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Comportamento

“Alphaville dos pobres”, nome é único luxo na dureza do Alfavela

Lugar de miséria e esperança, Alfavela é nome bem-humorado dado por moradores a uma comunidade no Portal Caiobá

Por Lucas Mamédio | 25/02/2021 06:59
Leonildo Farias morador mais antigo e autor do nome "Alfavela". É para ajudar ou lascar com a gente. (Foto: Kísie Ainoã)
Leonildo Farias morador mais antigo e autor do nome "Alfavela". É para ajudar ou lascar com a gente. (Foto: Kísie Ainoã)

A tragicomédia é um subgênero teatral híbrido, que mistura tragédia e comédia, drama, farsa, etc... Nos enredos desse tipo, a seriedade da desgraça humana é quebrada pelo humor situacional, nos colocando perto do paradoxo da vida, onde nos equilibramos entre sorrisos e lágrimas, quando não, tudo isso junto.

Na tragédia da miséria, o humor surge como filtro das dores da pobreza. Aqui em Campo Grande, lá no finzinho do bairro Portal Caiobá 1, está a “Alfavela”, nome dado pelos moradores à comunidade com cerca de 50 famílias. O nome é uma adaptação do Alphaville, uma das marcas de condomínio de luxo mais famosas do Brasil, inclusive em Campo Grande.

Evaldo Pereira da Silva usa ponte improvisada que instalou para ter acesso a sua morada.(Foto: Kísie Ainoã)
Evaldo Pereira da Silva usa ponte improvisada que instalou para ter acesso a sua morada.(Foto: Kísie Ainoã)
Barracos são de madeiras reaproveitadas. Cerca viva esconde a miséria com que convive os moradores. (Foto: Kísie Ainoã)
Barracos são de madeiras reaproveitadas. Cerca viva esconde a miséria com que convive os moradores. (Foto: Kísie Ainoã)

Localizada na Rua Poética, uma via estreita e longa, os barracos ficam todos amontoados numa extensa fila indiana que não dá para ver o fim de uma ponta a outra.

A Rua Poética tem versos tortos, cheia de sulcos, crateras, pedras, lixo. Quando chove vira um córrego enlameado, que leva angústia e desespero aos moradores, assim como poemas. E no dia seguinte, as madeiras mofadas, o chão sujo e uma única vontade: ir embora, e nem precisa ser para o Alphaville.

Esse é o maior desejo do catador de reciclagem Evaldo Pereira da Silva, que ostenta sua paixão pelo Flamengo num boné. Morador da comunidade há oito anos, Evaldo sonha com o dia em que terá sua casa própria, longe do sofrimento diário, até hoje difícil de se acostumar. “Isso não é vida, a gente fica porque é nossa única alternativa.

Paula da Silva: "Quando o céu fecha, já fico assustada" . (Foto: Kísie Ainoã)
Paula da Silva: "Quando o céu fecha, já fico assustada" . (Foto: Kísie Ainoã)

A cratera em frente a casa de Evaldo é tão grande que ele fez uma pequena ponte para sair dela. Dentro do mesmo contexto, o morador reclama da truculência policial.

Segundo ele, no dia anterior ao que a reportagem visitava a comunidade, policiais o humilharam com xingamentos por estar com dois aparelhos de televisão desmontados no quintal.

“Me chamaram de nóia, putinha de cadeia, sendo que eu achei essas televisões na rua, e nunca tive passagem”.

Uma pequena roda de moradores está reunida bem onde a favela começa, ou termina, enfim, em uma das pontas da rua. Paula Correia da Silva, de 28 anos, mora com o esposo e três filhos na Alfavela. Ela é uma das líderes da comunidade.

Ostentando seu cabelo rosa choque, Paula fala com preocupação dos dias de chuva. “Quando o céu fecha, já fico desesperada”, ela ainda nos mostra um vídeo de como fica sua casa em dias de chuva, com água corrente, como de um rio.

Paula e a família. É tanta água que parece rio. (Foto: Kísie Ainoã)
Paula e a família. É tanta água que parece rio. (Foto: Kísie Ainoã)

O serralheiro Ederson Varela da Silva, de 40 anos, teve o carro levado pela enxurrada. “Isso aqui não é vida, nós estamos de improviso, porque não pagamos energia e imposto, essas coisas, mas a verdade mesmo é que queremos é um lugar sossegado pra viver”.

A área de lazer de um condomínio como o Alphaville tem no mínimo menos que quadras esportivas, piscinas, parquinhos para as crianças. Na Alfavela, por enquanto, o único lazer das crianças e a bolinha de gude, ou bolita, que está sendo praticado pelos primos Henrique e Giovani enquanto conversamos com os adultos.

O campo de futebol ao fundo, em um lote privado, está praticamente abandonado. Só se sabe que é um, por conta das traves ainda em pé.

Na outra ponta da rua está a casa do criador do nome, seu Leonildo Miguel de Farias, 58 anos, ou apenas “Farias”. O alagoano é um dos moradores mais antigos e que ostentava até pouco tempo em sua casa uma placa com o nome “Alfavela”, de onde baseamos a grafia usada na reportagem.

Sem serviço público. Rua da Alfavela tem barro na época das chuvas e poeira nos dias de sol. (Foto: Kísie Ainoã)
Sem serviço público. Rua da Alfavela tem barro na época das chuvas e poeira nos dias de sol. (Foto: Kísie Ainoã)

Farias mora com esposa e dois filhos. Acometido por sequelas graves de uma fratura no tornozelo e por um inchaço na barriga, causado pelo problema crônico na vesícula, o “padrinho” da Afavela nos questiona se nossa reportagem é para ajudar ou para “lascar” com a comunidade. Ao que ele mesmo responde: “Lascar mais como, né?”, ri.

Para seu Farias a vida na Alfavela é tranquila, principalmente pela solidariedade interna que se consolidou ao longo dos anos, mas admite que, apesar do humor, a felicidade mora mais perto do Alphaville do que da Alfavela.

“Rapaz eu nunca foi lá, nem imagino, mas também sei que eles (moradores do Alphaville) nem imaginam como é aqui. Sorte a deles”.

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