Ministério aposta em carteira ferroviária para consolidar MS como polo logístico
Retomada da Suzano e leilão da Malha Oeste garantem ao Estado posição estratégica no transporte por trilhos
O Ministério dos Transportes quer consolidar, ainda neste ano, uma carteira de projetos de transporte ferroviário em Mato Grosso do Sul. O movimento ganhou força após o lançamento da pedra fundamental da Ferrovia do Projeto Sucuriú, da Arauco Celulose Brasil, em Inocência, na última sexta-feira (6). Sob liderança do investimento privado, principalmente da indústria da celulose para o escoamento da produção, as ferrovias são apontadas como uma alternativa mais barata, eficiente e sustentável para o transporte de cargas.
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O Ministério dos Transportes planeja consolidar uma carteira de projetos ferroviários em Mato Grosso do Sul, fortalecendo o estado como polo logístico. A iniciativa ganhou impulso após o lançamento da Ferrovia do Projeto Sucuriú, da Arauco Celulose Brasil, em Inocência. Entre os projetos autorizados pela ANTT estão os investimentos da Suzano, estimados em R$ 2,56 bilhões, da Eldorado Brasil Celulose, com R$ 990 milhões, e o leilão da Malha Oeste, previsto para abril. O ministério projeta que as obras reforçarão o protagonismo do estado na expansão ferroviária brasileira, gerando empregos e desenvolvimento regional.
A lista de projetos ferroviários já autorizados pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) no Estado inclui, além do empreendimento da Arauco, a retomada dos projetos da Suzano, os investimentos da Eldorado Brasil Celulose e o leilão da Malha Oeste, cujo edital segue previsto para abril, conforme a lista do ministério encaminhada ao Campo Grande News.
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A ANTT informou que entre as demais autorizadas, a Eldorado já obteve a declaração de utilidade pública, o que lhe permite promover as desapropriações necessárias à implantação de sua ferrovia.
Para a pasta, “as obras previstas nas autorizações ferroviárias reforçam o papel de Mato Grosso do Sul como protagonista na nova fase de expansão ferroviária brasileira”.
Segundo dados do ministério, a proposta da Suzano envolve dois trechos ferroviários, com investimentos estimados em R$ 2,56 bilhões, interligando Ribas do Rio Pardo, Inocência e Três Lagoas, totalizando 136 quilômetros de extensão. Os projetos ficaram parados por cerca de três anos, apesar de terem recebido aval da ANTT em janeiro de 2022. Procurada pela reportagem, a Suzano informou, por meio da assessoria de imprensa, que não irá se manifestar sobre o tema.
Outro projeto é o da Eldorado Brasil, que prevê investimento de R$ 990 milhões para a construção de uma malha ferroviária de 88 quilômetros entre Três Lagoas e Aparecida do Taboado, para o escoamento de celulose. Ainda sem data oficial para início das obras, o empreendimento conta com financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) aprovado no fim de 2025, no total de R$ 1,05 bilhão. Durante a fase de implementação, a estimativa é de geração de mais de 3 mil empregos diretos e indiretos.

Já o investimento da Arauco – de R$ 2,4 bilhões previstos – marca a implementação da primeira “shortline” (ferrovia curta) do Estado, batizada de EF-A35. É também a primeira autorização ferroviária nesse modelo concedida pelo Marco Legal das Ferrovias, simbolizando um novo momento de expansão da malha ferroviária brasileira por intermédio da iniciativa privada.
O Ministério diz que o projeto é estratégico para o desenvolvimento regional indo além da logística, com reflexos na geração de empregos, no fortalecimento da cadeia produtiva local, na atração de novos investimentos e na consolidação de Mato Grosso do Sul como polo industrial e logístico do Centro-Oeste.
O ramal terá 45 quilômetros de extensão, além de nove quilômetros internos à planta industrial, seguindo paralelamente às rodovias MS-377 e MS-240. Os trilhos farão ligação direta entre a fábrica da multinacional chilena, em construção em Inocência, e a Rumo Malha Norte, que cruza Mato Grosso do Sul e segue até o Porto de Santos, em São Paulo.

Projetos ferroviários no Brasil e a Malha Oeste - De acordo com o ministério, a carteira nacional de projetos ferroviários prevê, para 2026, oito leilões e R$ 140 bilhões em novos investimentos. O impacto potencial pode chegar a R$ 600 bilhões, considerando rotas estratégicas e a ampliação da malha ferroviária em diferentes regiões do país. O leilão da Malha Oeste está incluído nesse calendário.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, anunciou que o banco lançará uma chamada pública para projetos de infraestrutura, com destaque para o transporte sobre trilhos. O edital seguirá os moldes de uma chamada realizada em 2025, que destinou R$ 4,3 bilhões à descarbonização e à transição energética.
Para acelerar os projetos, o BNDES avalia modernizar mecanismos de crédito, ampliar prazos de financiamento e períodos de carência.
O trecho a ser leiloado envolve 1.593 quilômetros, com previsão de Capex de R$ 35,7 bilhões para recuperação e operação da ferrovia. O governo estuda a possibilidade de realizar o leilão por lotes.
Mesmo diante do ceticismo de especialistas, o ministério mantém o cronograma, com publicação do edital prevista para abril de 2026. Os estudos estão em fase final e, após concluídos, serão encaminhados ao TCU (Tribunal de Contas da União). A expectativa é que o leilão ocorra na B3 no segundo semestre de 2026, com o objetivo de tirar a ferrovia de um cenário de abandono e transformá-la em um corredor de exportação, impulsionando a economia estadual.
Segundo o ministério, o roadshow da carteira ferroviária está em andamento, com encontros realizados em janeiro e fevereiro, podendo ser ampliados conforme o interesse do mercado. Mesmo inoperante, a pasta afirma que há demanda reprimida e que a intenção é recapacitar a malha para viabilizar o transporte de celulose, granéis vegetais, carga geral e combustíveis, com ganhos de eficiência, competitividade e sustentabilidade.
Avaliação de especialistas - O diretor da FGV Transportes, Marcus Quintella, doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, ressalta que a recuperação da ferrovia Malha Oeste pode ge benefícios expressivos ao Estado. O leilão, porém, precisa ser “bem-sucedido”.
“A ferrovia operacional transformaria Mato Grosso do Sul em um polo logístico relevante, com redução de custos, menos caminhões nas rodovias, menos acidentes, maior eficiência energética e menor poluição”, afirma.
Apesar disso, Quintella mantém uma avaliação cautelosa quanto à viabilidade da concessão, diante do histórico da ferrovia, devolvida no passado por desequilíbrio entre investimentos exigidos e baixa demanda. Segundo ele, ferrovias dependem de uma “carga âncora” – fluxo robusto e contínuo que sustente a operação. “Sem carga garantida e sem segurança de acesso ao Porto de Santos, a conta não fecha”, diz.
Outro ponto crítico, segundo ele, é a garantia do direito de passagem pela Malha Paulista, hoje operada pela Rumo. “Sem regras claras de acesso, tarifas e janelas de circulação, há risco de conflito. Se a Rumo arrematar a Malha Oeste, esse problema praticamente desaparece, mas não há garantia de que isso aconteça”, avalia.


