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Comportamento

Após 59 anos, pesquisa descobre cópias do 1º filme da Capital

Investigação mostra que o longa Paralelos Trágicos "sobreviveu" ao incêndio do Cinema Acapulco

Por Natália Olliver | 28/04/2026 14:39
Após 59 anos, pesquisa descobre cópias do 1º filme da Capital
Investigação mostra que o longa “Paralelos Trágicos” não foi queimado no incêndio do Cinema Acapulco (Foto: Irineu Higa)

O que parecia lenda de cinéfilo finalmente deixou de ser. Depois de 59 anos “perdidas”, cópias do 1º filme campo-grandense de ficção, “Paralelos Trágicos”, foram encontradas. Quem fez o milagre foi o jornalista e escritor Rodrigo Teixeira, através da pesquisa que batizou de “Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos”. A investigação reúne 215 matérias publicadas ao longo de seis décadas e coloca um ponto final na narrativa de que o filme dos irmãos Lahdo, que custou R$ 80 milhões de cruzeiros, teria desaparecido para sempre.

RESUMO

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Após 59 anos dado como perdido, um dos originais do primeiro filme campo-grandense de ficção, "Paralelos Trágicos", foi encontrado pelo jornalista Rodrigo Teixeira. A obra dos irmãos Lahdo, lançada em 1967, está preservada na Cinemateca Brasileira desde 1989. Um segundo material em 16 milímetros, guardado pelo produtor Bernardo Lahdo, também foi revelado. O catálogo digital com 215 matérias de seis décadas foi lançado na UFMS.

Além de resgatar a história do longa, ele fez um catálogo digital que serve como base de estudos para quem quiser conhecer parte do cinema feito aqui na época do lançamento do filme, em 1967. Rodrigo conta que o filme não sumiu e que duas cópias dele estão preservadas na Cinemateca Brasileira desde 1989.

Após 59 anos, pesquisa descobre cópias do 1º filme da Capital
Após 59 anos, pesquisa descobre cópias do 1º filme da Capital
Jornalista Rodrigo Teixeira resgatou paradeiro do filme e revelou a verdade em catalogo digital (Foto: Juliano Almeida e Irineu Higa)

O que ninguém imaginava era que Bernardo Elias Lahdo, produtor e escritor do livro que deu origem ao longa, guardou “segredo” sobre a existência de um segundo material de 16 milímetros. “Nenhum jornal me perguntou e eu nunca desmenti”, comentou ao Lado B durante o lançamento do catálogo nesta terça-feira (28). A estreia foi feita no auditório de Arquitetura da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). O material pode ser conferido neste link.

Rodrigo conta que um dos materiais existentes na Cinemateca apresenta danos significativos na estrutura do filme e que não pode mais  ser reproduzido, mas o outro está em boas condições. O de Bernardo precisa passar por estudos para saber se há possibilidade de reprodução. "Tem 2 possibilidades de restauração. Com material da Cinemateca em 35 e a fita em 16mm do Bernardo, que parece em bom estado".

Para quem não lembra, o original do filme de 35 milímetros foi queimado junto com o Cine Acapulco, em 2000. O motivo do incêndio ainda é um mistério. Criminoso ou não, o episódio enterrou a história do filme, pelo menos até antes da pesquisa.

“Eu decidi fazer o catálogo para mostrar a extensão que o filme foi divulgado, os anos em que foi falado na mídia. Foram mais de 200 matérias para rastrear se existia algum rastro desse material. É para tirar as lendas do lugar e colocar a história que o catálogo vem. Mostra que Campo Grande era capaz de fazer um filme audiovisual.

Após 59 anos, pesquisa descobre cópias do 1º filme da Capital
Após 59 anos, pesquisa descobre cópias do 1º filme da Capital
Bernardo, Abboud Lahdo nunca contou que tinha o original de 16 milímetros (Foto: Arquivo pessoal e Juliano Almeida)

Ele explica que antes a produção local era voltada para temas como natureza e povos indígenas. “Filmes de ficção não existiam, então o Paralelos vem para trazer a cultura moderna, o voo mais urbano e voltado para o ser humano do que a coisa regional. É a primeira ação, digamos, modernista que vai mudar o cenário”.

