamente esgotada a cota de exportação de carne bovina para o mercado chinês em 2026.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Frigoríficos com maior dependência do mercado chinês já demonstram cautela na compra de gado em Mato Grosso do Sul, após a indústria considerar praticamente esgotada a cota de exportação de carne bovina para a China em 2026, fixada em 1,106 milhão de toneladas. O excedente ficará sujeito a sobretaxa de 55%, elevando o imposto total a 67%. A China representa 35,3% das exportações sul-mato-grossenses e 50% do volume exportado pelo Brasil.

Segundo o painel de monitoramento da indústria da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), Mato Grosso do Sul exportou US$ 3,829 bilhões até junho deste ano. Desse total, US$ 1,353 bilhão teve a China como destino, o equivalente a aproximadamente 35,3% das vendas externas do Estado no período.

O volume embarcado para o mercado chinês chegou a 1,870 milhão de toneladas. Entre os produtos vendidos ao país, a carne bovina desossada congelada aparece como o segundo item mais exportado, com US$ 511,8 milhões, participação de 37,81% nas exportações sul-mato-grossenses para a China. Em volume, foram 79,8 mil toneladas, alta de 68,42% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Nesta quarta-feira (8), em entrevista ao Campo Grande News, o presidente da Acrissul, Guilherme Bumlai, afirmou que a redução na procura por animais já é percebida em parte do mercado. “Em algumas regiões, sim. Frigoríficos com maior dependência do mercado chinês já demonstram mais cautela nas compras. O produtor, apesar da pressão, ainda resiste aos preços ofertados. Ainda não é um movimento generalizado, mas o setor acompanha a situação com bastante atenção”, disse.

A preocupação começou porque a China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina em 2026. O que passar desse volume fica sujeito a uma sobretaxa de 55%. Como a tarifa normal gira em torno de 12%, o imposto total pode chegar a 67%, índice considerado inviável pela indústria para a maioria dos cortes.

O detalhe que complica a conta é o tempo de viagem. A carne embarcada no Brasil leva de 40 a 60 dias para chegar à China. Por isso, embora o governo chinês ainda não tenha declarado oficialmente o preenchimento da cota, frigoríficos e analistas avaliam que o limite já foi alcançado ou está muito próximo disso, considerando cargas que já saíram do Brasil e ainda estão em trânsito.

Também em declaração ao Campo Grande News, Roberto Perosa, presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), afirma que a restrição chinesa reduziu fortemente o espaço para a carne brasileira. “No ano passado nós enviamos cerca de 1,7 milhão de toneladas para a China e nos foi designada, este ano, pela China, uma cota de 1,106 milhão de toneladas. Então são quase 35% a menos, o que impacta o nosso principal comprador, que é a China”, afirmou.

Com China freando compras, pecuaristas de MS já sentem cautela dos frigoríficos
Roberto Perosa, presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) (Foto: Divulgação)

Segundo Perosa, a China responde por cerca de 50% do volume exportado pelo Brasil. Por isso, não há outro mercado capaz de absorver, de uma vez, o mesmo volume. “A China é responsável pela compra de 50% do volume que o Brasil exporta. Então, não há outro destino que possa ser adequado a esse volume de produção”, disse.

A consequência já aparece nas rotinas de alguns frigoríficos. De acordo com o presidente da Abiec, empresas com mais alternativas de exportação reduzem um pouco a produção. Já aquelas com menos destinos disponíveis têm diminuído o ritmo de forma mais forte e, em algumas plantas, adotado férias coletivas.

“Cada decisão dessa é única por empresa, de acordo com a singularidade do negócio de cada uma”, afirmou Perosa.

Em Mato Grosso do Sul, Bumlai avalia que há expectativa de maior pressão sobre a arroba no curto prazo, mas evita cravar uma queda consistente. Segundo ele, isso vai depender de dois fatores: quanto tempo durar a restrição nas exportações para a China e qual será a capacidade do setor de redirecionar a carne para outros países.

“Existe uma expectativa de maior pressão sobre os preços no curto prazo. Porém, ainda é cedo para afirmar que haverá uma queda consistente, pois isso dependerá da duração das restrições e da capacidade de redirecionar as exportações para outros mercados”, afirmou.

Perosa também diz que a arroba já sentiu o movimento. “Houve um recuo nos últimos dias em virtude de a indústria não ter onde alocar todo esse volume e, por isso, diminuir o ritmo de produção. Nós esperamos que a arroba estabilize. Não há motivo para correria ou desespero. Ela deve encontrar um novo patamar, diferente daquele que existia há 15, 20 ou 30 dias”, declarou.

O risco de excesso de carne no mercado interno existe, mas a Acrissul avalia que ele não deve ser tratado como um colapso automático. Parte da produção pode ficar no Brasil e parte pode ser redirecionada para outros países. O problema é que abrir ou ampliar mercados não acontece no ritmo de um botão de aplicativo.

“Esse risco existe, mas não deve ser superdimensionado. Parte da carne pode ser direcionada ao mercado interno e parte para outros países. O importante agora é ampliar mercados para evitar desequilíbrios. Tradicionalmente em julho ocorre uma maior oferta no mercado por parte do pecuarista, para enfrentar os altos custos de produção do inverno”, disse Bumlai.

A Abiec informou que trabalha para ampliar vendas a outros destinos, mas admite que a substituição da China é difícil. Entre os mercados citados por Perosa estão Vietnã, Japão, Coreia do Sul e Turquia. O Vietnã foi aberto recentemente, mas ainda compra pouco. Japão e Coreia do Sul são tratados como mercados importantes, mas dependem de negociações e habilitações.

“Nós estamos prospectando novos mercados. São negociações muito duras, muito difíceis, nas quais damos apoio ao Ministério da Agricultura para que ele faça essa negociação efetivamente”, afirmou o presidente da Abiec.

Outro ponto em discussão é a União Europeia. Segundo Perosa, o bloco questiona a fiscalização brasileira, não o método de produção em si. A entidade diz apoiar o governo federal com informações para tentar comprovar que o Brasil já possui controle sanitário e de rastreabilidade suficientes para retomar o fluxo comercial com aquele mercado.

No mercado interno, os efeitos ainda são incertos. Perosa afirma que cerca de 70% da carne bovina produzida no Brasil fica no próprio país e que as exportações representam o excedente. Com menos espaço para vender à China, esse excedente tende a diminuir. Ainda assim, ele avalia que custos altos, juros elevados e dificuldade de crédito impedem uma queda simples e automática no preço ao consumidor.

Para o pecuarista, o ambiente é de cautela. Bumlai afirma que investimentos podem ser adiados, principalmente os voltados à expansão da produção, até que o setor tenha mais previsibilidade.

“É natural que, diante de um cenário de incerteza, o produtor fique mais cauteloso. Alguns investimentos podem ser adiados, principalmente aqueles voltados à expansão da produção, até que o mercado volte a ter maior previsibilidade”, disse.

A avaliação da Acrissul é que o caso reforça a dependência de Mato Grosso do Sul do mercado chinês. “A China é o principal comprador da carne bovina exportada por Mato Grosso do Sul. Isso torna o Estado mais sensível a mudanças nas compras chinesas, reforçando a importância de ampliar e diversificar os mercados para a carne brasileira”, termina Bumlai.

O Campo Grande News também procurou a Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) e o MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria.7

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.