Conflito em fazenda de Sidrolândia divide lideranças terenas de MS
Enquanto o Conselho da etnia apoia mobilização, 9 caciques da região afirmam não ter participado da decisão
Impasse sobre a Fazenda São Sebastião, em Sidrolândia, a 71 quilômetros de Campo Grande, reacendeu o debate sobre a demarcação da Terra Indígena Buriti e expôs divergências entre lideranças terenas de Mato Grosso do Sul. Enquanto um grupo defende a ação como forma legítima de pressionar o governo federal pela conclusão do processo demarcatório, outro afirma que a mobilização ocorreu sem consulta à maioria das aldeias envolvidas na disputa territorial.
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A ocupação da Fazenda São Sebastião, em Sidrolândia (MS), reacendeu o debate sobre a demarcação da Terra Indígena Buriti e expôs divisões entre lideranças terenas. Enquanto o PT afirma que nove caciques não foram consultados, o Conselho do Povo Terena apoiou a ação e rebateu críticas. A PM registrou danos a maquinários, furtos e incêndios durante a ocupação, e deputados petistas realizaram reunião com lideranças para apurar o caso.
O conflito começou no domingo (14) e voltou a registrar movimentação de indígenas na manhã desta segunda-feira (15). Conforme o Ministério dos Povos Indígenas, a comunidade haviam deixado o local após mediação da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), mas retornaram posteriormente. A PM (Polícia Militar) enviou equipes à região para verificar a situação e informou ter atuado para conter invasões, vandalismo e crimes ambientais.
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Segundo a corporação, durante a ação foram registrados danos a maquinários agrícolas, furto de insumos, focos de incêndio e derrubada de árvores utilizadas como barricadas. A PM afirmou ainda que equipes do Batalhão de Choque, Batalhão Rodoviário e Batalhão Rural permanecem na região e que as informações coletadas serão encaminhadas à Polícia Civil para investigação.
Diante da repercussão do caso, o deputado federal Vander Loubet (PT) e o deputado estadual José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, reuniram-se na tarde desta segunda-feira (15) com caciques e lideranças indígenas de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti.
Antes do encontro, Zeca divulgou nota na qual afirmava que nenhuma "outra liderança da região teria conhecimento prévio da ocupação". O parlamentar atribuiu a mobilização ao cacique Rodrigues Alcântara, secretário de Assuntos Indígenas da Prefeitura de Dois Irmãos do Buriti, e afirmou que ele integra um grupo alinhado politicamente a lideranças da direita sul-mato-grossense.
Vander também disse ter estranhado a ação e afirmou que as informações apuradas até então indicavam um "episódio isolado". "Fizemos uma apuração inicial e, até o momento, não constatamos lideranças do PT envolvidas, até porque temos adotado uma posição firme contra ocupações, buscando sempre privilegiar o diálogo e a construção de consensos. E, se forem identificados, vamos defender punição", disse o deputado.
Após a reunião, o PT divulgou nota na qual aponta que nove caciques e lideranças das aldeias Novo Buriti, Água Azul, André, 1º de Maio, Barreirinho, Lago Azul, Olho d'Água e Recanto disseram não ter participado da articulação nem terem sido consultados.
O grupo reafirmou apoio à demarcação da Terra Indígena Buriti, mas criticou a forma como a ação foi conduzida e classificou o episódio como isolado. Segundo o partido, as lideranças também repudiaram atos de depredação registrados nas fazendas São Sebastião e Água Clara.
O que diz o Conselho – A versão apresentada pelo PT foi contestada pelo Conselho do Povo Terena. Em nota divulgada nesta segunda-feira, a entidade repudiou declarações de Zeca do PT e manifestou apoio ao cacique Rodrigues Alcântara.
O documento afirma que a discussão central não deve ser reduzida à disputa entre direita e esquerda, mas sim à garantia dos direitos territoriais indígenas. O conselho também classificou as críticas como uma "tentativa de instrumentalização política das comunidades indígenas para fins eleitorais". "O povo Terena possui autonomia política e não admite ser tratado como massa de manobra por qualquer grupo ou partido", diz trecho da nota.
Ao Campo Grande News, o coordenador do Conselho do Povo Terena, Célio Fialho, informou que a entidade tinha conhecimento desde o início. "Essa foi uma iniciativa da própria população, uma vez que o processo demarcatório está parado. A área já foi identificada, já existe portaria declaratória, mas o processo não avança", declarou.
Segundo Célio, não havia necessidade de consultar previamente todas as aldeias da região. "Quando os moradores de uma aldeia tomam uma decisão, não necessariamente precisam da ciência ou da participação de todas as outras aldeias", afirmou.
Célio também rebateu a associação da mobilização a grupos políticos. "Essa mobilização não tem relação com política partidária. Esse é um direito nosso garantido pela Constituição de 1988", disse.
O coordenador ainda criticou a postura do PT estadual e afirmou que o partido tenta transformar uma pauta territorial em disputa eleitoral. "O PT de Mato Grosso do Sul não tem legitimidade para falar em nosso nome", declarou.
"Nós temos muito a agradecer ao governo Lula pela criação do Ministério dos Povos Indígenas e por garantir autonomia para que os próprios indígenas possam lutar pelos seus direitos. Temos representantes legítimos, como o ministro Eloy Terena. Ele conhece a nossa luta, participou dela e pode falar em nosso nome", pontuou Célio.
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