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Artes

Em busca de vitrine, sertanejos de outros estados se mudam para Campo Grande

Por Ângela Kempfer | 20/09/2011 12:00
Jessica e Ana Carolina ao fundo. Foto: Simão Nogueira.
Jessica e Ana Carolina ao fundo. Foto: Simão Nogueira.

Mato Grosso do Sul tem tantos sucessos nacionais que os sertanejos agora decidiram vir de mudança a espera de projeção nacional. “É só falar que é de Campo Grande que a coisa muda, tem mais peso. Os olhos do Brasil estão voltados para cá”, justifica a cantora Jéssica Queiroz, que há 6 meses deixou de vez Arapua, no Paraná, para tentar o sucesso por aqui.

Há 2 anos entre idas e vindas ao Estado, agora ela decidiu ficar e investir na carreira sertaneja. No apartamento que divide com uma universitária, no bairro Monte Castelo, ela recebe o Lado B ao som de Ana Carolina.

“Canto desde os 9 anos, de tudo, mas hoje a música sertaneja tem mais espaço na minha vida”, avalia a jovem de 20 anos que trancou a faculdade de Marketing e largou o emprego para profissionalizar o sonho.

Atualmente trabalha uma música dela mesma em resposta ao sucesso "Ai se eu te pego", de Michel Teló. "Se você me pegar, vai fazer o quê...", começa a cantarolar.

Os pais bancam o aluguel, mas Jéssica já consegue algum dinheiro fazendo shows até em outros estados. “Vou agora para Rondônia”, lembra. No Paraná, ela já era conhecida, mas nunca se destacou, por isso a mudança de endereço.

Nos planos da cantora está a vida dos ídolos sul-mato-grossenses Luan Santana, Munhoz e Mariano, Maria Cecília e Rodolfo, João Bosco e Vinícius. “Todos saíram daqui, também tenho chance agora”.

O figurino já é o mesmo, short jeans rasgado, camisa xadrez e os cabelos longos, tudo ao estilo Paula Fernandes.

Gravando - Nos estúdios que também se proliferaram pela cidade, são pelo menos 3 novas duplas ou cantores sertanejos por mês, gravando uma faixa ou o CD inteiro.

No Cigerza, há cerca de 3 anos o movimento é assim. As duplas que aparecem gravam na maioria entre duas e três músicas para divulgar o trabalho e buscar investidores.

O dono, Marcelo Cigerza, explica que gravar uma faixa tem o custo médio de R$ 1 mil. O valor muda de acordo com a produção. O pacote com músicos do estúdio tem preço diferente. O custo de disco completo, com 12 faixas, pode sair entre R$ 12 e R$ 16 mil.

Carlos Pereira Junior, do Work Studio – onde o grupo Tradição grava, também atende em média 3 artistas ao mês. O custo da locação, incluindo a equipe de músicos, é de R$ 80 a hora.

Jéssica já gravou músicas compostas por ela mesma e agora finaliza clipe gravado no estúdio que vai divulgar via youtube, a melhor forma de tornar a música popular, diz a moça.

O primo é o maior investidor, uma coisa difícil de conseguir para quem está começando e o empresário vende os shows. “Quando eu disse que vinha para cá ele aceitou na hora me ajudar”, conta Jéssica. As duplas amigas, também têm dado uma força. Ela já teve participações importantes no palco, como de Jads e Jadson, outra dupla sul-mato-grossense com projeção.

Compositor Douglas Diniz, R$ 4 mil por mês com direitos autorais de uma dupla.
Compositor Douglas Diniz, R$ 4 mil por mês com direitos autorais de uma dupla.

Criação - O mercado também movimenta os compositores locais. Marco Aurélio, da dupla Marco Aurélio e Paulo Sérgio, é um dos que mais ganha dinheiro hoje em dia com o sucesso dos sertanejos.

Os dois começaram a tocar em bares em 96, em Campo Grande, mas as composições recentes na voz da gurizada é o que fez Marco Aurélio virar ídolo.

Autor de músicas no topo da lista das mais ouvidas no Brasil, como Amar não é pecado – com Luan Santana, ser apadrinhado por ele é como ganhar na loto para a garotada do sertanejo universitário.

Atualmente os felizardos são Fred e Gustavo, dupla de Goiás que também veio para Mato Grosso do Sul, tocar em bares, e conseguiu a fama com a música de Marco Aurélio, Lendas e Mistérios, gravada junto com Maria Cecília e Rodolfo.

Em entrevista sobre a polêmica de regravações, que fazem músicos em série consquistarem o sucesso, Marco Aurélio disse que trabalha assim, por achar correto.

"Mostro minhas músicas pra todos que me procuram. No caso de algum artista se interessar em gravar, eu ofereço a exclusividade. Há aqueles que não fazem questão de serem os únicos a gravar a música, mas mesmo assim após gravarem, há casos de algum outro artista querer gravar a mesma música, então eu volto a falar da exclusividade com quem gravou primeiro."

Douglas Diniz é outro compositor que lucra com a onda de sucessos em Campo Grande. Tem mais de 200 músicas escritas e com uma dupla diz que consegue R$ 4 mil em média por mês, só em direitos autorais.

"Hoje em Campo grande, com certeza, tem pelo menos umas mil duplas trabalhando. Graças a Deus a gente já consegue viver de música", comenta.

Na lista de desafios pessoais dele está a dupla Alex e Ivan, os violeiros de Bodoquena, fãs da música de raiz, o que é uma condição para conquistar o apoio de Douglas. "Qualquer um consegue escrever esse sertanejo universitário, mas eu não gosto".

A mais nova pupila do compositor, a cantora Michelle, tem inspirado o músico. “Esses dias comecei a compor com ela lavando a varanda e quando terminou a música já estava pronta”, ri.