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Campo Grande, Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

16/01/2017 06:25

“Sou o avesso do avesso”, mas nenhuma droga que consumi era de difícil acesso

Richie Beauvais*
“Flerte Fatal” da Ira! música que fala dos dias de luta contra a dependência e da vidas que terminaram de maneira trágica.“Flerte Fatal” da Ira! música que fala dos dias de luta contra a dependência e da vidas que terminaram de maneira trágica.

Esse avesso todo é de Nasi, da banda Ira!, mas é também de muitas (milhões de) pessoas. Quando escreveu a música “Flerte Fatal” ele sabia exatamente do que estava falando. Nasi, ou Marcos Valadão Rodolfo, tem uma história pessoal irregular, instável – como é a vida de todo dependente químico.

Como vocalista da Ira! se mantém entre os grandes nomes do Rock Nacional, ou segundo ele mesmo em sua autobiografia e sem falsa modéstia, com “uma tendência das pessoas de nos chamarem de "os últimos guardiões do verdadeiro rock’”. Por causa das drogas, quase pôs tudo a perder diversas vezes. De seus dias de luta contra a dependência, ficaram marcas e uma das melhores músicas sobre o tema.

A música trata da experiência do próprio autor e cantor, mas não só. Ela fala de vidas perdidas que terminaram de maneira trágica: “Tanta gente hoje descansa em paz. Um rock star agora é lenda”.

O clipe, dirigido por Selton Mello, trata de maneira alusiva o que acontece de maneira fria e destrutiva.

O flerte, em geral, não ocorre com as drogas ilícitas e de maneira soturna. Ele se dá às claras e dele podem derivar todos os outros. É fatal, pois não há como saber se você não será atingido por este flerte. “É sempre gente muito especial”, canta Nazi. Afinal, não são todas as pessoas que desenvolvem a dependência química. Há aqueles que, apesar do uso frequente de substâncias pesadas, o fazem de maneira abusiva, mas “recreativa”.

Nenhuma das drogas que eu consumi era de difícil acesso, e pior, a primeira com a que comecei minha longa caminhada rumo à dependência sempre esteve em todas as esquinas. Aprendi a beber ainda na adolescência e nunca mais parei. Experimentei maconha e até insisti, mas nunca consegui curtir a “brisa”. Ainda que eu prefira “uma gelada”, ou um Bourbon, a verdade é que bebi de tudo e misturei sem dó. Moderação nunca foi o meu forte.

Por último eu conheci a cocaína. A sua mistura com o álcool me tornou sensacional, era o que eu sentia. Este era meu autoengano. “Que vai te consumir em busca de prazer individual e esse flerte é o flerte fatal!”.

A verdade é que após meu longo “período sabático de autoconhecimento”, fui diagnosticado com TDAH, o Transtorno de Déficit de Atenção – Hiperatividade. Na bebida eu encontrava o alívio para a ansiedade e na cocaína o foco que me faltava. Ambos os sintomas são componentes do TDAH. Passei anos me “automedicando” com drogas lícitas e ilícitas até perder o controle. Não estou justificando meu uso de drogas, é apenas uma constatação.

Foi preciso que me abrissem os olhos para o fato de que eu não tinha mais controle algum e ainda assim, foram poucas as pessoas no meu entorno que tiveram esta percepção e se atentaram para o fato de que o Richie, que com eles convivia, havia ultrapassado “a linha entre o prazer e a dependência”, que é tênue e ninguém conhece exatamente onde ela se encontra.

Não há como saber qual é o limite entre o fim do uso abusivo e o início da dependência – e confesso que até hoje, mesmo após meses de tratamento, que me pego pensando se realmente cruzei tal linha.

Descobri que o viciado em remédios controlados que consegue receitas falsas, o alcoólico que toma uísque importado diariamente em sua bela e luxuosa mansão, a pessoa em condição de rua e o músico “excêntrico” estão no mesmo barco. Há apenas uma diferença: o fator “ainda”.

A dependência química, se não tratada, é a doença do “ainda”. Se a pessoa ainda não fez algum absurdo para conseguir fazer uso de sua substância, ela irá fazer. É uma questão de progressão da doença. “É amor e ódio”, afirma Nasi.

Para nossa alegria Valadão não chegou ao ponto “da loucura que faz o cara dar um tiro na cabeça”. Ele continua sendo uma lenda do “bom e velho Rock’n’Roll” e um vencedor em relação às drogas.

“Sobrevivemos a tudo nessa estrada. Sobrevivemos ao excesso de álcool e drogas. (...) Todas as dificuldades que nós passamos criaram na gente uma coisa que se chama fé”, confidencia Nazi.

E por fim eu emendo com Valadão: “O rock é ao mesmo tempo nosso pai e nosso padrasto”.

Vamos continuar falando de comportamento, drogas, rock stars, lendas e fé. Até a próxima!

*Richie Beauvais - ou “Ritch Bové” como costuma ser chamado após tentar corrigir a pronúncia do seu sobrenome – é um pseudônimo ou um alterego (!). Tem 30 anos, é jornalista, pai e após “um período sabático de autoconhecimento” em uma Comunidade Terapêutica para tratamento de sua dependência química decidiu escrever sobre o assunto. É “viciado” em música, revistas em quadrinhos, séries, filmes e Carnaval. Escreve semanalmente na coluna “Fim de Carreira” sobre dependência química e assuntos correlatos (ou não).

 



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