Paralelos Trágicos foi dirigido pelo irmão de Bernardo, Abboud Lahdo, que também atuou no filme. Ele foi lançado em 13 de janeiro de 1967, no Cine Alhambra. Hoje, aos 81 anos, Bernardo relembra a première do filme e de quando lançou o livro, diz ter sido a maior noite de autógrafos da história na época.

“Na noite de lançamento do livro fecharam o trânsito da Rua Barão de Rio Branco até a Afonso Pena. Foram mais de 4 mil pessoas e autografei mais de 2 mil livros. A ideia do filme foi do meu irmão, que dirigiu e atuou. Eu acabei adaptando o livro para o cinema. As adaptações sempre sofrem algumas mudanças. Uma coisa é escrever e outra é mostrar. Na época nós usamos a ideia de ‘uma ideia e uma câmera’. Foi o único filme que foi feito com técnicos e atores de Campo Grande, na época era Mato Grosso Uno”.

Após 59 anos, pesquisa descobre cópias do 1º filme da Capital
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Cena do filme “Paralelos Trágicos”, 1º longa de ficção de Campo Grande (Foto: Irineu Higa e Jornal A Luta)

Ele explica que a montagem e edição do filme tiveram que ser feitas em São Paulo porque em Campo Grande ainda não existiam estúdios para isso. “Entre a filmagem e edição tivemos 1 ano e meio. Tivemos problemas com a censura, consideraram o filme terrorista e pornográfico porque aparecia uma mulher tomando banho e não estava nua totalmente. Nem beijos tinham. O filme custou, na época, uns R$ 80 milhões de cruzeiros”.

Para ele, falar de novo sobre a grande obra da sua vida é, além de uma alegria, uma realização. “Resgatar ele é emocionante. Fico arrepiado. O reconhecimento do público mexe com os nossos nervos e neurônios. Só tenho que agradecer”.

A paixão pelo cinema nasceu de incontáveis horas dedicadas a assistir aos clássicos das telinhas e da influência da família. Bernardo chegou a fazer parte de um grupo de estudo de cinema que ficava das 8h às 20h vendo filmes. A ideia do cinema surgiu do meu irmão Abudi, que sempre gostou de cinema. “Ele tem a maior coleção de livros sobre o cinema e eu acabei aprendendo com ele e realizamos. Meu pai era músico, ligado às artes”.

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Jornais da época noticiaram todos os desdobramentos do filme (Foto: Arquivo Abboud Lahdo)

Rodrigo conheceu os Lahdo em 2008, quando era editor no jornal O Estado e, atrás de uma pauta, chegou a fazer uma entrevista com o elenco e produção do longa. “Aí que tive contato. Bernardo não falava sobre e eu, na minha ânsia jornalística, falei que falaria sobre essa história. Criei uma relação com os irmãos”.

Apesar do que muitos acham, Paralelos Trágicos nunca saiu do debate público. Ele foi citado, discutido e lembrado entre 1964 e 2024, com registros em 54 veículos de imprensa de cinco estados e do Distrito Federal.

Trama

Paralelos Trágicos acompanha a vida de Roberto, professor de História que enfrenta uma sequência de perdas. Após a morte da esposa durante o parto da filha, ele entra em colapso psicológico, abandona a filha em um internato e acaba vivendo nas ruas. Antes disso, vive um romance proibido com uma aluna, enfrentando a oposição do pai dela, um homem rico e influente na época. O desfecho é trágico para ambos.

O filme circulou entre 1967 e 1971 em cidades como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF) e Campinas (SP). A trilha sonora contou com o maestro paraguaio Hermínio Gimenez, referência na música latino-americana. O diretor francês Claude Lelouch chegou a ser convidado para dirigir o filme, mas acabou não conseguindo por problemas pessoais.

Na época do lançamento, o filme enfrentou censura durante a ditadura militar. Foi classificado como inadequado por cenas consideradas sensíveis, mesmo sem nudez explícita. Ainda assim, teve impacto social. Parte da arrecadação da estreia foi destinada à rede feminina de combate ao câncer, contribuindo para a estrutura inicial do hospital oncológico de Campo Grande.

O catálogo "Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos" é um projeto realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, através do Ministério da Cultura (Minc), operacionalizado pelo Governo de Mato Grosso do Sul, por meio da Fundação de Cultura de MS.

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