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Campo Grande, Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

29/01/2017 07:25

"Morra jovem e deixe belo cadáver para trás" era dito que não parecia ruim

Richie Beauvais*
A lista de meus ídolos é grande e inclui Jim Morrison.A lista de meus ídolos é grande e inclui Jim Morrison.

Ao completar 28 anos, em tom de chacota, eu fiz a pergunta aos meus amigos virtuais em uma rede social. “Sobrevivi à ‘Maldição do Rock’, e agora?”. Utilizando outra referência, completei: “será que sobrevivo à ‘Maldição do Samba?’”.

De fato, não tive o mesmo destino de alguns dos meus ídolos, que findaram suas vidas tragicamente - o chamado “Clube dos 27”. A lista é grande: Robert Johnson (blues man), Brian Jones (Rolling Stones), Janis Joplin, Jim Morrison (The Doors), Jimmy Hendrix, Kurt Cobain (Nirvana), Amy Winehouse, Jean-Michel Basquiat (artista plástico), para citar alguns, entre tantos outros.

Mal percebi eu que, nestas piadas aparentemente “cults”, estava declarando duas verdades subliminares: eu não tinha projeto de vida algum e, de certa forma, sempre pensei que morreria jovem. “Morra jovem e deixe um belo cadáver para trás”, era um dito que não me parecia ruim.

Aos 14 anos eu queria uma ideologia tanto quanto Cazuza cantava querer, e elegi como sendo meus os heróis que eram os dele - e que morreram de overdose.Elegi a ele também como herói, que para mim havia morrido de uma “overdose de vida”. Não tardou para que encontrasse uma ideologia com a qual eu me enquadrasse – por mais paradoxal que seja ter de se “enquadrar” para demonstrar sua revolta e desprezo pelo “sistema”.

Nesta época Romeu tinha sido interpretado por Di Caprio em uma versão da Tragédia de Shakespeare que contava com armas de fogo niqueladas, carros low rider e jovens praianos vestidos em camisas floridas, ao melhor estilo Hawaii.

Brega, porém excitante! Realmente – à época – não parecia tão ruim a ideia de deixar a vida cedo, principalmente se houvesse uma virada dramática como na história imortalizada por Shakespeare.

Vivi tendo “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll” como lema, apesar de ter feito bem menos o primeiro do que gostaria, bem mais o segundo do que poderia e de gostar de Samba tanto quanto de Rock (algo que só admiti à medida que os anos foram passando).

14 anos haviam passado e eu estava com o dobro da idade e com metade da razão que tinha quando adolescente. Vá lá aos 14 acreditar que será eterno, ou o contrário, que morrerá de forma apoteótica! Tinha completado 28 anos, ou “quase 30”, como me alertou o relógio interno. Eu tinha um filho recém-nascido do qual eu estava separado por uma sucessão de irresponsabilidades minhas, que deram fim ao meu relacionamento com sua mãe. Além disso, eu estava desempregado e - como aos 14 - residia com a minha mãe e dependia financeiramente dela. Ainda assim eu me recusava crescer.

Foi com uma quantidade considerável de álcool, na casa de uma amiga com piscina e uma bela coleção de CDs para serem explorados – exatamente como nas festinhas de adolescente quando os pais não estavam – que eu me deparei com o disco “Marcelo D2 canta Bezerra da Silva”. A grande e querida amiga em questão pôs para tocar uma faixa e me abraçando disse: “essa música é nossa cara! Presta atenção!”.

E D2 cantou Bezerra: “se não fosse o Samba quem sabe hoje em dia eu seria do Bicho...”.
Seja lá o porquê, mas eu acatei sem pestanejar. Ela tinha razão, era a minha cara! Não morri na “Maldição do Rock” porque eu tinha mesmo a “Maldição do Samba”, como canta D2 em outra música, esta de sua autoria.

O “Samba” que me salvou do “Bicho” foi minha própria profissão e a busca por tentar ser “um ser humano digno, aconteça o que aconteça”, como canta D2 em sua “Maldição”. Isso me garantiu uma sobrevida desde a constatação de que eu já não tinha mais a desculpa dos 27. Em que pese que dignidade seja um conceito bastante elástico.

Os “quase 30” viraram 30 e neste meio tempo a mesma sobrevida que eu consegui ajudou a mascarar o problema central: eu continuava sem um projeto de vida, sem uma missão, sem visão de futuro e principalmente, com valores bastante distorcidos para um cara de 30, para um pai de um “guri” maravilhoso.

Agora com o aporte e contribuição de algumas poucas e excelentes pessoas, eu posso dizer que tenho um projeto para minha vida e que a única condição necessária para coloca-lo em prática é o desejo de mudar o rumo da prosa.

Não mudei meus gostos ou minhas canções. Continuo amando Cazuza tanto quanto antes, principalmente quando ele canta o samba de Cartola: “mal começaste a conhecer a vida...”. Apesar dos 30.

Aguardo contribuições e espero vocês no próximo artigo!

* Richie Beauvais - ou “Ritch Bové” como costuma ser chamado após tentar corrigir a pronúncia do seu sobrenome – é um pseudônimo ou um alterego (!). Tem 30 anos, é jornalista, pai e após “um período sabático de autoconhecimento” em uma Comunidade Terapêutica para tratamento de sua dependência química decidiu escrever sobre o assunto. É “viciado” em música, revistas em quadrinhos, séries, filmes e Carnaval. Escreve semanalmente na coluna “Fim de Carreira” sobre dependência química e assuntos correlatos (ou não).



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