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Comportamento

Aos 75 anos, nem pé “chulezento” faz Julce deixar de ser manicure

Com uma simpatia exemplar, Julce é manicure há 54 anos e sente o maior orgulho da sua profissão

Por Thailla Torres | 08/01/2021 06:45
Apaixonada pela profissão, não há perrengue nessa vida que faça Julce deixar de ser manicure (Foto: Paulo Francis)
Apaixonada pela profissão, não há perrengue nessa vida que faça Julce deixar de ser manicure (Foto: Paulo Francis)

Há quem leve um susto ao descobrir que a manicure Jucelina Rodrigues de Souza, que trabalha em salão da Rua José Antônio, tem 75 anos. Sua história começou há 54 anos, quando precisou aprender alguma profissão e decidiu fazer unhas. Mas o melhor do atendimento é ouvir as histórias de uma mulher tão figura e que se orgulha da profissão apesar dos perrengues.

Quando uma amiga de profissão contou que uma “senhorinha” ainda fazia unhas como ninguém no Centro, eu senti que precisava ir pessoalmente conhecê-la. Cheguei no salão perguntando por ela que logo atendeu e disse que havia horário disponível.

Julce de trancinhas atendendo e contando sua história ao Lado B (Foto: Thailla Torres)
Julce de trancinhas atendendo e contando sua história ao Lado B (Foto: Thailla Torres)

Julce, como prefere ser chamada, estava de penteado “Maria Chiquinha” com tranças. Fofa no jeito de falar e andando tranquilamente pelo salão, ficou difícil acreditar no primeiro momento que alguém que há décadas trabalha numa posição tão prejudicial à coluna tem toda essa disposição.

Logo me levou para uma salinha nos fundos do salão, localizado numa residência bem antiga. A cadeira dos clientes é mais alta que as tradicionais para que ela não fique tão curvada na hora de fazer os pés. “Sabe como é, a coluna da gente não aguenta mais”, diz antes de qualquer indagação.

Separando a toalhinha, os acessórios, segundo ela, todos esterilizados e os esmaltes novos, Julce inicia o atendimento com uma simpatia exemplar, coisa rara em alguns salões por aí.

Ela conta que nasceu em Campo Grande. Filha caçula de nove irmãos, foi a necessidade de aprender uma profissão que a levou para a vida de manicure. Tudo começou quando trabalhou um período na casa de Manoel de Barros, lembra. “Fiquei um tempo lá cuidando da casa quando eles precisaram viajar, uma prima minha já trabalhava com a dona Stella. Quando ela chegou de viagem viu que eu precisava trabalhar e decidiu me ajudar”.

Julce fazendo os pés de um de seus clientes (Foto: Paulo Francis)
Julce fazendo os pés de um de seus clientes (Foto: Paulo Francis)

Foi dona Stella, esposa do poeta, que colocou Julce para trabalhar em um salão de beleza próximo a casa dela. “Na época eu falei que única coisa que sabia fazer no cabelo era bob”.

Julce começou no salão lavando cabelos, depois aprendeu fazer pinturas, penteados e permanentes até aprender a fazer unhas. Não demorou muito para começar a atender os clientes fieis do salão de beleza. “Eu tinha 20 anos quando isso aconteceu".

Um amor a fez mudar de cidade naquele ano, mas voltou pouco tempo depois grávida do primeiro e único filho que tem até hoje. A separação veio à tona no nascimento do bebê e Julce voltou a fazer unhas pela cidade. Retomou a profissão em uma barbearia antiga na região Central, do seu Moreira, que atendia políticos e empresários importantes de Campo Grande, segundo ela. “Meu primeiro cliente foi seu João Elias Zahran. Ele fez muita unha comigo”.

À época, os salões mais tradicionais da cidade pipocavam com homens que faziam as unhas. “Eu atendia mais homens do que mulheres naquele tempo. Os homens eram vaidosos. Fazer as unhas era sinônimo de cuidado, de higiene".

A profissão rendeu muitos clientes, histórias e “buxixos”. “Na cadeira eu ouvia de tudo, mas ficava quietinha”.

Durante os anos de profissão fez especializações, também chegou a trabalhar em cargo comissionado no governo estadual durante 10 anos, mas quando foi exonerada retomou a vida de manicure e não parou mais.

Questiono os perrengues durante os 54 anos de profissão e Julce cai na risada. “Olha minha filha, já peguei muito pé terrível nessa vida. Mas a maioria dos meus clientes eram muito cuidadosos, mas, sim, já tive muito pé com chulé no meu colo. Essa semana mesmo atendi uma amiga que só por Deus”, diz bem-humorada.

Julce atende em salão da Rua José Antônio (Foto: Paulo Francis)
Julce atende em salão da Rua José Antônio (Foto: Paulo Francis)

Com o tempo a coluna também pediu socorro. “Sinto muitas dores. Tenho artrite. Remédio? Não, esse eu não tomo, graças a Deus”.

Hoje o ritmo de trabalho é menor, o que ela lamenta. “Tenho força pra atender muita gente. Se Deus me permitir ainda quer ser manicure por muitos anos. Mas com essa pandemia está difícil”.

Julce trabalhava em outro salão no início da pandemia, mas foi dispensada. Hoje ela trabalha no salão de um primo que cedeu uma sala para seus atendimentos, além disso, ela também continua com atendimentos a domicílios na casa de clientes mais antigos. “Tem gente que até fala que não tenho mais idade, que eu deveria descansar. Mas eu não consigo. Se eu parar fico doente. Minha vida é isso aqui”.

Julce atende no salão Ateliê do Cabelo, que fica Rua José Antônio, 563 – Centro.

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